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Evangelho de Jesus Cristo segundo São João
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* Novo Testamento
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Rm 1Cor 2Cor
Gl Ef Fl Cl
1Ts 2Ts 1Tm 2Tm
Tt Fm
Hb Tg 1Pd 2Pd
1Jo 2Jo 3Jo Jd
Ap
Evangelho segundo João
Datação entre 90 e 100 d.C.
Local Antioquia da Síria ou Éfeso
Autor João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago
Gênero literário Evangelho, com algumas narrações
Lingua Grego
Conceitos
relacionados
  • Logos -> palavra ou verbo
  • Gnose -> conhecimento
  • Docetismo -> aparente
  • Montanismo -> possuidores do Paráclito
Introdução

O quarto Evangelho se difere consideravelmente do esquema sinótico. Todavia, ele se apresenta basicamente como os evangelhos sinóticos: inicia relatando o testemunho de João Batista sobre Jesus; em seguida apresenta algumas cenas referentes à vida de Jesus, muitas das quais também estão presentes na tradição sinótica; e termina com os relatos da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Ainda que retome alguns episódios comuns aos sinóticos, estes são tratados dentro de uma nova perspectiva, própria do autor e de sua teologia. Distingue-se também dos sinóticos por apresentar alguns sinais e cenas que os outros evangelistas ignoram, como o sinal das Bodas de Caná (Jo 2,1-11) e a ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-45). Outras características peculiares do quarto Evangelho são os longos discursos, a presença de uma cristologia muito mais evoluída, que insiste na divindade de Jesus, e elementos específicos da comunidade joanina, seu contexto, finalidade, estilo e método.

O Evangelho atribuído a São João é o evangelho mais teológico de todos, por expor temas e acontecimentos com tamanha profundidade e simbologia, frutos de um trabalho mais elaborado e avançado.

Contexto

Datação e autoria

Datação

O quarto evangelho é um dos últimos escritos do Novo Testamento. A data que costumam situá-lo fica entre os anos 90 a 100 d.C., no final do primeiro século.

Local

Alguns estudiosos defendem que este evangelho tenha sido escrito na Síria, talvez em Antioquia. Outros, contudo, apontam Éfeso como o lugar de sua redação.

Autor

Este evangelho é atribuído a João, um dos doze apóstolos, filho de Zebedeu e irmão de Tiago. Desde os primeiros séculos, principalmente a partir do testemunho de Irineu de Lião (180 d.C.), a Igreja considera João como autor deste evangelho, identificando-o com o chamado Discípulo Amado (Jo 21,7). Contudo, a exegese moderna tem demonstrado dificuldade em aceitar esta opinião. Grande parte dos biblistas considera o quarto evangelho como obra de um discípulo de João, de um judeu-cristão pertencente a uma geração mais tardia e profundo conhecedor do judaísmo e da literatura veterotestamentária.

Certamente, este discípulo de João coletou a memória, as informações e a vivência das comunidades joaninas. Memória esta que possibilitou a ele redigir grandes temas sobre Jesus de Nazaré. Embora escreva o testemunho de uma comunidade de fé, o autor do quarto evangelho é escritor qualificado. Esta obra é fruto de sua profundidade teológica, que ultrapassa a expressão coletiva.

O evangelista se comporta como um narrador que submerge no texto (não aparece). Em alguns momentos identifica-se com a comunidade, como transparece no plural comunitário usado no Prólogo (Jo 1,14.16). O autor também se faz perceber nos comentários ao próprio texto. Ele se apresenta como articulador do testemunho e da confissão de fé da comunidade (Jo 20,30-31).

O autor desta obra é bastante judaico e demonstra um grande conhecimento das Escrituras de Israel, mas, por outro lado, está em conflito com o judaísmo dos rabinos, que ele apresenta com o termo judeus (enquanto organização religiosa, sem conotação de raça ou povo)

Língua

O evangelho de João foi escrito em grego, com um vocabulário rico de conotações semíticas. Por vezes traduz termos hebraico-aramaicos para o grego: ραββι (rabbi, 1,38), μεσσιαν (messias, 1,41), κηφας (Kefas, 1,42), ραββουνι (rabbûni, 20,16)... Os diversos semitismos revelam que, embora escreva na língua grega, o autor pensa em termos da tradição judaico-bíblica. Assim, por exemplo, termos como logos e gnose devem ser interpretados a partir do Antigo Testamento e não da concepção helenista.

Fontes e gênero literário

Fontes

O evangelho de João possui uma tradição própria. As fontes que compõem este evangelho são frutos dos ensinamentos e do testemunho da comunidade do Discípulo Amado. O autor expõe as condições de vida das comunidades joaninas, num contexto de perseguições e conflitos. A obra pressupõe, igualmente, as Escrituras e relatos paralelos à tradição sinótica.

Gênero literário

João apresenta características e estilo diferentes dos sinóticos. Não obstante, enquadra-se, como estes, no mesmo gênero literário de evangelho e conserva a mesma estrutura fundamental e o mesmo caráter de proclamação da mensagem de Jesus.

O evangelho de João está entre a narrativa e o drama, ou teatro. Nos episódios da samaritana, do cego, de Lázaro e na história da Paixão, Morte e Ressurreição nos deparamos com diálogos profundos, cheios de vida, com indicações de tempo e lugar e de mudanças de cenas. Este caráter dramatúrgico é mais teológico do que histórico, por isso os detalhes geográficos e temporais não devem ser compreendidos ao pé da letra. O evangelista também apresenta alguns monólogos de Jesus (discursos de revelação), com um estilo de revelação sapiencial.

