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Exortação Apostólica Verbum Domini (30/09/2010)
Introdução * 1-5
Verbum Dei

O Deus que fala * 6-21
A resposta do homem a Deus que fala * 22-28
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja * 29-49

Verbum in Ecclesia

A palavra de Deus e a Igreja * 50-51
Liturgia, lugar privilegiado da palavra de Deus * 52-71
A palavra de Deus na vida eclesial * 72-89

Verbum mundo

A missão da Igreja:
anunciar a palavra de Deus ao mundo
* 90-98
Palavra de Deus e compromisso no mundo * 99-108
Palavra de Deus e culturas * 109-116
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso * 117-120

Conclusão * 121-124
Fonte: Vaticano

O Deus que fala[]

[]

6. A novidade da revelação bíblica consiste no fato de Deus Se dar a conhecer no diálogo, que deseja ter connosco.Relatio ante disceptationem, I. A Constituição dogmática Dei Verbum tinha exposto esta realidade, reconhecendo que "Deus invisível na riqueza do seu amor fala aos homens como a amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele".Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 2. Mas ainda não teríamos compreendido suficientemente a mensagem do Prólogo de São João, se nos detivéssemos na constatação de que Deus Se comunica amorosamente a nós. Na realidade, o Verbo de Deus, por meio do Qual "tudo começou a existir" (Jo 1,3) e que Se "fez carne" (Jo 1,14), é o mesmo que já existia "no princípio" (Jo 1,1). Se aqui podemos descobrir uma alusão ao início do livro do Gênesis (Gn 1,1), na realidade vemo-nos colocados diante de um princípio de carácter absoluto e que nos narra a vida íntima de Deus. O Prólogo joanino apresenta-nos o fato de que o Logos existe realmente desde sempre, e desde sempre Ele mesmo é Deus. Por conseguinte, nunca houve em Deus um tempo em que não existisse o Logos. O Verbo preexiste à criação. Portanto, no coração da vida divina, há a comunhão, há o dom absoluto. "Deus é amor" (1Jo 4,16) – dirá noutro lugar o mesmo Apóstolo, indicando assim "a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho".Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218. Deus dá-Se-nos a conhecer como mistério de amor infinito, no qual, desde toda a eternidade, o Pai exprime a sua Palavra no Espírito Santo. Por isso o Verbo, que desde o princípio está junto de Deus e é Deus, revela-nos o próprio Deus no diálogo de amor entre as Pessoas divinas e convida-nos a participar nele. Portanto, feitos à imagem e semelhança de Deus amor, só nos podemos compreender a nós mesmos no acolhimento do Verbo e na docilidade à obra do Espírito Santo. É à luz da revelação feita pelo Verbo divino que se esclarece definitivamente o enigma da condição humana.

Analogia da Palavra de Deus[]

7. A partir destas considerações que brotam da meditação sobre o mistério cristão expresso no Prólogo de João, é necessário agora pôr em evidência aquilo que foi afirmado pelos Padres sinodais a propósito das diversas modalidades com que usamos a expressão "Palavra de Deus". Falou-se, justamente, de uma sinfonia da Palavra, de uma Palavra única que se exprime de diversos modos: "um cântico a diversas vozes"Instrumentum laboris, 9.. A este propósito, os Padres sinodais falaram de um uso analógico da linguagem humana na referência à Palavra de Deus. Com efeito, se esta expressão, por um lado, diz respeito à comunicação que Deus faz de Si mesmo, por outro assume significados diversos que devem ser atentamente considerados e relacionados entre si, tanto do ponto de vista da reflexão teológica como do uso pastoral. Como nos mostra claramente o Prólogo de João, o Logos indica originariamente o Verbo eterno, ou seja, o Filho unigênito, gerado pelo Pai antes de todos os séculos e consubstancial a Ele: o Verbo estava junto de Deus, o Verbo era Deus. Mas este mesmo Verbo – afirma São João – "fez-Se carne" (Jo 1,14); por isso Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, é realmente o Verbo de Deus que Se fez consubstancial a nós. Assim a expressão "Palavra de Deus" acaba por indicar aqui a pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai feito homem.

Além disso, se no centro da revelação divina está o acontecimento de Cristo, é preciso reconhecer que a própria criação, o liber naturae, constitui também essencialmente parte desta sinfonia a diversas vozes na qual Se exprime o único Verbo. Do mesmo modo confessamos que Deus comunicou a sua Palavra na história da salvação, fez ouvir a sua voz; com a força do seu Espírito, "falou pelos profetas"Credo de Niceia-Constantinopla: DS 150.. Por conseguinte, a Palavra divina exprime-se ao longo de toda a história da salvação e tem a sua plenitude no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. E Palavra de Deus é ainda aquela pregada pelos Apóstolos, em obediência ao mandato de Jesus Ressuscitado: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura" (Mc 16,15). Assim a Palavra de Deus é transmitida na Tradição viva da Igreja. Enfim, é Palavra de Deus, atestada e divinamente inspirada, a Sagrada Escritura, Antigo e Novo Testamento. Tudo isto nos faz compreender por que motivo, na Igreja, veneramos extremamente as Sagradas Escrituras, apesar da fé cristã não ser uma "religião do Livro": o cristianismo é a "religião da Palavra de Deus", não de "uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo"São Bernardo de Claraval, Homilia super missus est, IV, 11: PL 183, 86 B.. Por conseguinte a Sagrada Escritura deve ser proclamada, escutada, lida, acolhida e vivida como Palavra de Deus, no sulco da Tradição Apostólica de que é inseparávelConc. Ecum. VAT. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 10..

