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A leitura fiel da Bíblia
De acordo com a Tradição e o Magistério da Igreja
Autor
Carlos Mesters oc, traduzido do espanhol para o português por Círio M. Oliveira


Introdução: Interpretação e fidelidadeEditar

Interpretar é possibilitar a comunhão entre duas pessoas que querem dialogar. É conseguir que a palavra de uma pessoa seja traduzida para a língua da outra. Por isso, o intérprete deve ser fiel às duas pessoas que querem dialogar: à Palavra da Bíblia através da qual Deus nos fala e ao povo que escuta hoje a palavra de Deus com a ajuda da Bíblia. Entre estas duas fidelidades, a fidelidade ao Verbo Encarnado e a fidelidade ao homem de hoje, não pode e não deve existir nenhuma contradição (Paulo VI, Alocução aos professores de Sagrada Escritura, sobre a Obra da Igreja para a Interpretação da Palavra de Deus, 25 de Setembro de 1970).

A fidelidade à Igreja, à Tradição e ao Magistério é tão importante para a interpretação da Bíblia como a raiz para a árvore. Sem ela, a árvore morre. Mas a raiz deve estar debaixo da terra. Não aparece, e não deve aparecer! É como a respiração. Sem ela, a pessoa morre. Sem dúvida, não é bom nem recomendável, a cada respiração dizer estou respirando. Não é pelo fato que o intérprete cite ou não cite a Tradição ou o Magistério, que a sua interpretação é fiel ou infiel. O importante não é citar, mas obedecer (ver Mt 21,28-32).

O que aqui vamos expor são coisas muito simples. São normas hermenêuticas da leitura cristã da Bíblia, que vem da Tradição e do Magistério e que convergem na Constituição Dei Verbum (DV). O fato que sejam exatamente dez normas, tem somente finalidade didática: Facilitar a memorização e ajuda a assimilação.

Crer que a Bíblia é Palavra de DeusEditar

Esta fé é o ponto de partida para tudo. É a porta de entrada. Sem ela, o povo já não teria nenhum interesse pela Bíblia. A Bíblia é Palavra de Deus porque foi inspirada por Deus (ver 2Tm 3,16. Deus é seu autor, como nos afirma o Vaticano II na DV 11).

Por ser Palavra de Deus, a Bíblia tem autoridade. Junto com a Tradição, ela é para a Igreja a suprema regra de sua fé (DV 21). A Palavra de Deus está na raiz da Igreja. A Igreja, a comunidade, depende dela, como a água de sua fonte. O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, oral ou escrita, foi encomendado unicamente ao Magistério da Igreja, o qual o exerce em nome de Jesus Cristo. Mas o Magistério não está por cima da Palavra de Deus, mas a seu serviço (DV 10); deve escutá-la e guardá-la para poder expô-la fielmente.

Por ser Palavra de Deus, a Bíblia nos transmite fielmente e sem erro a verdade que Deus quis consignar em tais livros para nossa salvação (DV 11). Por isso, a Igreja, a comunidade, busca nela uma luz para iluminar os passos do Povo de Deus no caminho da salvação e da libertação, pois a Palavra de Deus não está somente na Bíblia. Deus fala também através da vida, da natureza, da história. Deus, criando e conservando o universo por sua Palavra (ver Jo 1,3), oferece aos homens na criação um testemunho perene de Si mesmo (ver Rm 1,14-20); querendo, além do mais, abrir o caminho da salvação sobrenatural, se revelou desde o princípio aos nossos primeiros pais. Depois de sua caída, os levantou para a esperança da salvação (ver Gn 3,15) com a promessa da redenção; depois cuidou continuamente do gênero humano, para dar vida eterna a todos o que buscam a Salvação com a perseverança nas boas obras (ver Rm 2,6-7) (DV 3).

Por ser Palavra de Deus, a Bíblia tem uma força poderosa para realizar o que transmite. E é tão grande o poder e a força da Palavra de Deus, que constitui sustento e vigor da Igreja, firmeza de fé para seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene de vida espiritual (DV 21. E isto está acontecendo hoje, sobretudo nas comunidades cristãs dos pobres. Por ser Palavra de Deus, inspirada por Deus, a Bíblia quando é lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita (DV 12), comunica o Espírito aos que a leem com fé.