No evangelho de João aparecem algumas observações explicativas em forma de comentários reflexivos, que o redator acrescenta ao texto. São notas para esclarecer a narrativa e o movimento dramático e para explicar expressões teológicas. Os comentários ajudam o leitor a superar o nível da narrativa e adentrar no nível espiritual, simbólico, profundo, isto é, ajudam no processo interpretativo e na atualização do texto.

A comunidade joanina

Destinatários

João escreve para cristãos provenientes, na sua maioria, do paganismo (pois explica as palavras e costumes hebraicos), que estavam sendo influenciados pelas primeiras heresias do final do primeiro século: o gnosticismo e o docetismo, em sua forma primitiva. Todavia, este evangelho destina-se também, em parte, a cristãos vindos do judaismo, com dificuldades sobre a condição divina de Jesus e com apego exagerado às instituições religiosas judaicas.

A comunidade do Discípulo Amado

O Evangelho de João se ambienta numa comunidade judeo-cristã helenista, que vive em conflito com o judaísmo dominante do final do primeiro século e num crescente distanciamento de outras esferas do mundo (império romano e cultura helenista).

As comunidades joaninas são missionárias e perseguidas. Ameaçadas pelo mundo, dão testemunho fiel de Jesus. Esse mundo, num contexto mais amplo, é a sociedade do império romano e, num contexto mais restrito, é representado pelo termo os judeus. Este termo aparece com frequência para indicar os opositores de Jesus e de seus seguidores, não indicando os judeus em geral, mas um grupo de judeus.

Originalidade, teologia e método

Objetivo

O objetivo deste evangelho é apresentado nos últimos versículos da obra (20,30-31): fortalecer os fiéis na fé que confessa Jesus como Messias e Filho de Deus (os dois dados da fé em que estavam sendo atacados pelos rabinos). Nesta obra, o evangelista ressalta a divindade de Jesus e sua encarnação: Jesus é o Verbo divino que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14).

Originalidade e estilo

O quarto evangelho é um verdadeiro testemunho/confissão de fé em Jesus Messias e Filho de Deus. Possui uma característica comunitária predominante. É um evangelho teológico, que apresenta uma alta cristologia. Fala de Deus não a partir de conceitos abstratos, mas conta a história de Deus entre os homens (1,18).

O quarto evangelho não é composto de breves narrativas, como os sinóticos, mas de grandes episódios, em que decorre uma mescla de narrativa, diálogo e discurso, assumindo, por vezes, uma forma teatral. João apresenta um esquema geográfico e cronológico peculiar, mencionando diversas viagens de Jesus a Jerusalém e três pascoas, enquanto os outros evangelhos citam apenas uma.

O evangelho narrado por João não é tanto biográfico, apesar de conter um núcleo histórico nos relatos. Ele é mais teológico e contemplativo, fazendo uso de uma simbologia bastante rica e profunda. Em síntese, João faz uma releitura existencial dos evangelhos.

Método

A teologia joanina é constituída por um duplo nível: o nível histórico ou factual e o nível tipológico-simbólico. Por conseguinte, Jesus, na ótica joanina, provoca o interlocutora lançar-se do nível material para o espiritual: uma passagem do plano natural para o sobrenatural. Nas Bodas de Caná, por exemplo, a mãe de Jesus fala da falta do vinho material, aquele que acabou durante o banquete. Jesus, ao contrário, fala do vinho como símbolo de sua Palavra reveladora, cuja realização perfeita terá lugar quando chegar sua Hora, isto é, a paixão-ressurreição. Aí estpa a divergência entre Jesus e sua Mãe. Nesse sentido, Maria é convidada a passar da realidade material (vinho material), imanente, humana, para o âmbito divino, da verdade, do espiritual (vinho espiritual). Esta maneira própria de Jesus falar na perspectiva joanina - a passagem do nível material para o nível espiritual - gera incompreensão para os ouvintes. Vemos essa incompreensão, também, no diálogo de Jesus com Nicodemos e com a samaritana.

Podemos ler o evangelho de João dentro de duas perspectivas: uma leitura histórica (núcleo histórico) e uma leitura teológica (intenção do autor). O núcleo histórico sustenta a perspectiva teológica. Contudo, devido ao forte simbolismo que é próprio deste evangelho, João busca conduzir o leitor da realidade factual para o plano mais profundo e espiritual, rico em sentido e mistério.

O quarto evangelho no seu contexto original

Um evangelho gnóstico?

Segundo alguns autores, João parece ter sofrido a influência do gnosticismo, por dar ênfase ao conhecimento (gnose), por fazer uso de uma linguagem dualista (luz e trevas, verdade e mentira, bem e mal...) e pela suposta fuga do mundo. Contudo, a análise exegética revela o contrário: o evangelho de João é anti-gnóstico. Isto se percebe, por exemplo, na ênfase dada à encarnação do Logos.

As antinomias usadas por João não exprimem uma tendência gnóstica, mas uma linguagem presente no contexto semítico. Este dualismo não deve ser interpretado a partir do dualismo helenístico, mas à luz da literatura profética (Daniel, Isaías). O simbolismo dualista ou bipolar (cima/embaixo, carne/espírito, luz/trevas, verdade/mentira, vida/morte) presente em João não expressa um dualismo ontológico, cósmico ou antropológico, mas um dualismo ético. Apresentando dois símbolos contrapostos, o evangelista insiste na necessidade de uma opção entre os dois âmbitos ou atitudes evocados por estes termos. São dois modos concretos de viver: ou se vive conforme a carne/trevas/mentira, ou se vive conforme o espírito/luz/verdade.