Como afirmaram os Padres sinodais, encontramo-nos realmente perante um uso analógico da expressão "Palavra de Deus", e disto mesmo devemos estar conscientes. Por isso, é necessário que os fiéis sejam melhor formados para identificar os seus diversos significados e compreender o seu sentido unitário. E do ponto de vista teológico é preciso também aprofundar a articulação dos vários significados desta expressão, para que resplandeça melhor a unidade do plano divino e, neste, a centralidade da pessoa de CristoPropositio 3..

Dimensão cósmica da Palavra[]

8. Conscientes do significado fundamental da Palavra de Deus referida ao Verbo eterno de Deus feito carne, único salvador e mediador entre Deus e o homem,Congr. para a Doutrina da Fé, Declaração sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja Dominus Iesus (6 de Agosto de 2000), 13-15: AAS 92 (2000), 754-756. e escutando esta Palavra, somos levados pela revelação bíblica a reconhecer que ela é o fundamento de toda a realidade. O Prólogo de São João afirma, referindo-se ao Logos divino, que "tudo começou a existir por meio d’Ele, e, sem Ele, nada foi criado" (Jo 1,3); de igual modo na Carta aos Colossenses afirma-se, aludindo a Cristo "primogênito de toda a criação" (Cl 1,15), que "tudo foi criado por Ele e para Ele" (1,16). E o autor da Carta aos Hebreus recorda que "pela fé conhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus, de tal modo que o que se vê não provém das coisas sensíveis" (Hb 11,3).

Este anúncio é, para nós, uma palavra libertadora. De fato, as afirmações da Sagrada Escritura indicam que tudo o que existe não é fruto de um acaso irracional, mas é querido por Deus, está dentro do seu desígnio, em cujo centro se encontra a oferta de participar na vida divina em Cristo. A criação nasce do Logos e traz indelével o sinal da Razão criadora que regula e guia. Esta feliz certeza é cantada nos Salmos: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os seus exércitos" (Sl 33,6); e ainda: "Ele falou e as coisas existiram. Ele mandou e as coisas subsistiram" (Sl 33,9). A realidade inteira exprime este mistério: "Os céus proclamam a glória de Deus, o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (Sl 19,2). É a própria Sagrada Escritura que nos convida a conhecer o Criador, observando a criação (Sb 13,5; Rm 1,19-20). A tradição do pensamento cristão soube aprofundar este elemento-chave da sinfonia da Palavra, quando por exemplo São Boaventura – que, juntamente com a grande tradição dos Padres Gregos, vê todas as possibilidades da criação no LogosIn Hexaemeron, XX, 5: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 425-426; Breviloquium, I, 8: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 216-217.– afirma que "cada criatura é palavra de Deus, porque proclama Deus"Itinerarium mentis in Deum, II, 12: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 302-303; Commentarius in librum Ecclesiastes, cap. 1, vers. 11, Quaestiones, II, 3: Opera Omnia, VI (Quaracchi 1891), p. 16.. A Constituição dogmática Dei Verbum sintetizara este fato dizendo que "Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (Jo 1,3), oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na criação"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 3; cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, cap. 2 – De revelatione: DS 3004..

A criação do homem[]

9. Deste modo, a realidade nasce da Palavra, como creatura Verbi, e tudo é chamado a servir a Palavra. A criação é lugar onde se desenvolve toda a história do amor entre Deus e a sua criatura; por conseguinte, o movente de tudo é a salvação do homem. Contemplando o universo na perspectiva da história da salvação, somos levados a descobrir a posição única e singular que ocupa o homem na criação: "Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher" (Gn 1,27). Isto permite-nos reconhecer plenamente os dons preciosos recebidos do Criador: o valor do próprio corpo, o dom da razão, da liberdade e da consciência. Nisto encontramos também tudo aquilo que a tradição filosófica chama "lei natural"Propositio 13.. Com efeito, "todo o ser humano que atinge a consciência e a responsabilidade experimenta um chamamento interior para realizar o bem"Comissão Teológica Internacional, À procura de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural, Cidade do Vaticano 2009, n. 39. e, consequentemente, evitar o mal. Sobre este princípio, como recorda São Tomás de Aquino, fundam-se também todos os outros preceitos da lei natural.Summa theologiae, Ia-IIae, q. 94, a. 2. A escuta da Palavra de Deus leva-nos em primeiro lugar a prezar a exigência de viver segundo esta lei "escrita no coração" (Rm 2,15; 7,23)Pont. Comissão Bíblica, Bíblia e moral. Raízes bíblicas do agir cristão (11 de Maio de 2008), Cidade do Vaticano 2008, nn. 13, 32 e 109.. Depois, Jesus Cristo dá aos homens a Lei nova, a Lei do Evangelho, que assume e realiza de modo sublime a lei natural, libertando-nos da lei do pecado, por causa do qual, come diz São Paulo, "querer o bem está ao meu alcance, mas realizá-lo não" (Rm 7,18), e dá aos homens, por meio da graça, a participação na vida divina e a capacidade de superar o egoísmoComissão Teológica Internacional, À procura de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural, Cidade do Vaticano 2009, n. 102..

