FANDOM


Apócrifos, chamados pseudoepígrafos na tradição protestante-evangélica, são 112 livros, 52 do Primeiro Testamento e 60 do Segundo Testamento, que não foram aceitos como inspirados, e por isso não fazem parte do cânon.

O substantivo pseudepígrafos é a junção de pseudo (falso) com epígrafos (título), da qual deriva a definição: O que tem título falso.

O substantivo grego apárpryphan ao longo da história recebeu muitas definições:

  • Algo precioso e, por isso, mantido em segredo;
  • Texto não usado oficialmente na liturgia das primeiras comunidades cristãs;
  • Texto conservado escondido por ter conteúdo não aceito;
  • Texto de origem desconhecida;
  • Texto falso, ou falsificado, no conteúdo ou no título, por isso o nome pseudepígrafo;
  • Livros de uso restrito por leitores de uma determinada corrente de pensamentos;
  • Textos não inspirados e, por isso, não canônicos;
  • Livros considerados deuterocanônicos pelos católicos, mas chamados pseudepígrafos do Primeiro Testamento pelos protestantes-evangélicos;
  • Livros parecidos com os considerados canônicos, mas de estilos literários diversos, que exigem também o selo Sagrado;
  • Livros que complementam o conteúdo, e o sentido dos escritos canônicos, isto é, os escritos considerados inspirados e que por isso fazem parte da Bíblia. Estes textos podem mesmo oferecer dados esquecidos ou pontos de vistas diferenciados dos que permaneceram como oficiais.

Alguns estudiosos afirmam que esses textos apócrifos não acrescentam nada à reflexão, que são simplesmente expressão da piedade popular sobre Jesus, produzidas no segundo século do Cristianismo.

Outros afirmam que os mesmos textos são preciosos, que nos revelam dados importantes do cristianismo emergente.

Estudar os textos apócrifos nos faz compreender os esforços dos primeiros cristãos, em seguirem Jesus, que ocasionou dificuldades no relacionamento entre lideranças do movimento de Jesus. Por ser preciosa ficou escondida.

Muitas de nossas tradições religiosas provém das informações ligadas a nós pelos apócrifos, tais como os nomes dos pais de Maria, Joaquim e Ana, algumas estações da via-sacra, os gestos de Verônica, apresentação de Maria ao templo, a palma de Maria, o pano usado por Jesus na cruz e etc.

Evangelhosde Maria Madalena; de Tomé; Filipe; Árabe da Infância de Jesus; do pseudo-Tomé; de Tiago; Morte e Assunção de Maria
Atosde Pedro; Tecla e Paulo; dos doze apóstolos; de Pilatos
Epístolasde Pilatos a Herodes; de Pilatos a Tibério; dos apóstolos; de Pedro a Filipe; Paulo aos Laodicenses; Terceira Epístola aos Coríntios; de Aristeu
Apocalipsesde Tiago; de João; de Estevão; de Pedro; de Elias; de Esdras; de Baruc; de Sofonias
Testamentosde Abraão; de Isaac; de Jacó; dos 12 Patriarcas; de Moisés; de Salomão; de Jó
OutrosA filha de Pedro; Descida de Cristo aos Infernos; Declaração de José de Arimateia; Vida de Adão e Eva; Jubileus; 1, 2 e 3 de Enoque; Salmos de Salomão; Oráculos Sibilinos

A enumeração desses apócrifos deixa claro que muitos livros foram deixados de lado pela tradição cristã e judaica.

Cabe a nós continuarmos a pesquisa aceita, mas também desconfiar dele, procurando nas vozes silenciadas, as raízes da nossa fé, e nos valores de seu ensinamento, os quais permanecem atuais.

Se o Evangelho de Maria Madalena tivesse entrado na lista dos canônicos, a história teria sido outra? Um evangelho de mulher teria dado outro tom aos ensinamentos eclesiásticos.

Por que os livros apócrifos não entraram na lista dos livros inspirados?

O decreto de Gelasiano (421-523 d.C.) publicou uma lista de livros apócrifos do Segundo Testamento e exortou os católicos a evitá-los. Uma tal proibição se deveu às disputas teológicas travadas nos primeiros séculos do cristianismo. A seleção foi feita lentamente. Dentre vários cristianismos ou modos de interpretar Jesus, com certeza alguns tiveram primazia sobre os demais. E haviam cristianismos de Jesus sábio, milagreiro, judeu, etc.