O conhecimento tão destacado neste evangelho se distingue da sabedoria dos escribas judaicos e da gnose grega. O verdadeiro saber, para João, não é a cultura deste mundo, mas o conhecimento de Jesus e do Pai (Jo 17,3); esse conhecimento vem pelo amor a Cristo.

O mundo, em joão, pode designar o {BP|Jo 17|universo criado (17,5.24)}} e a própria humanidade. O sentido mais frequente, contudo, é hostil, possuindo forte conotação pejorativa e negativa. Refere-se ao mundo do pecado, à parcela do mundo que resiste à oferta de Deus e rejeita seu Enviado e sua Comunidade. O evangelista não prega uma fuga do mundo, mas um conflito de sua comunidade com este mundo que renega a Deus e seu Messias.

Contexto

João escreve no período em que o judaísmo se reestrutura mediante o Sínodo rabínico em Jâmnia (85 d.C.). É neste momento que os cristãos são excluídos das sinagogas (9,22, 12,42, 16,2). O evangelho reflete claramente este conflito com o judaísmo. As comunidades joaninas sofrem a exclusão por parte do judaísmo rabínico (judaísmo estruturado). Esta exclusão significou a perda do reconhecimento como religião permitida por Roma.

João não demonstra interesse especial pelo império romano, distinguindo-se, principalmente, aqui, dos escritos lucanos. O quarto evangelho escreve na perspectiva de Jerusalém. De sua narrativa, 80% se situa em Jerusalém, enquanto nos sinóticos era de 25%. João também não privilegia Jerusalém, como o faz Lucas. Logo de início, o evangelista coloca a purificação do Templo (2,13-21). A perspectiva de João com relação a Jerusalém e ao Templo é bastante irônica. Por isso, a comunidade de João terá suas raízes no judaísmo sinagogal e não no judaísmo centrado no Templo. O próprio Jesus não se criou à sombra do Templo, mas no ambiente das sinagogas da Galileia. As sinagogas eram lugares de reunião, com a leitura da Lei e dos profetas e comentários (homilias) em torno das leituras. Daí podemos compreender o caráter homilético de muitos trechos do quarto evangelho (sobretudo nos capítulos de 5 a 12).

Trajetória literária

O estilo e conteúdo revelam que a obra passou por diversas etapas de redação. A etapa final foi realizada alguns anos após a destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.), quando aconteceu a ruptura entre a comunidade cristã e o judaísmo. Sem o Templo, o judaísmo estava se estruturando em torno do estudo da Lei (cf. Jo 5,39) e sob as orientações dos rabinos. Neste contexto, os cristãos de raiz judaica começaram a ser expulsos do judaísmo. Estes cristãos de origem judaica parecem ter constituído grande parte das comunidades joaninas.

A trajetória literária do quarto evangelho pode ser sintetizada em algumas fases centrais:

  1. Um estágio inicial de pregação oral por um discípulo de Jesus, nos âmbitos judaicos e afins (Galileia, Jerusalém, Samaria, círculos batistas, diáspora), até a metade do primeiro século;
  2. Antes da destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.) pode ter havido uma primeira redação escrita dessa pregação, centrada no querigma, em elementos da iniciação cristã (catequese batismal) e de explicação das Escrituras; neste estágio, este evangelho já possuía traços específicos como os sinais, o simbolismo, a cristologia da cruz e da glória, a escatologia inaugurada;
  3. Depois da destruição do Templo de Jerusalém, houve a restauração do judaísmo (Jâmnia) nos anos 80-100. Neste período situa-se a redação final da obra, acentuando a referência à comunidade e seu conflito com o nascente judaísmo rabínico;
  4. Alguns retoques e o capítulo 21 pertencem a um acabamento dado no momento em que a obra foi colocada em circulação entre as comunidades pelo chamado editor do Evangelho. Estes acréscimos posteriores feitos, provavelmente, por um editor posterior, são notáveis pela presença de duas conclusões que o evangelho de João possui (20,30-31 e 21,24-25);
  5. A perícope da adúltera (7,53-8,11) foi inserida no século IV.

Síntese

Em síntese, situamos o contexto joanino:

  1. João pressupóe o Antigo Testamento e, em menor escala, a influência helenista;
  2. Pressupõe um confronto/conflito polêmico: com os judeus, com os discípulos do Batista, com os gnósticos e com o mundo;
  3. Pressupõe, de certa forma, os sinóticos: João reinterpreta narrativas contidas nos sinóticos;
  4. João apresenta uma interpretação existencial do evento Jesus Cristo.

Estrutura literária e teológica

Alguns temas específicos

O sentido do novo

João apresenta uma teologia do novo. Para ele, Jesus é a própria novidade que rompe com os antigos e ultrapassados esquemas judaicos. Algumas cenas nos ajudam a compreender melhor o sentido do novo. Em Caná da Galileia, as talhas que serviam para os antigos ritos de purificação (2,6), agora são cheias com o vinho novo (2,7-10). A Nicodemos, Jesus diz que é preciso nascer de novo (3,3-8). O novo é expresso de forma singular no novo mandamento deixado por Jesus: "Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros" (13,34).

A presença das mulheres

Em joão, as mulheres são testemunhas de acontecimentos centrais da vida de Jesus.