O realismo da Palavra[]

10. Quem conhece a Palavra divina conhece plenamente também o significado de cada criatura. De fato, se todas as coisas "têm a sua subsistência" n’Aquele que existe "antes de todas as coisas" (Cl 1,17), então quem constrói a própria vida sobre a sua Palavra edifica de modo verdadeiramente sólido e duradouro. A Palavra de Deus impele-nos a mudar o nosso conceito de realismo: realista é quem reconhece o fundamento de tudo no Verbo de DeusBento XVI, Homilia durante a Hora Tércia no início da I Congregação Geral do Sínodo dos Bispos (6 de Outubro de 2008): AAS 100 (2008), 758-761.. Isto revela-se particularmente necessário no nosso tempo, em que manifestam o seu carácter efêmero muitas coisas com as quais se contava para construir a vida e sobre as quais se era tentado a colocar a própria esperança. Mais cedo ou mais tarde, o ter, o prazer e o poder manifestam-se incapazes de realizar as aspirações mais profundas do coração do homem. De fato, para edificar a própria vida, ele tem necessidade de alicerces sólidos, que permaneçam mesmo quando falham as certezas humanas. Na realidade, já que "para sempre, Senhor, como os céus, subsiste a vossa palavra" e a fidelidade do Senhor "atravessa as gerações" (Sl 119, 89-90), quem constrói sobre esta palavra, edifica a casa da própria vida sobre a rocha (Mt 7,24). Que o nosso coração possa dizer a Deus cada dia: "Sois o meu abrigo, o meu escudo, na vossa palavra pus a minha esperança" (Sl 119,114), e possamos agir cada dia confiando no Senhor Jesus como São Pedro: "Porque Tu o dizes, lançarei as redes" (Lc 5,5).

Cristologia da Palavra[]

11. A partir deste olhar sobre a realidade como obra da Santíssima Trindade, através do Verbo divino, podemos compreender as palavras do autor da Carta aos Hebreus: "Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos Profetas, agora falou-nos nestes últimos tempos pelo Filho, a Quem constituiu herdeiro de tudo e por Quem igualmente criou o mundo" (Hb 1,1-2). É estupendo observar como todo o Antigo Testamento se nos apresenta já como história na qual Deus comunica a sua Palavra: de fato, "tendo estabelecido aliança com Abraão (Gn 15,18), e com o povo de Israel por meio de Moisés (Ex 24,8), revelou-Se ao Povo escolhido como único Deus verdadeiro e vivo, em palavras e obras, de tal modo que Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus sobre os homens, os compreendesse cada vez mais profunda e claramente, ouvindo o mesmo Deus falar por boca dos profetas, e os difundisse mais amplamente entre os homens (Sl 21,28-29; 95,1-3; Is 2,1-4; Jr 3,17)"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 14.

Esta condescendência de Deus realiza-se, de modo insuperável, na encarnação do Verbo. A Palavra eterna que se exprime na criação e comunica na história da salvação, tornou-se em Cristo um homem, "nascido de mulher" (Gl 4,4). Aqui a Palavra não se exprime primariamente num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade. Daqui se compreende por que motivo, "no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo"Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218.. A renovação deste encontro e desta consciência gera no coração dos fiéis a maravilha pela iniciativa divina, que o homem, com as suas próprias capacidades racionais e imaginação, jamais teria podido conceber. Trata-se de uma novidade inaudita e humanamente inconcebível: "O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós" (Jo 1,14a). Estas expressões não indicam uma figura retórica mas uma experiência vivida. Quem a refere é São João, testemunha ocular: "Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai, como Filho único cheio de graça e de verdade" (Jo 1,14b). A fé apostólica testemunha que a Palavra eterna Se fez Um de nós. A Palavra divina exprime-se verdadeiramente em palavras humanas.