Por ser Palavra de Deus, inspirada por Deus, enquanto é lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita (DV 12), comunica o Espírito aos que a leem com fé. A Lectio Divina vai fazendo com que o modo de pensar de Deus se converta no nosso modo de pensar. Ajuda a romper em nós as falsas ideologias que mantém prisioneira a Palavra de Deus, pois ela nos comunica o conhecimento de Deus e do homem. E o modo como Deus, justo e misericordioso, trata com os homens (DV 15). A Lectio Divina deve realizar tudo o que diz São Paulo em suas cartas: É útil para instruir, refutar, corrigir e formar na justiça (2Tm 3,16). Comunica "perseverança e consolo" (Rm 15,4) e serve como exemplo e instrução para nós, que vivemos o fim dos tempos (1Cor 10,6-11).

É Palavra de Deus em linguagem humanaEditar

Pelo mistério da Encarnação, a Palavra de Deus assume as características e as formas da linguagem humana. Jesus é igual a nós em tudo, menos no pecado. Assim também a linguagem usada por Deus para comunicar-se conosco na Bíblia é igual a nossa linguagem em tudo, menos no erro e mentira. A Palavra de Deus não é uma Palavra distante, alienada, separada do curso da história. Na Sagrada Escritura Deus falou através dos homens e de modo humano (DV 12).

Por ser Palavra de Deus, a Bíblia deve ser interpretada com a ajuda dos critérios próprios da fé. Mas por ser Palavra de Deus em linguagem humana, deve ser interpretada também com a ajuda dos critérios que se usam para interpretar a linguagem humana (DV 12). As encíclicas Providentissimus Deus (Leão XIII, 1893) e Divino Afflante Spiritu (Pio XII, 1943), foram as que mais animaram os exegetas católicos nesta direção.

Desde o início do Século XX, os intérpretes usam, com muito proveito, os métodos da crítica literária, da investigação histórica, da etnologia, da arqueologia, da paleontologia e de outras ciências (ver Pio XII, Divino Afflante Spiritu, 20). Mais recentemente, sob a pressão dos problemas que questionam a fé do povo sobretudo aqui, na América Latina, eles aplica, também os métodos de análise das ciências sociais. Alguns destes métodos tem pressupostos filosóficos contrários à fé cristã. Seu uso sem dúvida, no dizer de João Paulo II, não implica a aceitação destes pressupostos. Pelo contrário, tais métodos podem ser muito úteis no descobrimento do sentido da Bíblia. O exegeta esclarecido pela fé não pode, evidentemente, aceitar tais pressupostos, mas nem por isso deixará de tirar proveito do método. Desde o Antigo Testamento, o Povo de Deus foi sempre animado a enriquecer-se dos despojos dos Egípcios (Alocução à Pontifícia Comissão Bíblica, sobre os métodos usados na interpretação da Bíblia, 7 de abril de 1989).

A grande variedade de métodos pode, às vezes, dar a impressão de uma certa confusão. Mas tem também a vantagem de fazermos perceber a riqueza inesgotável da Palavra de Deus (João Paulo II, ibid). Todo método tem seus limites. Reconhecer estes limites é parte do espírito científico. O exegeta crente deve ter consciência da relatividade de suas investigações científicas. Esta modéstia garante a autenticidade de sua interpretação e mantem sua exegese a serviço da Evangelização (João Paulo II, ibid).

Deus se revela a si mesmo na sua PalavraEditar

Por meio a revelação, Deus quis manifestar-se a Si mesmo e seus planos de salvar o homem, para que o homem se faça partícipe dos bens Divinos, que superam totalmente a inteligência humana (DV 6). Assim, antes que um catálogo de verdades, a Bíblia é a manifestação da graça, do amor e da misericórdia de Deus para conosco (Ver DV 2). Ele nos amou por primeiro! (1Jo 4,19). O objetivo principal da Bíblia, e sua interpretação, é ajudar o povo a descobrir a presença amiga e gratuita deste Deus e experimentar seu amor libertador.

Para os pobres e oprimidos, esta revelação divina significou, desde o princípio, que Deus se inclinou e se aproximou para escutar seu clamor, caminhar com eles, estar com eles na sua aflição e libertá-los do cativeiro (ver Ex 3,7-8; Sl 91,14ss). Na sinagoga de Nazaré, Jesus atualiza nele, que Deus escuta, se compadece e liberta o pobre (ver Lc 4,16-21). Por isso, podemos dizer que esta é a maior certeza que a Bíblia nos comunica. Deus escutou o clamor de Jesus, ressuscitando-o da morte (Hb 5,7). Esta é a medula de toda a revelação expressa no nome de YAVÉ, Deus conosco.