  1. A mãe de Jesus aparece em dois momentos decisivos: no primeiro sinal, em Caná da Galileia (2,1-12), e no momento da paixão de seu filho (19,25-27).
  2. A samaritana é modelo concreto de missionariedade. Após um belo diálogo com Jesus, ela vai anunciar aos seus compatriotas a respeito de Jesus. "Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus por causa da palavra da mulher samaritana" (4,39).
  3. À mulher adúltera Jesus concede o perdão (8,1-11), rompendo com tradições androcêntricas.
  4. Marta e Maria acolhem Jesus em Betânia (11,1-45).
  5. Marta faz uma grande profissão de fé, a mais perfeita realizada por alguém nos evangelhos: "Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que deve vir ao mundo" (11,27).
  6. Maria, irmã de Marta, unge os pés de Jesus e enxuga-os com seus cabelos (12,1-8), como antecipação da homenagem que será prestada ao seu corpo na sepultura.
  7. É também a uma mulher, Maria Madalena, que Jesus ressuscitado aparece por primeiro (20,1-2.11-18). Maria Madalena torna-se a primeira a anunciar a Ressurreição.

Temos, portanto, em João, as imagens da mulher-mãe, da mulher-esposa/noiva e da mulher-adúltera que refletem na imagem do Povo de Israel, que ora era identificado como mãe, ora como esposa/noiva e ora como adúltera.

Eu Sou

Jesus faz uso do nome de Deus (Ex 3,14) para falar de si, por isso se intitula Eu sou, revelando-se como Deus. Eu sou evoca a revelação que Deus fez a Moisés por ocasião da teofania (manifestação de Deus) do Sinai. O Verbo encarnado é presença e ação permanente de Deus na história. Vejamos, abaixo, o uso da expressão Eu sou por parte de Jesus no evangelho de João:

Sinais e simbolos

A linguagem joaninacé profundamente simbólica. Em João, Jesus se apresenta como Luz, Ressurreição e Vida, Pastor, Porta, Pão da Vida, Pão vivo. Esses mesmos símbolos são o dom de Jesus nos milagres, chamados de sinais, pois seu valor não está no dom material, mas naquilo que significam: o vinho significa a bebida das núpcias messiânicas; a saúde expressa a vida que Jesus traz; o pão remete ao seu ensinamento e o dom da própria vida; a restauração da vista indica a luz que é o próprio Jesus; a ressurreição de Lázaro aponta a Ressurreição e Vida presentes em Jesus. Jesus é aquilo que Ele mesmo providencia (Pão da vida, Vinho novo...): doador e dom se coincidem.

João dá grande ênfase ao valor simbólico dos milagres de Jesus, os chamados sinais, porque representam quem é Jesus: um Sinal de Deus. Por exemplo, quando multiplica os pães, Jesus afirma: Eu sou o Pão da Vida (6,35); quando dá vista ao cego de nascimento diz: Eu sou a Luz do mundo (9,5); quando ressuscita Lázaro diz: Eu sou a Ressurreição e a Vida (11,25).

A hora de Jesus

A hora de Jesus corresponde à hora de sua exaltação, em dois sentidos: na cruz e na glória (cf. Jo 3,14; 12,32-33). Ser crucificado é ser glorificado: o Crucificado é o Ressuscitado. João nos conduz à hora de Jesus em duas etapas.

  1. Minha hora ainda não chegou (2,4): na primeira etapa, o evangelista narra os sinais realizados por Jesus e que demonstram, para quem estava disposto a crer, que Jesus é o Enviado do Pai (capítulos 1-12). Tais sinais são, em certa medida, uma antecipação de sua hora;
  2. Vem a hora, e já chegou (16,32); Pai, é chagada a hora (17,1): na segunda etapa, João descreve a hora de Jesus, quando Ele revela a glória de Deus, o rosto do Pai, indo até o fim da sua missão (capítulos 13-20).

Jesus, o novo Moisés

Na introdução ao evangelho de João, a Bíblia de Jerusalém identifica Jesus como o Novo Moisés, traçando pontos de encontro entre Jesus e Moisés a partir do evangelho de João. Jesus é o profeta, o novo Moisés anunciado por Dt 18,15.18. Contudo, ele é mais que Moisés. Jesus tem a missão de salvar e conduzir o povo, revelando a face de Deus, da qual ele é tão íntimo.

A vida eterna

"Quem crê no Filho tem a vida eterna" (Jo 3,36)A vida ou vida eterna corresponde ao Reino, expressão frequente nos sinóticos e usada apenas duas vezes por João (Jo 3,3.5): João é o evangelista que mais fala da vida. Já no início de seu evangelho, no prólogo, ele afirma que no Logos estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos (Jo 1,4). Trata-se, portanto, da vida em plenitude, que inclui os bens temporais, como a saúde e a subsistência. Num nível superior, refere-se a uma vida que antecipa a vida do éon futuro, isto é, a vida eterna, que começa desde já, na fé. O adjetivo eterna oferece um sentido maior e mais profundo.

João insiste que a fé em Jesus é que nos garante a vida, a vida eterna: Quem crê no Filho tem a vida eterna (Jo 3,36). A vida eterna - que começa aqui, já, agora - consiste em conhecer a Deus, o único Deus verdadeiro, e aquele que ele enviou, Jesus Cristo (Jo 17,3. Nesse sentido, a vida eterna equivale a um conhecer a Deus, um conhecer experiencial, profundo e íntimo de Deus. Todavia, o conhecimento de Deus é aquele que leva à prática da justiça. Este conhecimento transforma tudo e instaura o reino, que é vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Traços da teologia joanina

Trindade

João possui um doutrina trinitária bastante avançada. Embora não elabore propriamente a doutrina e o dogma trinitário, João apresenta traços essenciais para a compreensão posterior da profissão de fé sobre a Trindade. Isto se percebe claramente no desenrolar de seu evangelho: com o Espírito que permanece sobre Jesus (1,32s), o Filho revela o Pai realizando sua obra (14,10) e nos dá o Espírito para continuá-la (14,12-17). Em João, portanto, temos a revelação das três pessoas divinas.