12. A tradição patrística e medieval, contemplando esta "Cristologia da Palavra", utilizou uma sugestiva expressão: O Verbo abreviou-Se"Ho Logos pachynetai (ou brachynetai)". Cf. Orígenes, Peri Archon, I, 2, 8: SC 252, 127-129.. "Na sua tradução grega do Antigo Testamento, os Padres da Igreja encontravam uma frase do profeta Isaías – que o próprio São Paulo cita – para mostrar como os caminhos novos de Deus estivessem já preanunciados no Antigo Testamento. Eis a frase: “O Senhor compendiou a sua Palavra, abreviou-a” (Is 10, 23; Rm 9, 28). (…) O próprio Filho é a Palavra, é o Logos: a Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez--Se criança, para que a Palavra possa ser compreendida por nós"Bento XVI, Homilia na solenidade do Natal do Senhor (24 de Dezembro de 2006): AAS 99 (2007), 12.. Desde então a Palavra já não é apenas audível, não possui somente uma voz; agora a Palavra tem um rosto, que por isso mesmo podemos ver: Jesus de NazaréMensagem final, II, 4-6.

Repassando a narração dos Evangelhos, notamos como a própria humanidade de Jesus se manifesta em toda a sua singularidade precisamente quando referida à Palavra de Deus. De fato, na sua humanidade perfeita, Ele realiza a vontade do Pai a todo o momento; Jesus ouve a sua voz e obedece-Lhe com todo o seu ser; conhece o Pai e observa a sua palavra (Jo 8,55); comunica-nos as coisas do Pai (Jo 12,50); "dei-lhes as palavras que Tu Me deste" (Jo 17,8). Assim Jesus mostra que é o Logos divino que Se dá a nós, mas é também o novo Adão, o homem verdadeiro, aquele que cumpre em cada momento não a própria vontade mas a do Pai. Ele "crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens" (Lc 2,52). De maneira perfeita, escuta, realiza em Si mesmo e comunica-nos a Palavra divina (Lc 5,1). Por fim, a missão de Jesus cumpre-se no Mistério Pascal: aqui vemo-nos colocados diante da "Palavra da cruz" (1Cor 1,18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque Se "disse" até calar, nada retendo do que nos devia comunicar. Sugestivamente os Padres da Igreja, ao contemplarem este mistério, colocam nos lábios da Mãe de Deus esta expressão: "Está sem palavra a Palavra do Pai, que fez toda a criatura que fala; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele a cuja palavra e aceno se move tudo o que tem vida"Máximo o Confessor, A vida de Maria, n. 89: Textos marianos do primeiro milénio, 2, Roma 1989, p. 253.. Aqui verdadeiramente comunica-se-nos o amor "maior", aquele que dá a vida pelos próprios amigos (Jo 15,13).

Neste grande mistério, Jesus manifesta-Se como a Palavra da Nova e Eterna Aliança: a liberdade de Deus e a liberdade do homem encontraram--se definitivamente na sua carne crucificada, num pacto indissolúvel, válido para sempre. O próprio Jesus, na Última Ceia, ao instituir a Eucaristia falara de "Nova e Eterna Aliança", estabelecida no seu sangue derramado (Mt 26,28; Mc 14,24; Lc 22,20), mostrando-Se como o verdadeiro Cordeiro imolado, no qual se realiza a definitiva libertação da escravidãoBento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 9-10: AAS 99 (2007), 111-112.

No mistério refulgente da ressurreição, este silêncio da Palavra manifesta-se com o seu significado autêntico e definitivo. Cristo, Palavra de Deus encarnada, crucificada e ressuscitada, é Senhor de todas as coisas; é o Vencedor, o Pantocrator, e assim todas as coisas ficam recapituladas n’Ele para sempre (Ef 1,10). Por isso, Cristo é "a luz do mundo" (Jo 8,12), aquela luz que "resplandece nas trevas" (Jo 1,5) mas as trevas não a acolheram (Jo 1,5). Aqui se compreende plenamente o significado do Salmo 119 quando a designa "farol para os meus passos, e luz para os meus caminhos" (v. 105); esta luz decisiva na nossa estrada é precisamente a Palavra que ressuscita. Desde o início, os cristãos tiveram consciência de que, em Cristo, a Palavra de Deus está presente como Pessoa. A Palavra de Deus é a luz verdadeira, de que o homem tem necessidade. Sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz do mundo. Agora, vivendo com Ele e para Ele, podemos viver na luz.

