Wiki Catolica
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As origens apócrifas do cristianismo
Apresentação
1 Abrindo as portas das origens
2 O Evangelho de Maria Madalena
MM 7,1-10: a matéria MM 7,11-28: o pecado
MM 8,1-10: harmonia MM 8,11-24: bem-aventurado
MM 9,1-20: o beijo MM 10,1-25: o tesouro
MM 15,1-25; os climas MM 17,1-20: a preferida
MM 18,1-21: Meu irmão Pedro MM 19,1-3: anunciar o evangelho
3 O Evangelho de Tomé
Texto, datação e autoria Gênero Literário e conteúdo
Personagens Evangelho de Tomé e o de João
A não-dualidade O Reino do Pai
Evangelho de Tomé e os sinóticos Tomé e Maria Madalena
4 A outra Maria, mãe de Jesus, segundo os apócrifos
Os pais de Maria A infância de Maria Maria deixa o Templo
Maria em Nazaré A caminho Entre Belém, Egito e Nazaré
A morte de Jesus O anúncio da morte O dia em que Maria morreu
A procissão Maria no túmulo Resumo
5 A história de José nos evangelhos apócrifos
6 A infância de Jesus nos apócrifos
7 Conclusão
8 Bibliografia básica para o estudo dos apócrifos

A relação entre o evangelho de Tomé e os sinóticos[]

O evangelho de Tomé também se relaciona com os Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), sobretudo nas parábolas conservadas por eles. Jesus, nessa perspectiva, é um crítico da ordem social estabelecida. O império romano e suas mazelas políticas e econômicas são atacados com o vigor e a sutileza dos ensinamentos proféticos de Jesus. Nesse sentido, Tomé é uma tradição alternativa sobre o Jesus histórico. As parábolas em Tome, se consideradas do ano 50 e.C., nos revelam um Jesus diferente dos canônicos sinóticos: mais próximos dos camponeses excluídos do sistema econômico romano. É o que veremos na continuidade do nosso estudo sobre as parábolas em Tomé e nos sinóticos. Selecionaremos algumas parábolas e as analisaremos de forma sinóptica, isto é, vamos lê-las em relação.

O casamento entre parábola e alegoria nos evangelhos sinóticos[]

Não é justo pensar que as parábolas estão necessariamente unidas às alegorias. A tradição sinótica conservou desse modo, as parábolas de Jesus. O evangelho de Tomé não segue esse caminho. Por que isso aconteceu? É o que veremos a seguir.

Um bom exemplo de uma parábola alegorizada encontra-se em Mt 13,47-50. A parábola (vv. 47-48) fala do Reino como rede lançada ao mar que apanha todo tipo de peixes. O que é bom é colocado em uma vasilha, mas o que não presta é jogado fora. Já a alegoria (vv. 49-50) diz que assim será no fim do mundo. Os anjos virão e farão a separação entre bons e maus. Os que não prestam serão lançados na fornalha ardente. Ali haverá choro e ranger de dentes.

O que é uma parábola?[]

Parábola é a tradução do substantivo hebraico maxal, o qual significa provérbio, comparação, zombaria, escárnio. O grego traduziu maxal por parabolé ('παραβολη', 'παραβολην'). O maxal tem sua origem popular e foi coletado pelos sábios da corte. Um maxal tem força moral de ensinamento. Jesus, ao falar em parábola, coloca-se na mais pura tradição judaica.

As características de uma parábola são:

  • Ela fala do cotidiano das pessoas;
  • Retrata a realidade tale qual;
  • Emerge da realidade, mas não a reproduz, transforma-a;
  • Fala por si mesma;
  • Chama a atenção ara uma realidade;
  • Convoca a pensar: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça;
  • Fala da realidade agrária de Israel;
  • Tem sempre um quê de impensado e escandaloso.

O que é uma alegoria?[]

A alegoria é o fruto da reflexão que a comunidade produz, tendo em vista o objetivo de encontrar uma solução para os seus problemas atuais. O sentido original de um texto pode ser trasformado totalmente na alegoria. O que não constitui um problema para a comunidade que elabora a alegoria. Nos evangelhos as alegorias são uma tentativa de atualizar as parábolas de Jesus.