Cristologia

João revela o mistério de Jesus na eternidade, sua preexistência. Ele enfatiza a divindade de Jesus, o revelador de Deus, o Cristo que dá vida. Insiste na carnalidade de Jesus, na sua humanidade e historicidade (anti-gnóstico e anti-doceta). Apresenta a nova Lei - o amor a Deus e aos irmãos (a salvação se alcança pela prática do amor e pelo empenho no mundo, e não pela gnose). João mostra o Mistério ligado à carne.

Há aqui duas cristologias: do Mistério e da História. João parte do Mistério para a história. Trata-se, portanto, de uma teologia descendente (de cima para baixo, isto é, dos títulos ou definições para os acontecimentos históricos, fatos). Jesus, para João, é Aquele que realiza sinais e dá testemunho das obras do Pai. Jesus Cristo é o Verbo feito carne. No seu prólogo, João insiste na preexistência do Verbo, e no seu movimento de descida (encarnação) e subida (glorificação). Há a revelação de Jesus como Deus (Filho de Deus), com o qual se faz igual. João usa de símbolos para falar de Jesus: Porta, Videira, Luz, Pão do Céu, Pastor... Eu sou, em João, é uma expressão comum na boca de Jesus (Jesus se serve do Nome de Deus para falar de si mesmo).

Pneumatologia

Ao despedir-se do mundo, Jesus promete o Espírito Santo, o ParáclitoTermo próprio de João para designar o Espírito Santo. Encontramos este termo nos capítulos 14, 15 e 16 do quarto evangelho. Em 1Jo 2,1, Paráclito é designado a Jesus. Por isso, no evangelho de João, Jesus fala de um outro Paráclito (14,15-17) ou Defensor, para recordar sua obra e ensinamento, dar testemunho de si (15,26), para ser promotor de justiça (16,4b-15) e para conduzir a comunidade na verdade plena (16,4b-15). O Espírito Santo, em João, é apresentado como um outro Paráclito (Jo 14,16). João revela, assim, que o Espírito possui uma identidade própria, distinguindo-se da pessoa do Pai e da pessoa do Filho.

No quarto evangelho, o Espírito Santo é sempre promessa: quando Jesus morre na cruz, Ele entrega o Espírito (19,30). A afirmação não havia ainda o Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado (7,37-39) significa que o dom do Espírito, próprio dos tempos messiânicos, é dado por Jesus glorificado, elevado à condição de Senhor. A glorificação de Jesus condiciona o envio do Espírito. João apresenta o dom do Espírito de duas maneiras:

  1. O Espírito como Paráclito Prometido: O Espírito é designado como Paráclito, o Outro Chamado, Aquele que está do lado, o Defensor, o Consolador... No discurso de despedida (14-16) há a promessa de um outro Paráclito que estará com os discípulos e neles; Ele ensinará e recordará; Ele dará testemunho de Jesus (o Espírito da Verdade); Ele estabelecerá a culpabilidade do mundo (questionará o mundo); Ele conduzirá os discípulos à plenitude da verdade.
  2. O dom pascal do Espírito aos Onze: Jesus comunica o Espírito Santo (20,19-29), mas não exatamente o Paráclito tal qual prometeu, pois ainda não foi plenamente glorificado (ainda não subiu para o Pai). O Espírito não é dado pessoalmente neste momento, mas como uma força correspondente à missão. O Ressuscitado sopra sobre os discípulos o Espírito Santo. Só quando Jesus for para o Pai, o Espírito Santo então virá (Jo 16,7).
A relação do Paráclito
  1. Com o Pai: O Pai envia o Espírito Santo em nome de Jesus; o Espírito procede do Pai (Jo 15,26);
  2. Com o Filho: é o Espírito do Pai, mas também do Filho, pois vem a pedido do Filho. Relativamente a Jesus, o Espírito é o Outro Paráclito, será enviado em nome de Jesus; Ele dará testemunho de Jesus e o glorificará;
  3. Com os discípulos: é também Espírito dado aos discípulos; Ele sempre estará com eles e lhes recordará todas as coisas;
  4. Com o mundo: o mundo não o vê, nem o conhece, e também não pode recebê-lo (Jo 14,17).
Natureza, propriedades e ação do Paráclito

Em João, o Espírito Santo é um Outro, uma Terceira Pessoa. Ele é o Espírito da Verdade; é um sujeito de muitas ações: permanece com os discípulos; vem do Pai; ensina, recorda, comunica, revela, dá testemunho; é Alguém que age; tem estreitas relações com Jesus, possuindo atividades paralelas.

O fato de o Espírito ser sujeito de atos, ser, ao lado de Jesus, um Outro Paráclito, isto lhe dá características pessoais. O Espírito Santo ganha, em joão, uma identidade: a alteridade. Em João, há mais claro a ideia de que o Espírito Santo é uma Terceira Pessoa. Ele continua a obra de Jesus; não inova outro economia, mas vivifica a carne e as palavras de Jesus.

Mariologia

A figura de Maria, na perspectiva joanina, adquire não apenas um caráter histórico-pessoal significativo, mas também um caráter fortemente representativo. Maria simboliza a Comunidade dos crentes, Israel, a Igreja-Mãe, a Nova humanidade, a Nova mulher, a Nova Eva. Por conseguinte, temos, no quarto evangelho, uma mariologia simbólica.