A revelação que Deus faz de si mesmo ao povo sofredor, se realiza progressivamente através da história (ver DV 2 e 14). De todos os períodos da história, o Êxodo foi o que mais marcou a consciência e a memória do povo de Deus. Marcou tanto, que o Novo Testamento chegou a usar imagens e temas do Êxodo para expressar o significado de Jesus para a vida. Esta mesma importância do Êxodo se reflete até nossos dias quando na liturgia da Vigília Pascal, a Igreja nos pede que não se suprima por nenhum motivo a leitura do Êxodo.

A leitura da Bíblia funciona como se fosse colírio. Vai limpando os olhos, devolve o olhar de contemplação que nos foi roubado pelo pecado. Em seu livro sobre a exegese dos Santos Padres, citando frases de Santo Agostinho e de outros Padres da Igreja, H. de Lubac formula assim o objetivo da Bíblia: O Espírito Santo, dedo de Deus, que já havia modelado as cartas da criação, recomeçou a trabalhar para compor este novo livro: Ele estendeu sobre nós o céu das Escrituras; desenrolou este segundo firmamento que, como o primeiro, narra o poder de Deus e melhor que o primeiro, canta sua misericórdia. Graças a ele nos é restituído o olhar de contemplação e assim cada criatura se torna para nós uma teofania (ver H. de Lubac). Colírio que nos torna capazes de tirar o véu dos fatos para experimentar neles a presença libertadora de Deus: Vocês podem, hoje, ouvir sua voz (Sl 95,7). É isto o que está acontecendo nas Comunidades Eclesiais de Base: Uma verdadeira experiência de Deus vivo, que surgiu desde o critério de caminhar do povo, na medida que esteja sendo iluminado pela leitura fiel da Bíblia.

Esta revelação e experiencia de Deus são fruto, ao mesmo tempo da graça de Deus e do esforço do povo que caminha e luta. De um lado, a Revelação Divina provoca colaboração e participação e exige a observância da aliança, de outro lado, ela faz partícipes dos bens Divinos que superam totalmente a inteligência humana (DV 6). Eficiência e gratidão, luta e festa; que graças a ambos se mesclam na unidade conflitiva do caminhar do povo de Deus.

Revelação pública, fora da que houve no povo de Israel e em Jesus não haverá mais, antes da vinda de Jesus (ver DV 4). Mas esta revelação realizada no povo de Israel e descrita no Antigo Testamento, se converteu numa experiência modelo, cânon ou norma. Ela permite saber como está Deus presente e como se revela nas histórias de todos os povos. Ela nos revela a economia da Salvação (ver DV 14), o projeto de Deus, os decretos eternos de sua vontade acerca da Salvação dos homens (ver DV 6). Na história da Igreja, o Magistério condenou, várias vezes, aos que afirmam que existia uma diferença entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus do Novo Testamento (ver Enchiridion Biblicum 28 e 30). É o mesmo Deus que se revela em ambos! Sem dúvida, a plenitude da Revelação de Deus se faz em Jesus Cristo (ver DV 4).

Jesus é a chave principal da Sagrada EscrituraEditar

É uma verdade sempre repetida por toda a Tradição e constantemente ensinada pelo Magistério. Jesus é o centro, a plenitude e o objetivo da Revelação que Deus vinha fazendo de Si mesmo desde Abraão e desde a criação (ver DV 2, 3, 4, 15, 16, 17). Isto não quer dizer que o Antigo Testamento foi superado, pelo contrário! o Antigo Testamento revela as intenções de Deus (DV 14) ajuda a conhecer ao Pai de Jesus Cristo (ver DV 2, 3, 4, 15) e ensina como preparar-se para a vinda de Jesus. Os livros íntegros do Antigo Testamento incorporados à pregação evangélica, alcançam e mostram sua plenitude de sentido no Novo Testamento (ver Mt 5,17; Lc 24,27; Rm 16,25-26; 1Cor 3,14-16) e por sua vez o iluminam e o explicam (DV 16).

Sem o Antigo Testamento, não poderíamos entender todo o significado de Jesus para a vida. Os principais títulos, dados a Ele no Novo Testamento, vem todos do Antigo Testamento: Senhor, Cristo, Servo, Filho do Homem, Profeta, Sumo Sacerdote, Filho de Deus. O próprio Jesus usava frases, expressões e temas do Antigo Testamento para revelar o significado de sua missão e ensinamento. Por exemplo: Antigamente foi dito ... Eu porém vos digo... (Mt 5,21-48); O tempo se cumpriu e o reino de Deus chegou (Mc 1,16); O Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu para anunciar a Boa Nova para os pobres (Lc 4,18). Os primeiros cristãos chegavam a dizer que Jesus já estava escondido no Antigo Testamento: A pedra era Cristo (1Cor 10,3-4). Diziam que Jesus era o sim do Pai a todas as promessas do Antigo Testamento (1Cor 1,20). Resumindo, era no AT que eles buscavam a carteira de identidade de Jesus. Deste modo mais ou menos, metade do NT é citação, evocação, referência ou interpretação do Antigo Testamento. O NT é o fruto que nasceu da interpretação do AT, realizada à luz da experiência que tinham os cristãos de Jesus Cristo, vivo no meio da comunidade.