As características de uma alegoria são:

  • Fala por meio de alusões e insinuações;
  • Desperta a fantasia do leitor;
  • Está diretamente ligada ao grupo ou comunidade que a produziu;
  • Trabalha com duas realidade correlatas. Uma delas recebe a primazia na análise e a outra fica em função dessa.

As alegorias foram usadas em grande escala pelas primeiras comunidades e na sequência pelos pais e mães da Igreja. Santo Agostinho alegorizou a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,29-37) na perspectiva da história da Igreja do seguinte modo:

Homem caído: Adão
Jerusalém: Céu
Jericó: Terra
Samaritano:Sacerdote da Igreja Católica
Hotel:Igreja Católica
Hospedeiro: Papa
Duas moedas:Sacramentos do Batismo e Confirmação

Então a parábola é coisa boa e a alegoria, sua deturpação?[]

Não, claro que não! A alegoria de uma parábola é sempre a tentativa de recontextualizá-la, o que era um procedimento comum no tempo de Jesus.

Os seguidores de Jesus não apenas preservaram as palavras e atitudes do mestre, mas as adaptaram, criaram ou projetaram outras. O que não pode, por outro lado, levar-nos a afirmar simplesmente que Jesus falou em parábolas e as comunidades primitivas criaram as alegorias. No entanto, considerando as parábolas sinóticas em relação às de Tomé, essa conclusão é quase que inevitável. Por isso, podemos dizer que daí algumas questões permanecem, tais como:

  1. A alegorização das parábolas não nos legou um rosto de Jesus que não é o histórico?
  2. As alegorias fazem parte do ensinamento de Jesus?
  3. Não são as alegorias consequências lógicas da experiência de fé das primeiras comunidades?
  4. Como encontrar o Jesus histórico nas alegorias?

Quem sabe a compreensão dessas questões poderão ser aclaradas com o estudo comparado das parábolas de Tomé e dos sinóticos e suas respectivas alegorias nos evangelhos sinóticos.

A parábola do semeador em Tomé e Marcos[]

Tomé 9 Marcos 4,3-9.14-20
Ouvi!
Eis que saiu o semeador. Eis que o semeador saiu para semear.
Encheu sua mão e lançou as sementes. Ora, enquanto semeava,
Algumas caíram na estrada. parte caiu à beira do caminho,
Vieram os pássaros e as apanharam vieram os pássaros e comeram tudo.
Outras caíram no meio das pedras: Parte caiu também num lugar pedregoso,
não lançaram raízes na terra e não produziram frutos para o alto. onde não havia muita terra; logo germinou porque não havia terra profunda; quando o sol se levantou, foi queimada e, por lhe faltarem raízes, secou.
Outras caíram entre os espinhos Parte também caiu entre os espinhos
Estes as sufocaram o verme as devorou Os espinhos cresceram e a sufocaram, e ela ão deu fruto
Algumas caíram em terra boa e produziram bom fruto para o alto. Outros grãos caíram em terra boa e, crescendo e desenvolvendo-se, produziram fruto,
Produzindo sessenta e cem por um. e renderam trinta por um, sessenta por um, cem por um.
E Jesus dizia: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
O semeador semeia a Palavra. Os que estão à beira do caminho onde a Palavra foi semeada são aqueles que ouvem, mas logo vem Satanás e arrebata a Palavra que neles foi semeada. Assim também as que foram semeadas em solo pedregoso: são aqueles que, ao ouvirem a Palavra, imediatamente a recebem com alegria, mas não tem raízes em si mesmos, são homens de momento: caso venha a tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, imediatamente sucumbem. E outras são as que foram semeadas entre espinhos: estes são os que ouviram a Palavra, mas os cuidados do mundo, a sedução da riqueza e as ambições de outras coisas os penetram, sufocam a Palavra e a tornam infrutífera. Mas há as que foram semeadas em terra boa: estes escutam a Palavra, acolhem-na e dão frutos, um trinta, outro sessenta, outro cem.