A mãe de Jesus aparece no evangelho de João no primeiro sinal de Jesus em Caná da galileia (2,1-12) e ao pé da cruz (19,25-27); dois momentos decisivos do ministério de Jesus: Caná abre o inicio do seu ministério; e o Calvário é o ponto ápice da vida de Jesus: sua exaltação e glorificação. esses dois episódios são marcados por elementos comuns: a presença da mãe de Jesus, o uso da expressão mulher por Jesus a sua mãe, e a referência à hora designada pelo Pai.

João nunca designa Maria por seu nome, prefere chamá-la de mãe e Jesus. A forma de Jesus chamar a sua mãe também é muito estranha numa relação entre mãe e filho. Todavia, chamando-a de Mulher (cf. Jo 2,4; 19,26), Jesus não está dando-lhe um tratamento ofensivo. Na teologia joanina, refere-se a algo profundo. Maria simboliza a noiva, a nova humanidade, a nova mulher, a nova Eva. Será no seu papel de mãe da nova comunidade dos cristãos que Maria exercerá sua verdadeira missão (cf. Jo 19,25-27). Caberá a ela, enquanto mulher, assumir esta função peculiar.

Para João,a hora de Jesus é a hora da sua paixão e morte que coincide com a sua glorificação. Entretanto, sua hora é antecipada em seu ministério público, através de sinais, que manifestam a sua glória. No diálogo de Jesus com sua mãe, a frase mulher, que há entre mim e ti? Ainda não chegou minha hora (2,4), não nega um relacionamento de Jesus com Maria. Jesus usa de tal expressão para provocar uma mudança de foco: uma passagem do plano natural para o sobrenatural. Nesse sentido, Maria é convidada a passar da realidade material (vinho material) para o âmbito espiritual (vinho espiritual). Como nos outros diálogos do Evangelho de São João, Jesus responde falando dos bens celestiais quado os interlocutores se referem a realidades terrenas. Maria referiu-se ao vinho que faltava na festa, e Jesus responde fazendo alusão a sua hora, ao momento de passar deste mundo ao Pai. Daí o sentido do vinho novo oferecido por Jesus. Uma vez chegada a hora de Jesus, entre Ele e sua Mãe surgirá um vínculo perfeito, último e definitivo. A hora de Jesus também é a hora de sua mãe. A hora dela receber sua verdadeira missão: ser mãe de seus discípulos e discípulas (cf jo 19,25-27).

O termo mulher, por sua vez, recorda a primeira mulher, Eva: a mãe de todos os viventes (Gn 3,20). Agora que começa uma nova criação, existe uma nova mulher, que sera a mãe de todos os viventes (19,25-27).

Escatologia

Por escatologia entende-se o discurso teológico sobre as últimas realidades, como o juízo final, a ressurreição, a vida eterna, o céu, o inferno... Os autores do Novo Testamento falam destas últimas realidades no futuro. No entanto, é uma característica de João falar delas como já realizadas no presente. Por isso, a escatologia joanina é uma Escatologia Realizada, isto é, do presente.

A religião judaica distinguia o mundo presente e o mundo futuro (escatológico). Tal concepção é proveniente do mundo helênico, que afirmava a existência de dois mundos distintos: o celeste e o terreno, o de cima e o de baixo. Conforme João 8,23, estes dois mundos coexistem: um é o de baixo (este mundo) e o outro é o do alto, em Deus (cf. João 13,1).

Na perspectiva da escatologia joanina, a ressurreição não deve mais ser esperada para o instante em que for instaurado o mundo futuro, mas ela já está realizada em e por Cristo. Esta concepção está bem clara no relato da ressurreição de Lázaro, na resposta de Jesus a Marta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá (Jo 11,25-26). As palavras de Jesus revelam a participação desde já na vida de Deus, participação experimentada na fé. Destarte, aquele que crê em Cristo já passou da morte à vida (cf. Jo 5,24). A vida eterna já se realiza nesta terra, no aqui e agora (cf. Jo 5,25). Esta escatologia presentista, realizada, existencial e atual tem seu fundamento em Jesus. Por conseguinte, o caráter presentista da escatologia joanina está intimamente ligado à antecipação pascal de Jesus, expressa em sinais durante seu ministério público.

A vida eterna aparece no quarto evangelho como um bem que se possui no presente e não apenas como uma promessa para o futuro. Aquele que se une a Cristo pela fé participa dessa vida que vem de Deus: Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá (Jo 11,25). Por isso, o crente deve passar por um novo nascimento para chegar a essa vida: nascer do Alto (3,3); nascer da água e do Espírito (3,5-8). A vida eterna alcança-se pela fé em Jesus como Filho de Deus. Por essa razão, o autor deste evangelho apresenta Jesus como o alimento que produz a vida que vem de Deus. Jesus é pão para todo aquele que crê: O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo... Eu sou o pão da vida... (6,33-35); Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá eternamente (6,51a); Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (6,54).

O juizo é igualmente apresentado no momento atual. No mesmo momento em que Jesus se revela ao ser humano, produz-se o juízo segundo se opte por Ele, ou se o rejeite. Daí em diante já se está participando da vida eterna ou da condenação: Quem nele crê não será condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Único de Deus. Ora, o julgamento consiste nisto: a luz veio ao mundo, mas as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más (3,18-19); Aquele que crê no Filho tem a vida eterna. Aquele, porém, que se recusa a crer no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele (Jo 3,36).