Esta presença escondida de Cristo no Antigo Testamento, só a entrevê quem se converte a Cristo (2Cor 3,16). A experiência viva de Jesus na comunidade, é a luz nova nos olhos dos cristãos para poder entender todo o sentido do AT e de sua própria história (ver DV 16). Tudo isto tem uma atualidade muito grande para nós: Em primeiro lugar Jesus, à luz de quem devemos ler o AT, não é teoria, uma ideia, nem só alguém o passado que já não existe. É o Cristo vivo hoje, na Igreja, nas comunidades, aqui na América Latina, animando a fé do povo. Ler o AT à luz do NT, não quer dizer que se deva falar constantemente sobre Jesus. Melhor, quer dizer, em primeiro lugar, que se deve falar a partir de Jesus, partir da fé iluminadora de que Ele está vivo hoje, no meio de nós. Cristo como que está ao nosso lado, olhando conosco o AT, clarificando com sua luz e ajudando-nos a entendê-lo.

Em segundo lugar, não se trata somente de saber como os primeiros cristãos souberam descobrir as figuras de Jesus no AT (ver DV 15). Trata-se em primeiro lugar, de ser alunos dos primeiros cristãos e de fazer hoje o que eles fizeram, a saber: Descobrir como o AT nosso, isto é, nossa história, está sendo impulsionada ocultamente, pelo Espírito de Jesus, para a plenitude da ressurreição; descobrir como o significado da Sagrada Escritura pode relacionar-se com ele com o momento salvífico (Paulo VI). De modo pois, que o Novo está latente no Antigo e o Antigo se esclarece no Novo (ver DV 16).

Existe um dinamismo dentro da história humana, vindo d próprio criador, que criou tudo para Cristo (Ef 1,4; Cl 1,16). Por isso Palavra Vida insiste na história dos povos da América Latina.

Em terceiro lugar, aparece aqui a importância da exegese dos Padres da Igreja. Eles procuravam descobrir o fruto do Espírito sob as folhas da letra (S. Jerônimo). Isto é, eles buscavam descobrir como os textos antigos da Bíblia iluminavam a presença viva de Cristo, a situação da comunidade e a vida de cada cristão. Faziam uma interpretação simbólica (Symballo), isto é, sabiam unir (symbolon), vida e fé, Antigo Testamento e Novo Testamento, ontem e hoje, a história da Bíblia e a própria história.

Aceitar a lista completa dos livros inspiradosEditar

Existem duas listas de livros inspirados: a judaica que compreende somente os livros do Antigo Testamento e a lista cristã que compreender os livros do Antigo e do Novo Testamento (existe uma divergência menor entre a lista dos católicos e os protestantes). Aceitar a lista completa é aceitar a unidade dos dois testamentos (ver DV 16) e ler o Antigo Testamento a partir do Novo.

A lista completa da Igreja Católica foi definido no Concilio de Florença, em 1441 e mais tarde, no Concilio de Trento, 1546. Na formulação da definição, o Concilio diz que se deve aceitar como inspirados todos os livros tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes (DV 11). Isto significa que não se pode excluir nenhum texto, livro ou testamento. Só aos Evangelhos lhes cabe uma certa primazia (ver DV 18).

Nesta quinta norma não se trata apenas de uma questão teórica do passado. Aceitar a lista completa dos livros inspirados, significa aceitar que uma mesma economia divina, une os dois Testamentos num único Projeto de Salvação e de libertação. Projeto que só se revela plenamente na medida em que o Antigo passa a ser Novo. A passagem do Antigo para o Novo, começou no momento da Ressurreição de Jesus e todavia não terminou. Em cada momento, novos povos e novas pessoas vão entrando no Caminho (At 9,2). esta passagem (Páscoa) do Antigo para o Novo, envolve a tudo e a todos, pois tudo foi criado por Deus para Cristo. Assim cada pessoa, grupo, comunidade, povo ou nação, tem seu Antigo Testamento e deve realizar sua passagem para o Novo, isto é, deve aprofundar sua vida, até descobrir em sua raiz a presença amiga e gratuita de Deus, impulsionando tudo para Cristo e sua ressurreição. A Bíblia com seus dois Testamentos é a norma, o Cânon, dado por Deus, para ajudar-nos no discernimento e na realização desta nova passagem (Páscoa) de salvação e de libertação.