O contexto das comunidades de Tomé e Marcos[]

Podemos situar a comunidade de Tomé que produziu esse texto, provavelmente no ano 50 e.C. Nessa época, o império romano roubava as terras férteis dos camponeses da Galileia e as passa aos seus apadrinhados políticos, como pagamento de favores. A ambição pela terra gera, então, conflitos de morte.

A comunidade de Marcos é de uma década posterior, do ano 60/70 da e.C. O império romano, nos anos 67-70, trava guerra sangrenta com a Palestina. Judeus e cristãos são perseguidos pelos romanos. Antes disso, a riqueza e ambição do mundo querem seduzir a comunidade dos cristãos, mas ela resiste. A memória das Palavras de Jesus mantém a comunidade no caminho do Reino.

O objetivo da comunidade de Tomé[]

A comunidade de Tomé está preocupada com a expropriação da terra. Muitos se tornam sem-terra e são obrigados a sair de suas terras e peregrinar em direção às cidades. Tomé quer, com a Parábola do Semeador, recordar as palavras fortes de Jesus contra essa situação social inaceitável.

O semeador é o sem-terra à beira do caminho caminhando em direção a Jerusalém.

Os passarinhos são os romanos oportunistas que comem sem plantar, isto é, recebem de graça a terra fértil da Galileia.

Os espinhos simbolizam a luta do camponês para sobreviver.

Semear é o protesto do camponês por não haver terra disponível para plantar.

A terra pedregosa é Jerusalém, cidade onde vivem os opressores.

A terra boa é o sinal evidente que temos terra para plantar, mas elas nos foram roubadas.

A terra é um dom de Deus que não pode ser tirada do povo eleito. O Jesus histórico de Tomé ensina o camponês a resistir contra os falsos donos da terra e denuncia: Mesmo que estejamos em tempos difíceis, tem semente que brota e produz cem por um! Resistir deve ser a nossa bandeira de luta.

O objetivo da comunidade de Marcos[]

A comunidade de Marcos organiza a narração em vista da alegoria. A Palavra é o fator de união da comunidade. A semente que cai em terra imprópria tem um destaque maior em Marcos, o que evidencia o drama da perseguição vivida por essa comunidade. Marcos ensina que a comunidade precisa ter fé diate das perseguições. Seguir o esquema do mundo com suas riquezas é o que mais dificulta o crescimento da palavra.

Os frutos da Palavra são a própria Palavra de Jesus que ajuda a todos permanecerem firmes. Jesus, a Palavra viva da comunidade de Marcos, é a força contra o império perseguidor e as ambições do mundo.

A parábola dos vinhateiros em Tomé, Mt, Mc e Lc[]