13. Chegados por assim dizer ao coração da "Cristologia da Palavra", é importante sublinhar a unidade do desígnio divino no Verbo encarnado: é por isso que o Novo Testamento nos apresenta o Mistério Pascal de acordo com as Sagradas Escrituras, como a sua íntima realização. São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, afirma que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados, "segundo as Escrituras" (1Cor 15,3) e que ressuscitou no terceiro dia "segundo as Escrituras" (15,4). Deste modo o Apóstolo põe o acontecimento da morte e ressurreição do Senhor em relação com a história da Antiga Aliança de Deus com o seu povo. Mais ainda, faz-nos compreender que esta história recebe de tal acontecimento a sua lógica e o seu verdadeiro significado. No Mistério Pascal, realizam-se "as palavras da Escritura, isto é, esta morte realizada “segundo as Escrituras” é um acontecimento que contém em si mesmo um logos, uma lógica: a morte de Cristo testemunha que a Palavra de Deus Se fez totalmente “carne”, “história” humana"Bento XVI, Audiência Geral (15 de Abril de 2009): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 18/IV/2009), p. 12.. Também a ressurreição de Jesus acontece "ao terceiro dia, segundo as Escrituras": dado que a corrupção, segundo a interpretação judaica, começava depois do terceiro dia, a palavra da Escritura cumpre-se em Jesus, que ressuscita antes de começar a corrupção. Deste modo São Paulo, transmitindo fielmente o ensinamento dos Apóstolos (1Cor 15,3), sublinha que a vitória de Cristo sobre a morte se verifica através da força criadora da Palavra de Deus. Esta força divina proporciona esperança e alegria: tal é, em definitivo, o conteúdo libertador da revelação pascal. Na Páscoa, Deus revela-Se a Si mesmo juntamente com a força do Amor trinitário que aniquila as forças destruidoras do mal e da morte.

Assim, recordando estes elementos essenciais da nossa fé, podemos contemplar a unidade profunda entre criação e nova criação e de toda a história da salvação em Cristo. Recorrendo a uma imagem, podemos comparar o universo com uma partitura, um "livro" – diria Galileu Galilei – considerando-o como "a obra de um Autor que Se exprime através da “sinfonia” da criação. Dentro desta sinfonia, a determinado ponto aparece aquilo que, em linguagem musical, se chama um “solo”, um tema confiado a um só instrumento ou a uma só voz; e é tão importante que dele depende o significado da obra inteira. Este “solo” é Jesus (…). O Filho do Homem compendia em Si mesmo a terra e o céu, a criação e o Criador, a carne e o Espírito. É o centro do universo e da história, porque n’Ele se unem sem se confundir o Autor e a sua obra"Bento XVI, Homilia na solenidade da Epifania (6 de Janeiro de 2009): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 10/I/2009), p. 3.

Dimensão escatológica da Palavra de Deus[]

14. Por meio de tudo isto, a Igreja exprime a consciência de se encontrar, em Jesus Cristo, com a Palavra definitiva de Deus; Ele é "o Primeiro e o Último" (Ap 1,17). Deu à criação e à história o seu sentido definitivo; por isso somos chamados a viver o tempo, a habitar na criação de Deus dentro deste ritmo escatológico da Palavra. "Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (1Tm 6,14; Tt 2,13)"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 4.. De fato, como recordaram os Padres durante o Sínodo, a "especificidade do cristianismo manifesta-se no acontecimento que é Jesus Cristo, ápice da Revelação, cumprimento das promessas de Deus e mediador do encontro entre o homem e Deus. Ele, “que nos deu a conhecer Deus” (Jo 1,18), é a Palavra única e definitiva confiada à humanidade"Propositio 4.. São João da Cruz exprimiu esta verdade de modo admirável: "Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer (…). Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade"São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, II, 22.

Consequentemente, o Sínodo recomendou que "se ajudassem os fiéis a bem distinguir a Palavra de Deus das revelações privadas"Propositio 47., cujo "papel não é (…) “completar” a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época histórica"Catecismo da Igreja Católica, 67.. O valor das revelações privadas é essencialmente diverso do da única revelação pública: esta exige a nossa fé; de fato nela, por meio de palavras humanas e da mediação da comunidade viva da Igreja, fala-nos o próprio Deus. O critério da verdade de uma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando aquela nos afasta d’Ele, certamente não vem do Espírito Santo, que nos guia no âmbito do Evangelho e não fora dele. A revelação privada é uma ajuda para a fé, e manifesta-se como credível precisamente porque orienta para a única revelação pública. Por isso, a aprovação eclesiástica de uma revelação privada indica essencialmente que a respectiva mensagem não contém nada que contradiga a fé e os bons costumes; é lícito torná-la pública, e os fiéis são autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão. Uma revelação privada pode introduzir novas acentuações, fazer surgir novas formas de piedade ou aprofundar antigas. Pode revestir-se de um certo carácter profético (1Ts 5,19-21) e ser uma válida ajuda para compreender e viver melhor o Evangelho na hora atual; por isso não se deve desprezá-la. É uma ajuda, que é oferecida, mas da qual não é obrigatório fazer uso. Em todo o caso, deve tratar-se de um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são o caminho permanente da salvação para todosCongr. para a Doutrina da Fé, A mensagem de Fátima (26 de Junho de 2000): Ench. Vat., 19, n. 974-1021.