A Bíblia é o livro da IgrejaEditar

Na Igreja existe a Palavra de Deus e o Corpo de Cristo (ver DV 21). Quando o povo se reúne em torno da Palavra de Deus, forma algo assim como um pequeno santuário. É o templo vivo do qual fala São Paulo (ver Ef 2,21; 1Pd 2,5). Hoje, os inumeráveis santuários que se espalham pela América Latina sobretudo entre os pobres, são as pontas finas e frágeis da raiz, que dão força e vigor à árvore da Igreja. Nestes pequenos santuários, o povo lê e interpreta a Bíblia como livro da comunidade, da Igreja.

Interpretar a Palavra de Deus não é atividade individual de uma só pessoa que estudou um pouco mais que as outras, senão uma atividade comunitária na qual todos participam, cada um a seu modo. Juntos descobrem a vontade de Deus, através da leitura e a meditação da Palavra de Deus. O exegeta, como todo mundo, participa com sua parte e se coloca a serviço da comunidade. Aos exegetas toca aplicar estas normas a seu trabalho para ir penetrando e expondo o sentido da Sagrada Escritura, de modo que com dito estudo pode amadurecer o juízo da Igreja (DV 12). Deste modo, pouco a pouco surge e cresce um sentido comum, aceito e compartilhado por todos. É o sensus ecclesiae ou sensus fidelium ou "sentido de fé da Igreja", com o qual a comunidade se compromete como se fosse com o mesmo Deus.

O sentido da fé da Igreja é o grato descobrimento da presença amiga de Deus Vivo, pois movido de amor, fala aos homens como amigos (ver Ex 33,11; Jo 15,14-15), trata com eles (ver Br 3,38) para convidá-los e recebe-los em sua companhia (DV 2). O sentido da fé que a Igreja vai descobrindo na Escritura é como um rio imenso. Nasce bem pequeno naqueles humildes santuários, espalhados pela periferia do mundo. Os afluentes se juntam formando os riachos. As comunidades, coordenadas por seus Pastores, se encontram e compartilham entre si sua fé, sua maneira de ler e entender a Palavra de Deus. As comunidades da América Latina, representadas por seus Pastores, se reuniram em Medellín e Puebla e ali expressaram qual era a vontade de Deus para nós, hoje, aqui neste continente, o mesmo fizeram as comunidades do mundo inteiro. Convocadas pelo Papa João XXIII e representadas por seus legítimos Pastores, se reuniram em Roma para o Concílio Vaticano II. Nos 16 documentos conciliares expressaram qual era a vontade de Deus descoberta à luz de sua Palavra. Assim para os cristãos do mundo inteiro vai crescendo o sentido de fé da Igreja. Este sensus ecclesiae fielmente guardado e transmitido, sob o olhar vigilante do Magistério, é o espaço dentro do qual se deve ler e interpretar a Bíblia. É a marca de referência, nascida da própria meditação comunitária da Palavra de Deus, que nos permite entender o sentido da Bíblia para nós hoje.

Interpretar a Bíblia de acordo com a Tradição e o Magistério exige não só uma identificação teórica com a Doutrina da Igreja, mas também e sobretudo, uma identificação prática com a vida da Igreja. Exige que o intérprete se ligue muito concretamente, a uma comunidade. Normalmente é através da vivência em comunidade como se entra em contato com a ação do Espírito Santo, vivo e presente na Igreja. Sem este Espírito é impossível interpretar corretamente a Sagrada Escritura (ver DV 12).

A Tradição, a Escritura e o Magistério estão de tal modo entrelaçados e unidos, que um perde sua consistência sem os outros e que juntos cada qual a seu modo, sob a ação do Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas (DV 10). Esta união entre os três, não é automática nem mágica; como a união de Jesus com o Pai, ela se realiza através da obediência às vezes dolorosa (ver Hb 5,8; Fl 2,8; Jo 4,34; 8,28-29). O Magistério, deve ele mesmo obedecer e estar muito unido à Tradição e à Escritura pois exerce sua autoridade em nome de Jesus Cristo (ver DV 10). O ofício de declarar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou transmitida, foi unicamente confiado ao Magistério vivo da Igreja (DV 10).