Tomé 65 Mc 12,1-12 Mt 21,33-46 Lc 20,9-19
Ele disse: Começou a falar-lhes em parábola Escutai outra parábola Começou a conta ao povo esta parábola.
Homem de bem homem proprietário homem
tinha uma vinha plantou uma vinha plantou uma vinha plantou uma vinha
cercou-a com uma sebe, abriu nela um lagar e construiu uma torre (Is 5,1) cercou-a com uma sebe, abriu nela um lagar e construiu uma torre (Is 5,1)
arrendou-a a lavradores arrendou-a a vinhateiros arrendou-a a vinhateiros arrendou-a a vinhateiros
para que a cultivassem e lhe dessem parte dos frutos
e viajou. e viajou. e viajou.
No tempo oportuno, madou No tempo oportuno, madou No tempo oportuno, madou
seu servo um servo seus servos um servo
para receber o fruto da vinha para receber parte dos frutos para receberem os seus frutos para receber o fruto da vinha
agarrado, espancado quase morto. agarrado, espancado devolvido. agarrados, espancados, matado e apedrejado. espancado, devolvido sem nada.
O servo contou ao patrão e esse disse: provavelmente não o reconheceram.
Mandou outro servo Mandou outro servo Mandou outros servos Mandou outro servo
espancado batido na cabeça e insultado espancado, morto, insultado espancado, insultado e despedido sem nada
outros servos terceiro servo
batidos e mortos ferido e expulsado da vinha
próprio filho filho amado seu filho filho amado
o herdeiro o herdeiro o herdeiro o herdeiro
agarrado e matado matado dentro da vinha matado fora da vinha matado fora da vinha
reação do dono da vinha: destruir os vinhateiros infames e arrendar a vinha a outros que ofereçam o fruto reação do dono da vinha: vir e destruir os vinhateiros infames e dar a vinha a outros reação do dono da vinha: vir e destruir os vinhateiros e dar a vinha a outros
Jesus disse: a pedra que ... (Sl 118,22-23) Jesus disse: a pedra que ... (Sl 118,22-23) Jesus disse: a pedra que ... (Sl 118,22-23)
Procuraram prendê-lo mas ficaram com medo da multidão, pois falava contra eles. Procuraram prendê-lo mas ficaram com medo da multidão, pois falava contra eles, os chefes dos sacerdotes e fariseus. Procuraram prendê-lo mas ficaram com medo da multidão, pois falava contra eles, os chefes dos sacerdotes e escribas.
Quem tem ouvidos, ouça!

As interpretações tradicionais da parábola dos vinhateiros[]

A leitura atenta desses textos nos revela conflitos não só entre os líderes religiosos da Palestina e Jesus, mas também entre agricultores e donos de terra. O contexto é eminentemente rural. Historicamente, os vinhateiros desse episódio foram interpretados como sendo os charlatões da história. Basta ver o título que a Bíblia de Jerusalém dá à passagem: Parábola dos vinhateiros homicidas. Ousamos interpretar esta parábola sob o viés da questão social e, sobretudo, na perspectiva da comunidade de Tomé.

São dignas de notas as diferenças entre os textos apresentados por Tomé e os sinóticos. Tomé não induz o leitor a interpretar a parábola de forma cristológica, isto é, tendo o Cristo como centro da narrativa. E talvez, por isso, ele tenha sido deixado de lado pela tradição. As interpretações convencionais da parábola dos vinhateiros seguiram dois caminhos, a saber:

  1. Alegórica: Jesus, ao contar essa parábola, teria em mente uma síntese da história da salvação, o que resultou na seguinte alegoria:
    O Senhor da vinha: é Deus que propõe uma aliança;
    A vinha: é a aliança que Deuz fez com seu povo;
    Os vinhateiros: são os israelitas que formam o povo de Israel;
    Os servos: são os profetas e os sábios enviados por Deus para recolher os frutos. Eles não obtiveram sucesso. E Deus enviou seu filho amado.
    O filho amado: é Jesus, que acabou sendo morto;
    Os outros servos: são a Igreja Católica, a qual Deus decide entregar a vinha.
  2. Cristológica: Jesus é o filho amado de Deus que cumpriu o seu papel na história da salvação. As primeiras comunidades logo compreenderam a missão de Jesus. Assim, nessa parábola, Jesus só poderia estar falando dele mesmo. O envio de Jesus ao mundo faz parte do plano salvífico de Deus. Jesus irá morrer fora da vinha, isto é, fora de Jerusalém. Jesus é a pedra que os construtores rejeitaram, o que justifica a presença do Sl 118 nos textos sinótico. Cristo morreu e ressuscitou por obra de Deus. Jesus é o filho amado de Deus. A interpretação cristológica da parábola dos vinhateiros é a resposta das comunidades sinóticas ao conflito vivido com o judaísmo. Os vinhateiros são as autoridades do Templo que brigam com os cristãos. Essas autoridades entendem que Jesus falava para elas. Elas já o tinham matado e agora queriam também acabar com os seguidores, perseguindo-os. Os judeu-cristãos reafirmam para os seus irmãos judeus a fé em Jesus como realizador das promessas.