A Palavra de Deus e o Espírito Santo[]

15. Depois de nos termos detido sobre a Palavra última e definitiva de Deus ao mundo, é necessário recordar agora a missão do Espírito Santo relativamente à Palavra divina. De fato, não é possível uma compreensão autêntica da revelação cristã fora da ação do Paráclito. Isto deve-se ao fato de a comunicação que Deus faz de Si mesmo implicar sempre a relação entre o Filho e o Espírito Santo, a Quem Ireneu de Lião realmente chama "as duas mãos do Pai"Adversus haereses, IV, 7, 4: PG 7, 992-993; V, 1, 3: PG 7, 1123; V, 6, 1: PG 7, 1137; V, 28, 4: PG 7, 1200.. Aliás, é a Sagrada Escritura que nos indica a presença do Espírito Santo na história da salvação e, particularmente, na vida de Jesus, o Qual é concebido no seio da Virgem Maria por obra do Espírito Santo (Mt 1,18; Lc 1,35); ao iniciar a sua missão pública nas margens do Jordão, vê-O descer sobre Si em forma de pomba (Mt 3,16); neste mesmo Espírito, Jesus age, fala e exulta (Lc 10,21); é no Espírito que Se oferece a Si mesmo (Hb 9,14). Quando está para terminar a sua missão – segundo narra o evangelista São João –, o próprio Jesus relaciona claramente o dom da sua vida com o envio do Espírito aos Seus (Jo 16,7). Depois Jesus ressuscitado, trazendo na sua carne os sinais da paixão, derrama o Espírito (Jo 20,22), tornando os discípulos participantes da sua própria missão (Jo 20,21). O Espírito Santo ensinará aos discípulos todas as coisas, recordando-lhes tudo o que Cristo disse (Jo 14,26), porque será Ele, o Espírito de Verdade (Jo 15,26), a guiar os discípulos para a Verdade inteira (Jo 16,13). Por fim, como se lê nos Atos dos Apóstolos, o Espírito desce sobre os Doze reunidos em oração com Maria no dia de Pentecostes (At 2,1-4) e anima-os na missão de anunciar a Boa Nova a todos os povosBento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 12:AAS 99 (2007), 113-114.

Por conseguinte, a Palavra de Deus exprime-se em palavras humanas graças à obra do Espírito Santo. A missão do Filho e a do Espírito Santo são inseparáveis e constituem uma única economia da salvação. O mesmo Espírito, que atua na encarnação do Verbo no seio da Virgem Maria, guia Jesus ao longo de toda a sua missão e é prometido aos discípulos. O mesmo Espírito que falou por meio dos profetas, sustenta e inspira a Igreja no dever de anunciar a Palavra de Deus e na pregação dos Apóstolos; e, enfim, é este Espírito que inspira os autores das Sagradas Escrituras.

16. Conscientes deste horizonte pneumatológico, os Padres sinodais quiseram lembrar a importância da ação do Espírito Santo na vida da Igreja e no coração dos fiéis relativamente à Sagrada EscrituraPropositio 5.: sem a ação eficaz do "Espírito da Verdade" (Jo 14,16), não se podem compreender as palavras do Senhor. Como recorda ainda Santo Ireneu: "Aqueles que não participam do Espírito não recebem do peito da sua mãe [a Igreja] o alimento da vida; nada recebem da fonte mais pura que brota do corpo de Cristo"Adversus haereses III, 24, 1: PG 7, 966.. Tal como a Palavra de Deus vem até nós no corpo de Cristo, no corpo eucarístico e no corpo das Escrituras por meio do Espírito Santo, assim também só pode ser acolhida e compreendida verdadeiramente graças ao mesmo Espírito.

Os grandes escritores da tradição cristã são unânimes ao considerar o papel do Espírito Santo na relação que os fiéis devem ter com as Escrituras. São João Crisóstomo afirma que a Escritura "tem necessidade da revelação do Espírito, a fim de que, descobrindo o verdadeiro sentido das coisas que nela se encerram, disso mesmo tiremos abundante proveito"Homiliae in Genesim, XXII, 1: PG 53, 175.. Também São Jerônimo está firmemente convencido de que "não podemos chegar a compreender a Escritura sem a ajuda do Espírito Santo que a inspirou"Epistula 120, 10: CSEL 55, 500-506.. Depois, São Gregório Magno sublinha, de modo sugestivo, a obra do mesmo Espírito na formação e na interpretação da Bíblia: "Ele mesmo criou as palavras dos Testamentos Sagrados, Ele mesmo as desvendou"Homiliae in Ezechielem, I, VII, 17: CC 142, 94.. Ricardo de São Víctor recorda que são necessários "olhos de pomba", iluminados e instruídos pelo Espírito, para compreender o texto sagrado"Oculi ergo devotae animae sunt columbarum quia sensus eius per Spiritum sanctum sunt illuminati et edocti, spiritualia sapientes. (…) Nunc quidem aperitur animae talis sensus, ut intellegat Scripturas": Ricardo de São Víctor, Explicatio in Cantica canticorum, 15: PL 196, 450 B.D.