Este ofício foi exercido mui poucas vezes. Não são muitos os textos cujo sentido foi declarado autêntico pelo Magistério. Isto não que dizer que, na interpretação dos outros textos, o intérprete não deva levar em conta a fé da Igreja. O papel da Igreja e do Magistério na interpretação da Bíblia não consiste só em declarar autêntico o sentido de um ou outro texto controvertido da Bíblia. Seu papel é mais amplo: estimular e animar a leitura da Sagrada Escritura, defende-la de possíveis desvios, mante-la dentro dos rumos da Tradição e do objetivo da própria Palavra de Deus, difundi-la entre o povo de Deus, até o ponto que se converta no alimento diário de todos os fieis (ver DV 21-25: A Sagrada Escritura na vida da Igreja - o objetivo de toda a Igreja em relação à Bíblia. É onde a flor se abre e revela seu perfume e sua beleza. Por isso, o Magistério deve motivar e discernir a profecia e a novidade do Espírito e ver com agradecimento, o fenômeno mais destacado da história da Igreja na América Latina: Os pobres estão lendo a Bíblia em comunidade, a partir de sua fé e de sua realidade; encontram nela luz e força para seu caminhar e sua história.

Levar em conta os critérios da FéEditar

Não basta a razão para descobrir o sentido da Bíblia. A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com aquele mesmo Espírito com que foi escrita (ver DV 12). Para que o Espírito Santo possa atuar é necessário levar em conta os critérios próprios da fé. Atender com diligência o conteúdo e unidade de toda a Escritura. Levar em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da Fé (ver DV 12). Os três tem o mesmo objetivo: descobrir o sentido pleno da Bíblia, impedir que seu sentido seja manipulado e evitar que o texto seja isolado de seu contexto e d tradição que o gerou e que o trnsmite.

Vejamos os três:

Atender ao conteúdo e à unidade de toda a EscrituraEditar

Este critério mostra a importância de ter uma visão global de toda a Bíblia, pois a visão de conjunto amplia o sentido de um texto, ajuda a situá-lo dentro de seu contexto (literário, histórico e teológico) dá luz para iluminar as diferentes partes e detalhes e impede que se absolutize certos textos em detrimento de outros. trata-se de um critério bem elementar, muito antigo, que vem dos Rabinos e Padres da Igreja, segundo o qual, a Bíblia se explica pela Bíblia.

Levar em conta a Tradição viva de toda a IgrejaEditar

A Tradição envolve a Bíblia antes, durante e depois. Antes de ser escrita, a Bíblia era narrada. Depois, se foi escrevendo, pouco a pouco, dentro de um processo de transmissão das histórias e doutrinas, costumes e tradições do povo. Finalmente, uma vez escrita, continuou sendo transmitida de geração em geração, até hoje, dentro de uma tradição viva.

Há aqui vários aspectos a considerar:

  1. É importante mostrar como um texto não caiu do céu, mas que nasceu dentro da tradição viva da fé do Povo de Deus, tomando posição em meio aos conflitos do caminhar. lido e relido pelas gerações posteriores, o texto é carregado pela Tradição como um barco pelo rio. Este processo de leitura e releitura se encontra na origem da Bíblia. Vejamos alguns exemplos deste processo na própria Bíblia: No livro do Gênesis temos dois relatos da criação; duas vezes se relata a vocação de Abraão; há vários Salmos que meditam a história, porém cada um a medida a seu modo. O livros das Crônicas faz uma releitura que nem sempre respeita a fonte; no Pentateuco há indícios de quatro tradições diferentes que, cada uma a seu modo faz uma leitura da história do povo: Javista, Eloísta, Sacerdotal e Deuteronomista.
  2. A Bíblia, dentro da Tradição viva da Igreja, é a continuação deste processo; é o mesmo rio correndo em direção ao mar, carregando o mesmo braco. Não se pode deixar de lado a Tradição da Igreja para ficar só com o texto. A interpretação da Bíblia, ao longo dos séculos, foi explicando o sentido, foi fazendo nascer o fruto, cuja semente estava na Bíblia. Além disso, a vivência da fé em situações diferentes, gerou tradições diferentes que já aparecem na própria Bíblia e marcam toda a história da Igreja. O estudo da Tradição ajuda a descobrir como a mesma fé pode ser encarnada e vivida em situações tão diferentes como as que vivem nossas comunidades.
  3. Tudo isso mostra a importância do estudo da exegese dos Santos Padres (ver DV 23). A exegese dos Santos Padres é importante sobretudo, pela visão sempre atual com que se olha, lê e interpreta a Bíblia.