O sentido da parábola dos vinhateiros segundo a comunidade de Tomé[]

No texto de Tomé fica claro que a parábola fala de um grupo de trabalhadores, os quais, para não entregar o fruto do seu trabalho ao dono da vinha, acaba agindo de forma violenta, seja espancando os servos, seja matando o herdeiro da vinha. O centro da parábola em Tomé está na questão fundiária da época. O homem rico do texto de Tomé representa aqueles que acumulavam as terras roubadas dos camponeses pobres da Galileia. O conflito de terra fica evidente no momento da colheita. O proprietário quer o fruto da vinha. Os trabalhadores defendem os seus direitos. O envio do filho, o herdeiro, tinha como objetivo intimidar os trabalhadores.

A parábola em Tomé, contrária aos sinóticos, simpatiza com a ação dos vinhateiros. Ele não traz a reação do patrão. A atitude inusitada e revolucionária dos vinhateiros quer reafirmar que a única saída que lhes resta é resistir para recuperar a herança perdida. Resistir! Resistir! Desse modo, Tomé incentiva as comunidades da Galileia a tomar posição contra os romanos, os quais lhes tinham roubado as terras. A violência, mesmo sendo detestável, é o caminho inevitável. Que absurdo! Era essa a função da parábola, mesmo que isso nos assusteCf. Pedro Lima Vasconcelos, E lhes falava em parábolas: Uma introdução à leitura das parábolas, Mosaicos da Bíblia, n.19, Koinonia, Rio de Janeiro, 1995. O estudo de Pedro Lima sobre as parábolas é inovador. Devemos a ele o teor da reflexão sobre as parábolas do Semeador e dos Vinhateiros.

A parábola dos vinhateiros, ou melhor, dos agricultores espoliados e revolucionários, não é cristológica, mas reflete questões sociais. O Jesus histórico da comunidade de Tomé, com essa parábola, conclamou os seus a resistir diate da exploração romana. A terra é um dom de Deus dada ao seu povo e que não pode ser usurpada pelos estrangeiros.

Por que as comunidades de Marcos, Mateus e Lucas, interpretaram as palavras de Jesus de modo diferente? Elas estão erradas? Não, elas não erram, simplesmente atualizaram a mensagem de Jesus nos seus contextos. Naquele momento histórico era importante demonstrar que Jesus foi o filho enviado por Deus.

Também hoje, as palavras de Jesus segundo a comunidade de Tomé permanecem atualíssimas. Quantos sem-terra vivem a mercê de dias melhores. Sonham que um dia eles voltarão para as suas terras roubadas pelos ricos modernos do neoliberalismo. Ou qualquer semelhança com os nossos dias é mera coincidência?

A parábola da semente de mostarda[]

Tomé 20 Mc 4,30-32 Mt 13,31-32 Lc 13,18-19
Os discípulos disseram a Jesus: Ele dizia: Jesus lhes propôs outra parábola: Ele disse então:
Mostra-nos a que se assemelha o Reino de Deus? Com que vamos comparar o Reino de Deus? a que é comparável o Reino de Deus?
É semelhante a um grão de mostarda É como um grão de mostarda O Reino dos céus é comparável a um grão de mostarda Ele é comparável a um grão de mostarda
que um homem toma que um homem toma
quando é semeado na terra e semeia no seu campo e planta na sua horta
que é a menor de todas as sementes, é a menor de todas as sementes da terra é menor de todas as sementes
mas quando cai em terra cultivada, produz mas depois de semeada, cresce e torna-se maior de todas as hortaliças e Quando cresce, é a maior das hortaliças e torna-se um Ela cresce e torna-se uma
um grande ramo, da grandes ramos, árvore, árvore.
e torna-se abrigo para as aves do céu. de tal forma que, à sua sombra, os pássaros do céu podem fazer seus ninhos. de sorte que os pássaros do céu vêm fazer ninhos em seus ramos. E os pássaros do céu se abrigam em seus ramos.