O cristianismo da apostolicidade, isto é, aquele ensinado pelos apóstolos, foi que venceu a disputa teologal e, por isso, obteve o cargo de direção do cristianismo subsequente. E entre os apóstolos e apóstolas da primeira hora havia divergências.

A liderança entre os primeiros cristãos gerou, com certeza, disputa entre Pedro, Paulo, Maria Madalena, Tiago e outros. Havia os que eram pró Pedro, pró Tiago, pró Maria Madalena. Pedro teve a primazia, a direção apostólica. E Maria Madalena? Foi silenciada. E a sua imagem reduzida à prostituta convertida, exemplo a ser seguido pelos pecadores.

Cristianismo ou Cristianismo de origemEditar

Depois da morte, e ressurreição, de Jesus (ano 33 d.C.) até a redação dos primeiros escritos sobre ele, por volta dos anos 60/70, temos um período vago de uns 30 anos.

Nesse meio tempo, nasceram disputas teológicas em torno da pessoa de Jesus. Para as comunidades cristãs era de fundamental importância compreender quem era Jesus. No entanto, elas se defrontavam o fato que muitos discípulos e discípulas que conviveram com Jesus já tinham morrido. Desse esforço coletivo de traçar o perfil do Mestre surgiram vários cristianismos, isto é, vários modos de interpretar Jesus, os quais podemos assim classificar:

  1. Cristianismo dos ditos de Jesus (fonte Quelle, Tomé);
  2. Cristianismo da cura e do caminho (Marcos);
  3. Cristianismo do Jesus Filho de Deus, Messias e seguidor do judaísmo (Mateus);
  4. Cristianismo da salvação para judeus e não-judeus (Lucas);
  5. Cristianismo do discurso teológico elaborado e dos sinais (João);
  6. Cristianismo de Jesus ressuscitado que mora dentro de cada um de nós de forma integrada e que nos convoca a viver e testemunhar a harmonia (Maria Madalena, Filipe);
  7. Cristianismo Cristianismo da apostolicidade, aquele ensinado pelos apóstolos (Atos dos Apóstolos e Cartas de Paulo);
  8. Jesus vencedor -Escatológico -Apocalipcismo;
  9. Jesus revolucionário -Histórico- (Tomé, Tiago menor irmão de Jesus);
  10. Jesus humano (Maria Madalena)
  11. Cristianismo herético (gnosticismo)

Os primeiros séculos de cristianismo foram marcados por movimentos filosóficos e religiosos de inspiração grega e egípcia, com:

Os Atos dos GnósticosEditar

O gnosticismo surgiu no primeiro século de nossa era. Os atos de seus seguidores eram movidos pelo seguinte modo de pensar:

  • A salvação é adquirida através de um profundo conhecimento (gnose) teórico de si e simultaneamente de Deus;
  • A tarefa do ser humano consiste em buscar com muito esforço a gnose;
  • A ignorância é uma forma de autodestruição;
  • Ao gnóstico, para obter a salvação, basta conhecer e crer que o Filho de Deus veio a este mundo;
  • Para ser perfeito o homem precisa fundir sua alma com a divindade e nisto consiste a gnose;
  • A natureza divina de Cristo transcende o sofrimento;
  • O sofrimento não tem sentido;
  • O ser humano sofre não por causa do pecado, mas por causa da sua ignorância;
  • A alma é prisioneira da matéria;
  • Quem recebe o espírito comunica-se diretamente com Deus;
  • Deus é um ser transcendente e não criou o ser humano e nem a terra;
  • A libertação do ser humano ocorre não por processos históricos, mas de forma interior;
  • As mulheres atuavam no movimento gnóstico como mestras, profetisas, sacerdotisas.

Os atos dos gnósticos tinham como objetivo, dentre outros, ser uma alternativa à institucionalização do cristianismo. Para um gnóstico não havia necessidade de uma instituição eclesiástica para ter contato com Deus. Cada fiel poderia comunicar-se diretamente com Deus. O primado de Pedro foi, por isso, contestado e não aceito por eles.

Parte dos cristãos e judeus rejeitaram o gnosticismo. O primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C.) condenou o gnosticismo como movimento herético. O gnosticismo, por estar ligado a filosofia grega, era para o judeu sinônimo de idolatria.

Os Atos dos DocetasEditar

O docetismo é uma doutrina gnóstica do século segundo. Seus adeptos acreditavam que:

  • Jesus não nasceu de Maria;
  • O corpo de Jesus não era real, mas só aparência;
  • Jesus não podia morrer nem perecer.