Levar em conta a analogia da FéEditar

O texto deve ser lido não só dentro do conjunto da Bíblia, nem só dentro do conjunto da Tradição, mas também dentro do conjunto da vida atual da Igreja. Deve obedecer, não só às exigências da fé de antes, mas também às exigências da fé de hoje. É isto o que se chama analogia da fé. A fidelidade à Palavra Encarnada exige também, em virtude da dinâmica da encarnação, que a mensagem se faça presente com toda a sua integridade, não só ao homem em geral mas ao homem de hoje, aquele ao qual se anuncia agora a mensagem. Cristo se fez contemporâneo de alguns homens e falou na sua linguagem. A fidelidade a Ele exige que esta contemporaneidade siga existindo. Nisto consiste toda a obra da Igreja, com sua Tradição, o Magistério e sua pregação (Paulo VI Alocução aos professores de Sagrada Escritura. Novembro de 1970). Deste modo, a Bíblia é colocada em seu lugar dentro do plano de Deus e se evitam exageros e diminuições indevidas.

Levar em conta os critérios da realidadeEditar

Os critérios da realidade se situam em dois níveis diferentes: a realidade do povo do tempo em que foi escrita a Bíblia e a realidade do povo que hoje lê a Bíblia. Ambos têm suas exigências para levar em conta na interpretação. Trata-se de descobrir o solo comum humano que une o povo da Bíblia e o povo da América Latina numa mesma situação diante de Deus e assim criar a abertura, para perceber o alcance do texto para nossa realidade.

Neste ponto, sem dúvida, não há consenso. Segundo alguns, a exagerada insistência na realidade, tanto de antes como de agora, levaria a um concordismo fácil e seria uma forma dissimulada de manipular o texto. Aqui também estaria a causa de uma leitura reducionista que só busca uma transformação, sócio-econômica-políitca.

Vejamos:

  1. Levar em conta a realidade do povo do tempo em que foi escrito o texto. Neste ponto, o Magistério da Igreja, não deixa nenhuma dúvida. O intérprete deve transportar-se com o pensamento a aqueles tempos antigos do oriente (DAS 20). Deve investigar a situação e a cultura do tempo do escritor do texto bíblico e descobrir as circunstâncias que o levaram a escrever, para que possa chegar a descobrir o sentido exato do texto (ver DV 12). Para alcançar o objetivo, o intérprete deve usar as ciências com seus respectivos métodos.
    Os métodos de análise das ciências sociais ajudam a perceber melhor o aspecto econômico, social, político e ideológico da situação do povo daquele tempo; deste modo, com a ajuda das ciências, o intérprete estabelece o sentido em si do texto e o prepara para que o leitor possa descobrir nele o sentido que ali existe para nós. Ou seja, ele estabelece uma certa conaturalidade entre os interesses atuais e o assunto do texto, para que possa estar disposto a ouvi-lo (Paulo VI). A necessidade de levar em conta a realidade do povo do tempo em que foi escrito o texto, é consequência natural da nossa fé à Tradição dos Padres da Igreja. Antes de buscar os frutos do Espírito, eles mandavam investigar a letra e a história. Além disso, situando o texto no contexto concreto e conflitivo de sua origem, ajuda-se o leitor a superar o fundamentalismo que causa tantos problemas e estragos na fé do povo.
  2. Levar em conta a realidade do povo que hoje lê o texto. A Bíblia nasceu da preocupação de reencontrar, na realidade conflitiva de cada época, o chamado de Deus de sempre. O próprio Jesus explicou a Bíblia, partindo dos problemas que os dois discípulos de Emaús estavam vivendo (ver Lc 24,13-35). Paulo VI diz que não basta que o intérprete explore o sentido histórico do texto. Deve explorá-lo também em relação ao homem contemporâneo (ver Paulo VI Alocução aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, sobre a importância dos estudos bíblicos, em 14 de março de 1974). E outro discurso agrega: a fidelidade ao homem moderno, mesmo que árdua e difícil, se queremos permanecer inteiramente fieis à mensagem, é necessária! (ver Paulo VI Alocução aos professores de Sagrada Escritura da Itália, Novembro de 1970). Aqui na América Latina, isto significa fidelidade aos pobres.

Ler a Bíblia a partir dos pobres exige que se descubra e analise as causas que geram a pobreza, causas econômicas, sociais políticas e ideológicas. Não se trata de leitura reducionista da Palavra de Deus. Pelo contrário, se amplia o ângulo de visão. Assim a interpretação deixa de ser espiritualista e alienada, passa a iluminar as situações mais concretas da vida do povo e volta a ser Boa Notícia para os pobres.