Estamos diante de uma parábolaA interpretação das três parábolas que seguem, devemos a John Domini Crossan, O Jesus histórico: vida de um camponês judeu do Mediterrâneo, Rio de Janeiro: Imago, 1994, p.313-318 que ao ser transmitida recebeu algumas modificações. Analisemos essa passagem a partir das seguintes questões: Qual seria a intenção de Jesus ao contar essa parábola? Onde está o centro da parábola? Interpretações tradicionais insistem em mostrar o Reino como semente pequena que cresce e fica grande.

Vejamos três modos possíveis de ler a parábola da semente de mostarda a partir de seu centro:

  1. Centro da parábola: semente. Compreendido desse modo, o enfoque desse texto está na passagem do pequeno para o grande. A pequena semente de mostarda é o novo Israel, isto é, os seguidores de Jesus, os quais se tornarão grandes árvores. Tomé, Marcos e Mateus, com exceção de Lucas, falam desse menor que fica grande. Não acreditamos ser essa a melhor interpretação. Não obstante há de se considerar que cada seguidor do Reino é chamado a lavrar constantemente o seu interior para deixar a semente do Reino crescer e produzir abundantes frutos.
  2. Centro da parábola: árvore. Nesse sentido, o pequeno Israel tornar-se-ia uma grande árvore apocalíptica. textos do Primeiro Testamento falam do cedro do Líbano como árvore apocalíptica (Sl 104,12; Ez 31,3.6; Dn 4,10-12). E é nessa grande árvore que os pássaros fazem os seus ninhos. Acreditamos que se Jesus, de fato, quisesse referir-se a uma árvore apocalíptica teria mencionado o cedro e não a mostarda. Não, esse não pode ser o centro da parábola.
  3. Centro da parábola: pé de mostarda. A mostarda é uma planta medicinal e culinária que chega a medir no máximo 1,5 m de altura. Ela se desenvolve melhor ao ser transplantada. Depois de plantada, torna-se uma erva daninha. Temos dois tipos de mostarda, a selvagem e a culinária. Por ser uma planta impura, o código deuteronômico (Dt 22,9) proíbe a sua plantação. O centro da parábola está, portanto, no pé de mostarda, seja ele doméstico ou selvagem. Assim é o Reino de Deus, ele chega e se esparrama. Não pode ser controlado, torna-se abundante como a nossa tiririca. Atrai pássaros, inimigos de qualquer agricultor. O Reino, depois de semeado, perde o controle, toma conta do terreno todo. Assim como o Reino, a mostarda é motivo de escândalo ara muitos. O Reino é indesejável e violador das regras de santidade. Essa interpretação nos ajuda a compreender o valor do Reino.

A parábola do fermento[]

Tomé 96 Mt 13,33 Lc 13,20-21
O Reino de Deus O Reino dos céus O Reino de Deus
é semelhante a uma mulher é comparável ao fermento é comparável ao fermento
que tomou um pouco de fermento e misturou-o à massa que uma mulher põe em três medidas de farinha que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha
e fez grandes pães. de tal forma que a massa toda fica fermentada. de tal modo que a massa toda fica fermentada.

A interpretação tradicional dessa passagem considerou fermento como ponto crucial na compreensão dessa fala de Jesus sobre o Reino. Ousamos perguntar se, de fato, nisso estaria o centro desse texto? Para uma nova compreensão do texto, é necessário entender a simbologia usada por Jesus, que as comunidades de Tomé, Mateus e Lucas conservaram.