A ressurreição consiste em passar da atual condição de morte à vida, e está também relacionada com a fé: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não é sujeito a julgamento, mas passou da morte para a vida... chega a hora - e é já - em que os mortos hão de ouvir a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão (5,24-25)Conferir também Jo 5,28-29.

João fala de um só pecado: o recusar a Cristo e não reconhecê-lo como aquele que revela o Pai. E este pecado é o que leva à morte (8,24); a fé é o que nos leva à vida.

No quarto evangelho, os bens celestiais são anunciados como parte do presente. Tudo o que é do Pai está em seu Filho (3,35; 5,26; 16,15; 17,2) e o Filho comunica-o a todos aqueles que creem Nele. A escatologia joanina não é simplemente um último dia (Jo 11,24), mas é o hoje iniciado em Jesus: o decisivo acontece hoje, com valor de eternidade.

João Batista

João Batista é uma figura muito presente no quarto evangelho. No Prólogo, já encontramos referências a João (1,6-8.15) como aquele que não é a luz, mas que veio como testemunha da luz e como precursor. O testemunho do Batista (1,19-36) é a primeira narrativa do evangelho. Este relato resulta o encaminhamento de seus discípulos a Jesus (1,35-36). João e seus discípulos retornam novamente no capítulo 3 (3,22-30), com outro testemunho. Em Jo 5,33-35, Jesus aponta o testemunho de João como lâmpada passageira que anunciava a luz verdadeira. Em Jo 10,40-42, o Batista é novamente citado. É muito provável que tantas referências a João Batista e seus discípulos aludam à presença de joanitasdiscípulos de João Batista na comunidade joanina, que fizeram a transição de João Batista para Jesus. Todavia, é possível, igualmente, que alguns adeptos de João Batista não tenham aderido ao messianismo de Jesus.

Discípulo Amado

No quarto evangelho temos uma figura singular denominada pelo evangelista como o discípulo que Jesus (mais) amava. Este discípulo amado aparece quatro vezes na segunda parte do evangelho: na Última Ceia (13,23-26), aos pés da Cruz (19,26-27), na Ressurreição (20,2-10) e no mar da Galileia depois da Ressurreição (21,7.20-24). Alguns autores o identificam também com o discípulo anônimo que aparece em 1,35-39 e 18,15.

Mas, quem é este Discípulo Amado? Várias hipóteses já foram levantadas: o Apóstolo João, o autor do evangelho, Lázaro (cf. Jo 11,3), Maria Madalena, a comunidade... Identificado por muitos, desde a antiguidade da Igreja, como sendo João, filho de Zebedeu, e autor do quarto evangelho, o Discípulo Amado continua sendo uma figura misteriosa. Para alguns autores, o Discípulo Amado seria uma figura simbólica, representante d discípulo ideal, iniciado e perfeito, ou seja, uma figura corporativa, que retrata a comunidade de fé. Esta forma de compreender o Discípulo Amado não impede identificá-lo com uma figura real, mais precisamente o discípulo que conduziu a comunidade no caminho de fé. Nesse sentido, seria ele ao mesmo tempo histórico e simbólico.

Pode-se ver, portanto, que, através desta imagem do Discípulo Amado, o autor do quarto evangelho descreve o cristão ideal. O evangelista considera como modelo o discípulo de Jesus que evangelizou a comunidade à qual ele pertencia. Por isso, elaborou a sua imagem para que servisse de exemplo a todos os leitores da sua obra, pois todos os cristãos são chamados a serem discípulos amados de Jesus (14,21; 15,9-10).

Numerologia

Para exprimir suas ideias cristológicas, João utiliza, de forma frequente, o simbolismo dos números. Em 4,16-18, Jesus censura a samaritana por ter cinco maridos, e o termo marido aparece cinco vezes. O evangelista faz uso, igualmente, de números que possuem um valor simbólico bem conhecido na Antiguidade. Em 10,30, o número um simboliza a unidade que o Espírito cria entre o Pai e Jesus. O número sete simboliza a totalidade, a perfeição. O número seis, por sua vez, evoca a ideia de imperfeição. Nessa perspectiva, Jesus curou o paralítico inteiro no dia de sábado (7,23), isto é, no sétimo dia; o filho do funcionário real de Cafarnaum é curado na hora sétima (4,52-53). Por outro lado, a fraqueza de Cristo-homem se manifesta na sexta hora (4,6; 19,14). As talhas que servem para as purificações dos judeus são seis (2,6), significando a imperfeição deste sistema de purificação.

Esquema da estrutura literária

O quarto evangelho é composto de 21 capítulos. Estes capítulos são divididos, normalmente, em quatro partes principais, como mostra o esquema abaixo:

1. Abertura ou Prólogo: 1,1-18
2. O livro dos Sinais: 1,19-12,50
1,19-51: Testemunho do Batista e primeiros discípulos
2,1-4,54: Os dois primeiros sinais
As Bodas de Caná (1° sinal)
Purificação do Templo
Nicodemos
Segundo testemunho do Batista
A samaritana
Cura do filho do funcionário real (2º sinal)
5,1-10,42: Quatro dipticosConjunto de duas obras do mesmo gênero, que se completam de narrações e discursos
Cura do paralítico (3º sinal) e discurso da obra do Filho
Sinal dos pães (4º sinal) e discurso do Pão da Vida
Jesus caminha sobre as águas (5º sinal)
Subida a Jerusalém e discussão/discursos na festa das Tendas
A perícope da adúltera (7,53-8,11)
Cura do cego (6º sinal) e discussão com os fariseus cegos
Jesus, o Bom Pastor
A festa da dedicação
11,1-12,50: Transição para a semana da Paixão
Ressurreição de Lázaro (7º sinal)
Unção e entrada em Jerusalém
Os gregos
Conclusão do livro dos Sinais
3. O livro da Exaltação: 13,20
O livros da Comunidade:13-17
Lava-pés e mandamento novo
Discursos de despedida e anúncio do Paráclito
Oração da Hora
O Livro da realização: 18,1-20,31 (Paixão, Morte e Ressurreição)
Relato da Paixão
A ressurreição e o dom do Espírito
Primeira conclusão: 20,30-31
4. Epílogo ou Apêndice: 21
Depois da Ressurreição: 21,1-23
Segunda conclusão: 21,24-25