Leitura orante da BíbliaEditar

A Bíblia deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito em que foi escrita (ver DV 12). Como vimos, isto exige que o intérprete use os critérios da fé e da realidade. Mas não basta. O descobrimento do sentido depende não só do estudo, já que também tem a ver com a vivência, tanto da fé, como da vida do povo. Exige criar um ambiente onde o Espírito possa atuar, obrar livremente e revelar o sentido que o texto antigo tem para nós hoje, aqui na América Latina. Chama-se Sentido Espiritual.

Concretamente, isto significa que se deve:

  1. Criar um ambiente de escuta e de silêncio;
  2. Ter uma preocupação constante pela vida do povo com seus problemas e deixar que as alegrias e tristezas do povo, estejam em nossa mente, em nosso coração, nas mãos e nos pés;
  3. Envolver tudo na oração;
  4. Dedicar um tempo para a celebração da Palavra e não só para o estudo;
  5. Fazer com que o estudo termine em participação, em oração e em compromisso concreto;
  6. Dar a devida importância à liturgia, aos sacramentos, ao Ofício Divino e também às formas de piedade que o povo criou para celebrar e animar sua fé;
  7. Saber celebrar a Palavra como Sacramento de Cristo vivo no meio da comunidade.

Agora bem, isto é exatamente o mesmo que o povo das Comunidades Eclesiais de Base, nos ensina por meio de sua prática: ele nunca se reúne em torno da Palavra de Deus sem rezar e sem cantar.

Uma palavra vale não só pela ideia que transmite, mas também pela força que comunica. Não só diz, faz; não é só um meio para conscientizar, mas também para transmitir o calor e a força da amizade e o amor. Luz e Força! Estes dois aspectos da Palavra de Deus, devem ser ativados pela leitura da Bíblia. O termo hebreu Dabar, significa ao mesmo tempo Palavra e Coisa: diz e faz, anuncia e assinala, ilumina e fortalece, luz e força. Palavra e Espírito. Na história da Igreja este tipo de leitura recebeu o nome de Lectio Divina, muito recomendada pelo Concílio (ver DV 25).

O intérprete deve fazer o mesmo, colocar-se sob o juízo da Palavra de Deus e deixar que ela se encarne em sua vida: Quem indaga a Sagrada Escritura, é primeiro indagado por ela e por isso, deve aproximar-se dela com espírito de humilde disponibilidade, necessário para a plena compreensão de sua mensagem (ver Paulo VI Alocução aos professores de Sagrada Escritura da Itália, novembro de 1970).

Em outro discurso, citando Santo Agostinho, o Papa diz: Aqueles que se consagram ao estudo das Sagradas Escrituras, não basta recomendar que sejam versados no conhecimento dos pormenores da linguagem mas que, além disso, o que é primordial e ao mesmo tempo necessário, convém que rezem para compreender (orent ut intelligant) (ver Paulo VI Alocução à Pontifícia Comissão Bíblica, março de 1974).

Toda a exegese deve estar a serviço da evangelizaçãoEditar

A exegese não tem finalidade em si mesma, mas está a serviço da vida e da missão da Igreja. A missão principal é a evangelização, que busca a transformação das pessoas e da sociedade. Falando dos métodos de interpretação, o Papa João Paulo II, disse aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica: na Igreja todos os métodos devem estar, direta ou indiretamente, a serviço da Evangelização (João Paulo II, abril de 1989). Com efeito, em virtude da natureza de seu trabalho, o exegeta sempre corre o risco de fechar-se em suas preocupações científicas e de esquecer-se do objetivo da Palavra de Deus. Sem dúvida, a fidelidade a sua tarefa de interpretação, exige do exegeta que não se contente em estudar aspectos secundários dos textos bíblicos, mas que ponha em evidência sua mensagem principal que é uma mensagem religiosa, um chamado à conversão e uma Boa Notícia de Salvação, capaz de transformar a pessoa e a sociedade humana toda inteira, introduzindo-a na comunhão divina (João Paulo II, Ibid).

Isto exige sobretudo duas coisas:

  1. Durante todo o tempo do estudo da Bíblia, o exegeta deve ter presente a realidade do povo que se vai evangelizar;
  2. Para que na Igreja cada comunidade seja realmente evangelizadora, não só por meio de palavras, mas sobretudo, pelo testemunho de sua vida, ela mesma deve permitir que a Palavra a transforme em sinal e em antecipação gratuita daquilo que ela anuncia para todos. Para isto, é necessário que toda sua vida seja alimentada e permeada pela Palavra de Deus, até o ponto de iluminar a mente, fortalecer a vontade e inflamar o corração (DV 23).
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