  1. Mulher: representa a impureza religiosa e a fertilidade. Suas regras deviam ser controladas pelos sacerdotes. Dessa forma, o sagrado estaria também sob controle. Por outro lado, mulher e a Torá (lei, caminho, conduta) eram os bens preciosos dos judeus. Sem elas, a vida não se multiplicaria.
  2. Fermento: símbolo também da impureza e da corrupção moral. O fermento era feito a partir da putrefação da batata, escondida por vários dias em um lugar escuro. O fermento cheirava mal e era detestado por judeus piedosos e escrupulosos. O medo de tocar em coisas impuras e tornar-se uma delas levava os judeus a estabelecer regras de contato com coisas e pessoas impuras. O código de santidade (Lv 17-26) é um exemplo claro desse modo de pensar judaico. Sede santos como eu sou Santo (Lv 19,2) passou a ser símbolo de pureza moral.
  3. Três medidas: o fato de o fermento ser colocado em três medidas de farinha pode não significar nada em absoluto, mas pode também ser uma alusão ao Shemá Israel (Escuta, ó Israel), profissão de fé israelita baseada no amor vivido com o coração, o ser e as posses (Dt 6,4-9). Em vários textos bíblicos do Segundo Testamento encontramos alusão ao ShemáCf. Jacir de Freitas Faria, A releitura do Shemá Israel nos evangelhos e Atos dos Apóstolos, RIBLA, n.40, 2001.
  4. Grandes pães: só a comunidade de Tomé se preocupa em mostrar que a ação da mulher resulta em grandes pães. É o Reino de Deus que provoca grandes mudanças. Toda a ação em prol do Reino é como uma massa que trabalhada com carinho e dedicação produz grandes pães.

Considerando a simbologia e as diferenças nos textos, suspeitamos que o centro da parábola de Tomé não esta no fermento, mas no processo de fabricação do fermento. Ele é feito pela mulher, no escuro, é impuro e cheira mal. Assim também era considerado a mulher. Aceitar o Reino é ir contra o que esta ocorrendo de errado na sociedade, é não aceitar o erro tido como coisa normal. O Reino ataca a estrutura má da sociedade. E por mais insignificante que seja, ele contagia, produz grandes pães.

A parábola do joio[]

Tomé 57 Mt 13,24-30
Disse Jesus: Ele lhes propôs outra parábola:
O Reino do Pai é semelhante a um homem que tem uma boa semente O Reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo
De noite veio seu inimigo e semeou joio entre a boa semente. Enquanto as pessoas dormiam, veio o seu inimigo, semeou joio por cima, bem no meio do trigo, e foi embora.
Quando a erva cresceu e deu espigas, então apareceu também o joio. Os servos do dono da casa vieram dizer-lhe: Senhor, não foi boa semente que semeastes no teu campo? Donde vem então que haja nele joio? Ele lhes disse: Foi um inimigo que fez isso. Os servos lhe disseram: Então queres que nós vamos arrancá-lo?
O homem não lhes permitiu que arrancassem o joio. Não, disse ele.
Pode acontecer que, indo arrancar o joio, arranqueis com ele a boa semente. Não aconteça que, tirando o joio, arranqueis o trigo com ele.
No dia da colheita o joio aparecerá. Deixai que ambos cresçam até a ceifa, e na época da ceifa direi aos ceifadores:
Então serra arrancado e queimado apanhai primeiro o joio e amarrai-o em molhos para queimar; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.

A interpretação tradicional dessa passagem sempre identificou o joio como elemento ruim que impede o reino crescer, e, por isso, no fim dos tempos ele será arrancado e queimado. Em outras palavras: o mal deve crescer junto com o bem (Reino). Não que esta interpretação esteja errada, mas sejamos ousados e perguntemos: não estaria Jesus querendo dizer que o Reino é o joio? Considerando a memória dessa passagem conservadora pela comunidade de Tomé, não poderíamos concluir que o contexto dessa passagem seria o conflito agrário?

A comunidade de Mateus releu a parábola no contexto escatológico. E o fez muito bem! No entanto, considerando o modo como a comunidade de Tomé nos conta essa parábola, podemos definir o Reino de Deus de outro modo, ou melhor, de outros três modos sugeridos pelo texto. Vejamos! O que é mesmo o joio? Essa erva daninha, chamada joio, é uma graminha que cresce anualmente e é muito comum nos países do mediterrâneo oriental. Ela é uma eva venenosa, seus grãos possuem toxinas. O gado que come, morre. O joio não cresce em terrenos a mais de 550 metros de altitude. Nos anos chuvosos cresce mais que o trigo. A experiência campesina aprendeu desde cedo que colher o joio com o trigo é desaconselhável, pois esse irá contaminar o trigo. Daí o conselho que aparece no final de ambos os textos.