Agrupamentos religiosos fora da comunidade

Agrupamentos religiosos diferentes fora da comunidade joanina visto através do quarto evangelho
Os que não acreditam em Jesus I
O mundo
Os que preferem as trevas à luz de Jesus porque suas ações são más. Por esta opção eles já estão condenados; estão debaixo do poder do satânico príncipe deste mundo e odeiam Jesus e seus discípulos, que não são deste mundo. Ao contrário, ele venceu o mundo. Jesus se recusa a orar pelo mundo. Ao contrário, ele venceu o mundo. "O mundo" é um conceito mais amplo do que "os judeus" (II), mas os inclui. Esta oposição deu à comunidade joanina um senso alienado de serem estranhos no mundo.
II
Os judeus
Os que estão dentro da sinagoga, não acreditaram em Jesus e decidiram que qualquer pessoa que recebesse Jesus como o Messias seria expulsa da sinagoga. Os pontos principais da sua disputa com os cristãos joaninos envolvem:
(a) afirmações a respeito da unidade de Jesus com o Pai - o Jesus joanino "falava de Deus como seu Pai, tornando-se assim igual a Deus";
(b) afirmações segundo as quais entender Jesus como a presença de Deus na terra privava o Templo e as festas judaicas de seu significado.Condenaram os cristãos joaninos à morte pela perseguição e pensavam que assim estavam servindo a Deus. Segundo o pensamento de João, eles eram filhos do diabo.
III
Os adeptos de João Batista
Embora alguns dos adeptos de João Batista se juntassem a Jesus ou se tornassem cristãos (incluindo os cristãos joaninos), outros se recusavam, afirmando que João Batista e não Jesus era o emissário primário de Deus. O quarto Evangelho nega energicamente que João Batista seja o Messias, Elias, o Profeta, a Luz, ou o esposo. Insiste que João Batista deve diminuir enquanto Jesus deve crescer. Entretanto os adeptos de João Batista são descritos como pessoas que entendem mal a Jesus, mas não o odeiam. Parece que há esperança de que eles se convertam.
Os que afirmam que creem em Jesus IV
Os criptocristãos
Os judeus cristãos que permaneceram dentro das sinagogas, recusando-se a admitir publicamente que criam em Jesus. "Eles preferiam o louvor dos homens mais que a glória de Deus". Possivelmente pensavam que podiam conservar sua fé particular em Jesus sem romper com a herança judaica. Mas aos olhos dos cristãos joaninos, preferiam ser conhecidos como discípulos de Moisés e não de Jesus. Praticamente poderiam ser julgados do lado dos "judeus" (II), embora João estivesse implicitamente tentando persuadi-los a confessar sua fé publicamente.
V
Os cristãos judeus
Cristãos que tinham deixado a sinagoga, mas cuja fé em Jesus era inadequada segundo os padrões joaninos. Eles podem ter-se considerado como herdeiros de um cristianismo que existiu em Jerusalém liderado por Tiago, o irmão do Senhor. Possivelmente sua baixa cristologia que se baseava em sinais miraculosos era meio caminho entre cristologias dos grupos (IV) e (VI). Não aceitaram a divindade de Cristo. Não entenderam a Eucaristia como verdadeira carne e sangue de Jesus. Segundo o pensar de João, eles tinham deixado de ser verdadeiros crentes.
VI
Cristãos das Igrejas apostólicas
Inteiramente separados das sinagogas, comunidades mistas de judeus e gentios, se consideravam herdeiros do cristianismo de Pedro e dos Doze. A cristologia deles era moderadamente elevada. Confessavam que Jesus era o Messias nascido em Belém de descendência davídica e assim Filho de Deus desde a concepção, mas sem uma visão clara da sua vinda do alto em termos de preexistência antes da criação. Na sua eclesiologia Jesus pode ter sido visto como o patriarca que instituiu os sacramentos; mas a Igreja agora tem sua vida própria com pastores que continuam a doutrinação apostólica e o cuidado pastoral. No modo de ver de João, eles não entenderam plenamente a Jesus nem a função de ensinar do Paráclito, mas os cristãos joaninos rezavam pela unidade com eles.

Referências

  • BROWN, R.E. A comunidade do discípulo amado. Tradução Euclides Carneiro da Silva. São Paulo: Paulinas, 1983;
  • KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2005;
  • MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O Evangelho de João: análise linguística e comentário exegético. Tradução Alberto Costa. 2ª ed. São Paulo, 1999 (Coleção grande comentário bíblico);
  • MILANI, A.L.; PASSOS, J.D.; VASCONCELLOS, P.L.; VILLAC, S. Introdução ao Segundo Testamento. São Paulo: Paulus, 2007;
  • SANTOS, B.S. Teologia do Evangelho de São João. São Paulo: Santuário, 1994.
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