Desejaria ainda sublinhar como é significativo o testemunho a respeito da relação entre o Espírito Santo e a Escritura que encontramos nos textos litúrgicos, onde a Palavra de Deus é proclamada, escutada e explicada aos fiéis. É o caso de antigas orações que, em forma de epiclese, invocam o Espírito antes da proclamação das leituras: "Mandai o vosso Espírito Santo Paráclito às nossas almas e fazei-nos compreender as Escrituras por Ele inspiradas; e concedei-me interpretá-las de maneira digna, para que os fiéis aqui reunidos delas tirem proveito". De igual modo, encontramos orações que, no fim da homilia, novamente invocam de Deus o dom do Espírito sobre os fiéis: "Deus salvador (…), nós Vos pedimos por este povo: Mandai sobre ele o Espírito Santo; o Senhor Jesus venha visitá-lo, fale à mente de todos e abra os corações à fé e conduza para Vós as nossas almas, Deus das Misericórdias"Sacramentarium Serapionis II (XX): Didascalia et Constitutiones apostolorum, ed. F. X. Funk, II (Paderborn 1906), 161.. Por tudo isto bem podemos compreender que não é possível alcançar o sentido da Palavra, se não se acolhe a ação do Paráclito na Igreja e nos corações dos fiéis.

Tradição e Escritura[]

17. Reafirmando o vínculo profundo entre o Espírito Santo e a Palavra de Deus, lançamos também as bases para compreender o sentido e o valor decisivo da Tradição viva e das Sagradas Escrituras na Igreja. De fato, uma vez que Deus "amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único" (Jo 3,16), a Palavra divina, pronunciada no tempo, deu-Se e "entregou-Se" à Igreja definitivamente para que o anúncio da salvação possa ser eficazmente comunicado em todos os tempos e lugares. Como nos recorda a Constituição dogmática Dei Verbum, o próprio Jesus Cristo "mandou aos Apóstolos que pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, o Evangelho prometido antes pelos profetas e por Ele cumprido e promulgado pessoalmente, comunicando-lhes assim os dons divinos. Isto foi realizado com fidelidade tanto pelos Apóstolos que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo, como por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 7.

Além disso o Concílio Vaticano II recorda que esta Tradição de origem apostólica é realidade viva e dinâmica: ela "progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo"; não no sentido de mudar na sua verdade, que é perene, mas "progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas", com a contemplação e o estudo, com a inteligência dada por uma experiência espiritual mais profunda, e por meio da "pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade"Ibid., 8.

A Tradição viva é essencial para que a Igreja, no tempo, possa crescer na compreensão da verdade revelada nas Escrituras; de fato, "mediante a mesma Tradição, conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada Escritura entende-se nela mais profundamente e torna-se incessantemente operante"Ibid., 8.. Em última análise, é a Tradição viva da Igreja que nos faz compreender adequadamente a Sagrada Escritura como Palavra de Deus. Embora o Verbo de Deus preceda e exceda a Sagrada Escritura, todavia, enquanto inspirada por Deus, esta contém a Palavra divina (2Tm 3,16) "de modo totalmente singular"Propositio 3.

18. Disto conclui-se como é importante que o Povo de Deus seja educado e formado claramente para se abeirar das Sagradas Escrituras na sua relação com a Tradição viva da Igreja, reconhecendo nelas a própria Palavra de Deus. É muito importante, do ponto de vista da vida espiritual, fazer crescer esta atitude nos fiéis. A este respeito pode ajudar a recordação de uma analogia desenvolvida pelos Padres da Igreja entre o Verbo de Deus que Se faz "carne" e a Palavra que se faz "livro"Mensagem final, II, 5.. A Constituição dogmática Dei Verbum, ao recolher esta tradição antiga segundo a qual "o corpo do Filho é a Escritura que nos foi transmitida" – como afirma Santo AmbrósioExpositio Evangelii secundum Lucam 6, 33: PL 15, 1677. –,  declara: "As palavras de Deus, com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai Se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 13.. Vista assim, a Sagrada Escritura, apesar da multiplicidade das suas formas e conteúdos, aparece-nos como uma realidade unitária. De fato, "através de todas as palavras da Sagrada Escritura, Deus não diz mais que uma só palavra, o seu Verbo único, em quem totalmente Se diz (Hb 1,1-3)"Catecismo da Igreja Católica, 102. Cf. também Ruperto de Deutz, De operibus Spiritus Sancti, I, 6: SC 131, 72-74., como claramente afirmava já Santo Agostinho: "Lembrai-vos de que o discurso de Deus que se desenvolve em todas as Escrituras é um só, e um só é o Verbo que Se faz ouvir na boca de todos os escritores sagrados"Enarrationes in Psalmos, 103, IV, 1: PL 37, 1378. Análogas afirmações em Orígenes, In Iohannem V, 5-6: SC 120, pp. 380-384.