Muitos escritos apócrifos surgiram em oposição aos atos dos docetas. Os evangelhos canônicos respondem aos docetas mostrando a historicidade de Jesus, sua vida terrena e divina. Jesus não podia ser só aparência. Ele sofreu e seu sofrimento nos libertou. Não que ele quisesse ou devesse sofrer. Havia, no início do cristianismo, um grupo de cristãos que acreditava na cruz como salvação dos pecados e outro que pregava a cruz como libertação. O segundo grupo tinha como mentor Paulo. O grupo da cruz como salvação dos pecados saiu vencedor. Historicamente a Igreja Católica propagou esse modo de pensar. E quanto o pecado reinou entre nós! Lista de pecados morais não faltaram! E quanta gente morreu pensando que iria para o fogo dos infernos! Até bem pouco tempo, os atos eloquentes missionários se inspiravam nessas práticas. Essa noção de pecado aprisionou as pessoas e continua assim ...

Os Atos dos CínicosEditar

O substantivo cinismo vem do grego kinikos e significa próprio cão, canino.

Havia pessoas que contestavam a hipocrisia generalizada da sociedade de então, levando uma vida sóbria, o que levou seus opositores a chama-los de movimento dos cachorros. Assim, o cinismo se baseava nos seguintes princípios:

  • A vida deve ser vivida segundo a natureza;
  • Rejeição total das leis e convenções morais e culturais;
  • A ideia de salvação desse movimento foram derivadas das de Diógenes de Sinope (413-323 a.C.) e Antístenes de Atenas (444-365 a.C.)

Apócrifos do Primeiro TestamentoEditar

Apócrifos judaicosEditar

Antes de CristoEditar

3 Esdras; 3 e 4 Macabeus; Livro dos Jubileus; Livro de Adão e Eva; Carta de Aristeia; Martírio de Isaías; Livro de Henoc (ou 1, 2 e 3 de Enoque?); Testamento dos 12 Patriarcas; Oráculos Sibilinos; Salmos de Salomão; 4 Esdras.

Depois de CristoEditar

Assunção de Moisés; Livro de Baruc; testamento de Jó; Testamento de Abraão; Apocalipse de Moisés.

Apócrifos do Segundo TestamentoEditar

Apócrifos cristãosEditar

  • Evangelhos: de Tiago; de Tomé; de Pedro; de Nicodemos; de Bartolomeu; árabe da Infância; História de José; Livro de João Evangelista; A Assunção da Virgem.
  • Atos: de João; de Paulo e Tecla; de Pedro; de André; de Tomé; de Filipe.
  • Epístolas: de Abgar; aos Laodicenses; dos Apóstolos.
  • Apocalipses: de Pedro; de Paulo; de Tomé; de Adão; Ascensão de Isaías.


FonteEditar

Apostila de Maria Aparecida Pascale (Cida)

BibliografiaEditar

Bibliografia da apostila de Maria Aparecida Pascale:

  • Barreiras Vencidas! Portas Abertas!

Atos dos Apóstolos (16-28), Atos que os Atos não contaram

Nº 169/170 A Palavra na Vida, CEBI-MG

  • Moraldi, Luigi - Evangelhos Apócrifos, Paulus, 1999, São Paulo, Brasil
  • Maria Paula Rodrigues (ORG)
  • Autores:
Elisa Rodrigues
João Luis Fedel Gonçalves
Maria Paulo Rodrigues
Pedro Lima Vasconcellos
Rafael Rodrigues da Silva
Valter Luis Laia
  • Palavra de Deus, Palavra da Gente, Paulus, 2004, São Paulo, Brasil

Gass Bahm Ilda (ORG), Uma Introdução à Bíblia

  • Porta de entrada (V1), Paulus, 2002, São Paulo, Brasil

CEBI-São Leopoldo, rio Grande do Sul, Brasil

  • Faria, Freitas, Jacir - As origens Apócrifas do cristianismo.

Apostila para o uso dos estudantes, Divinópolis, fevereiro de 2002, Minas Gerais, Brasil

DocumentosEditar

  • Pontifícia Comissão Bíblica

A Interpretação da Bíblia na Igreja, Edições Loyola, 1994, São Paulo, Brasil

O conteúdo da comunidade está disponível sob CC-BY-SA salvo indicação em contrário.