Mas então, como definir de três modos o Reino de Deus nessa parábola? Ele pode ser comparado ao joio, a fazendeiro prospero ou ao sem-terra.

  1. O Reino é como o joio, essa erva daninha que cresce em qualquer lugar, sem pedir licença. O Reino é assim, chega e se esparrama, independentemente da vontade das pessoas, seja ele um rico fazendeiro, seja ele um pobre sem-terra. Ninguém pode impedi-lo. Assim aconteceu com o império romano, ele teve que aceitar o cristianismo como religião. Pena que a história escreveu também tristes páginas desse casamento.
  2. O Reino é como um fazendeiro próspero que possui uma rica plantação de trigo e não pode impedir que cresça o joio jogado na sua plantação pelo inimigo.
  3. O Reino é como o sem-terra que não pode se livrar do grande fazendeiro que tirou as suas terras. Mas quando o joio cresce na plantação do fazendeiro ele só pode rir.

O Reino está dentro de cada um de nós. Mesmo sendo arrancado e queimado, ele cresce em outro lugar. Ele se esparrama como o joio, mesmo que isso assuste o nosso pensar, acostumado a comparar o Reino sempre com coisas positivas.

O que podemos concluir do estudo comparado das parábolas em Tomé e nos Sinóticos?[]

  1. As parábolas são, na sua grande maioria, o retrato do Jesus histórico e as alegorias, interpretações das comunidades cristãs. Não basta apenas afirmar isto, é preciso conhecer o pano de fundo, o contexto que produziu ou re-elaborou os textos, o que nos ajudará a compreender o enfoque apocalíptico e escatológico que os evangelhos canônicos conferiram às parábolas de Jesus.
  2. A visão apocalíptica e escatológica estava presente nas comunidades, sobretudo no pós-morte de Jesus. As comunidades, ao constatarem que Jesus tinha morrido como qualquer mortal, se desesperaram. Incertezas e dúvidas pairavam no ar. A certeza da ressurreição de Jesus devolveu a esperança perdida. No entanto, o mistério continuava: como ocorreu a ressurreição? Quando e como será o fim dos tempos? Os evangelhos canônicos são uma tentativa de dar uma resposta a essas perguntas.
  3. Mesmo considerando a decorrência natural da exegese tradicional em interpretar as parábolas de modo apocalíptico, não podemos deixar de constatar que as parábolas, sem as suas respectivas alegorias, estão ligadas ao contexto histórico-social-político-econômico do tempo de Jesus. As parábolas conservadas pela comunidade de Tomé nos ajudam a compreender isso com clareza. As parábolas tinham, então, como objetivo denunciar as injustiças e anunciar o Reino de Deus.
  4. As alegorias respondem aos anseios e necessidades de cada comunidade e, por isso, tem pontos de vista diferenciados e até mesmo divergentes.
  5. As parábolas fazem parte do imaginário simbólico do povo da Bíblia. Para entendê-las se faz necessário conhecer a simbologia semita.
  6. Embora nos faltem instrumentos para uma melhor interpretação das parábolas, urge recuperar os textos apócrifos, como as parábolas de Tomé, para melhor compreender quem é jesus, ou melhor as outras faces de Jesus desconhecidas até então por nós. Não que queiramos pleitear um outro Jesus, mas conhecer outras vozes da tradição em relação a ele, que foram mantidas em segredo.
  7. As parábolas eram um modo de ensinar da época de Jesus. O ensino era basicamente através da fala, da palavra, portanto, por meio de parábolas. Não é novidade nenhuma Jesus ter contado parábolas para o povo. Encontramos parábolas na boca de Jesus que outros mestres do judaísmo também contavam.
  8. As interpretações que propomos das parábolas nos evangelhos de Tomé, mateus, Marcos e Lucas, não são absolutas, mas um jeito de reler e redescobrir sentidos novos. E nao é essa a função do estudioso da Palavra de Deus, tirar do baú coisas novas e velhas (Mt 13,52)?
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