Em última análise, através da obra do Espírito Santo e sob a guia do Magistério, a Igreja transmite a todas as gerações aquilo que foi revelado em Cristo. A Igreja vive na certeza de que o seu Senhor, tendo falado outrora, não cessa de comunicar hoje a sua Palavra na Tradição viva da Igreja e na Sagrada Escritura. De fato, a Palavra de Deus dá-se a nós na Sagrada Escritura, enquanto testemunho inspirado da revelação, que, juntamente com a Tradição viva da Igreja, constitui a regra suprema da féConc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 21.

Sagrada Escritura, inspiração e verdade[]

19. Um conceito-chave para receber o texto sagrado como Palavra de Deus em palavras humanas é, sem dúvida, o de inspiração. Também aqui se pode sugerir uma analogia: assim como o Verbo de Deus Se fez carne por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, assim também a Sagrada Escritura nasce do seio da Igreja por obra do mesmo Espírito. A Sagrada Escritura é "Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito de Deus"Ibid., 9.. Deste modo se reconhece toda a importância do autor humano que escreveu os textos inspirados e, ao mesmo tempo, do próprio Deus como verdadeiro autor.

Daqui se vê com toda a clareza – lembraram os Padres sinodais – como o tema da inspiração é decisivo para uma adequada abordagem das Escrituras e para a sua correcta hermenêuticaPropositiones 5 e 12., que deve, por sua vez, ser feita no mesmo Espírito em que foi escritaConc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 12.. Quando esmorece em nós a consciência da inspiração, corre-se o risco de ler a Escritura como objecto de curiosidade histórica e não como obra do Espírito Santo, na qual podemos ouvir a própria voz do Senhor e conhecer a sua presença na história.

Além disso, os Padres sinodais puseram em evidência como ligado com o tema da inspiração esteja também o tema da verdade das EscriturasPropositio 12.. Por isso, um aprofundamento da dinâmica da inspiração levará, sem dúvida, também a uma maior compreensão da verdade contida nos livros sagrados. Como indica a doutrina conciliar sobre o tema, os livros inspirados ensinam a verdade: "E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras. Por isso, “toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as boas obras (2Tm 3,16-17 gr.)”"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 11.

Não há dúvida que a reflexão teológica sempre considerou inspiração e verdade como dois conceitos-chave para uma hermenêutica eclesial das Sagradas Escrituras. No entanto, deve-se reconhecer a necessidade atual de um condigno aprofundamento destas realidades, para se responder melhor às exigências relativas à interpretação dos textos sagrados segundo a sua natureza. Nesta perspectiva, desejo vivamente que a investigação possa avançar neste campo e dê fruto para a ciência bíblica e para a vida espiritual dos fiéis.

Deus Pai, fonte e origem da Palavra[]

20. A economia da revelação tem o seu início e a sua origem em Deus Pai. Pela sua palavra "foram feitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os seus exércitos" (Sl 33,6). É Ele que faz resplandecer "o conhecimento da glória de Deus, que se reflete na face de Cristo" (2Cor 4,6; Mt 16,17; Lc 9,29).

No Filho, "Logos feito carne" (Jo 1,14), que veio para cumprir a vontade d’Aquele que O enviou (Jo 4,34), Deus, fonte da revelação, manifesta-Se como Pai e leva à perfeição a educação divina do homem, já anteriormente animada pela palavra dos profetas e pelas maravilhas realizadas na criação e na história do seu povo e de todos os homens. O apogeu da revelação de Deus Pai é oferecido pelo Filho com o dom do Paráclito (Jo 14,16), Espírito do Pai e do Filho, que nos "guiará para a verdade total" (Jo 16,13). Deste modo, todas as promessas de Deus se tornam "sim" em Jesus Cristo (2Cor 1,20). Abre-se assim, para o homem, a possibilidade de percorrer o caminho que o conduz ao Pai (Jo 14,6), para que no fim "Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28).

21. Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Onipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra encarnada. Suspenso no madeiro da cruz, o sofrimento que Lhe causou tal silêncio fê-Lo lamentar: "Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?" (Mc 15,34; Mt 27,46). Avançando na obediência até ao último respiro, na obscuridade da morte, Jesus invocou o Pai. A Ele Se entregou no momento da passagem, através da morte, para a vida eterna: "Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito" (Lc 23,46).

Esta experiência de Jesus é sintomática da situação do homem que, depois de ter escutado e reconhecido a Palavra de Deus, deve confrontar-se também com o seu silêncio. É uma experiência vivida por muitos Santos e místicos, e que ainda hoje faz parte do caminho de muitos fiéis. O silêncio de Deus prolonga as suas palavras anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio. Portanto, na dinâmica da revelação cristã, o silêncio aparece como uma expressão importante da Palavra de Deus.

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