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Exortação Apostólica Verbum Domini (30/09/2010)
Introdução * 1-5
Verbum Dei

O Deus que fala * 6-21
A resposta do homem a Deus que fala * 22-28
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja * 29-49

Verbum in Ecclesia

A palavra de Deus e a Igreja * 50-51
Liturgia, lugar privilegiado da palavra de Deus * 52-71
A palavra de Deus na vida eclesial * 72-89

Verbum mundo

A missão da Igreja:
anunciar a palavra de Deus ao mundo
* 90-98
Palavra de Deus e compromisso no mundo * 99-108
Palavra de Deus e culturas * 109-116
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso * 117-120

Conclusão * 121-124
Fonte: Vaticano

A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja[]

A Igreja, lugar originário da hermenêutica da Bíblia[]

29. Outro grande tema surgido durante o Sínodo, sobre o qual quero debruçar-me agora, é a interpretação da Sagrada Escritura na Igreja. E precisamente a ligação intrínseca entre Palavra e fé põe em evidência que a autêntica hermenêutica da Bíblia só pode ser feita na fé eclesial, que tem o seu paradigma no sim de Maria. A este respeito, São Boaventura afirma que, sem a fé, não há chave de acesso ao texto sagrado: "Esta é o conhecimento de Jesus Cristo, do qual têm origem, como de uma fonte, a segurança e a inteligência de toda a Sagrada Escritura. Por isso é impossível que alguém possa entrar para a conhecer, se antes não tiver a fé infusa de Cristo que é lanterna, porta e também fundamento de toda a Escritura"Breviloquium, Prol.: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), p. 201-202.. E São Tomás de Aquino, mencionando Santo Agostinho, insiste vigorosamente: "A letra do Evangelho também mata, se faltar a graça interior da fé que cura"Summa theologiae, Ia-IIae, q. 106, art. 2.

Isto permite-nos assinalar um critério fundamental da hermenêutica bíblica: o lugar originário da interpretação da Escritura é a vida da Igreja. Esta afirmação não indica a referência eclesial como um critério extrínseco ao qual se devem submeter os exegetas, mas é uma exigência da própria realidade das Escrituras e do modo como se formaram ao longo do tempo. De fato, "as tradições de fé formavam o ambiente vital onde se inseriu a atividade literária dos autores da Sagrada Escritura. Esta inserção englobava também a participação na vida litúrgica e na atividade externa das comunidades, no seu mundo espiritual, na sua cultura e nas vicissitudes do seu destino histórico. Por isso, de modo semelhante, a interpretação da Sagrada Escritura exige a participação dos exegetas em toda a vida e em toda a fé da comunidade crente do seu tempo"Pont. Comissão Bíblica,  A interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), III, A, 3: Ench. Vat. 13, n. 3035.. Por conseguinte, "devendo a Sagrada Escritura ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 12., é preciso que os exegetas, os teólogos e todo o Povo de Deus se abeirem dela por aquilo que realmente é: como Palavra de Deus que Se nos comunica através de palavras humanas (1Ts 2,13). Trata-se de um dado constante e implícito na própria Bíblia: "Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular, porque jamais uma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo é que os homens santos falaram em nome de Deus" (2Pd 1,20-21). Aliás, é precisamente a fé da Igreja que reconhece na Bíblia a Palavra de Deus; como admiravelmente diz Santo Agostinho, "não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica"Contra epistolam Manichaei quam vocant fundamenti, V, 6: PL 42, 176.. O Espírito Santo, que anima a vida da Igreja, é que torna capaz de interpretar autenticamente as Escrituras. A Bíblia é o livro da Igreja e, a partir da imanência dela na vida eclesial, brota também a sua verdadeira hermenêutica.

30. São Jerônimo recorda que, sozinhos, nunca poderemos ler a Escritura. Encontramos demasiadas portas fechadas e caímos facilmente em erro. A Bíblia foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Somente com o "nós", isto é, nesta comunhão com o Povo de Deus, podemos realmente entrar no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer dizerCf. Bento XVI, Audiência Geral (14 de Novembro de 2007): Insegnamenti III/2 (2007), 586-591.. Aquele grande estudioso, para quem "a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo"Commentariorum in Isaiam libri, Prol.: PL 24, 17., afirma que o carácter eclesial da interpretação bíblica não é uma exigência imposta do exterior; o Livro é precisamente a voz do Povo de Deus peregrino, e só na fé deste Povo é que estamos, por assim dizer, na tonalidade justa para compreender a Sagrada Escritura. Uma autêntica interpretação da Bíblia deve estar sempre em harmônica concordância com a fé da Igreja Católica. Jerônimo escrevia assim a um sacerdote: "Permanece firmemente apegado à doutrina tradicional que te foi ensinada, para que possas exortar segundo a sã doutrina e rebater aqueles que a contradizem"Epistula 52, 7: CSEL 54, 426.

Abordagens do texto sagrado que prescindam da fé podem sugerir elementos interessantes ao deterem-se sobre a estrutura do texto e as suas formas; inevitavelmente, porém, tal tentativa seria apenas preliminar e estruturalmente incompleta. De fato, como foi afirmado pela Pontifícia Comissão Bíblica, repercutindo um princípio compartilhado na hermenêutica moderna, "o justo conhecimento do texto bíblico só é acessível a quem tem uma afinidade vital com aquilo de que fala o texto"Pont. Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), II, A, 2:Ench. Vat. 13, n. 2988.. Tudo isto põe em relevo a relação entre a vida espiritual e a hermenêutica da Escritura. De fato, "com o crescimento da vida no Espírito, cresce também no leitor a compreensão das realidades de que fala o texto bíblico"Ibid., II, A, 2: o.c., n. 2991.. Uma intensa e verdadeira experiência eclesial não pode deixar de incrementar a inteligência da fé autêntica a respeito da Palavra de Deus; e, vice-versa, a leitura na fé das Escrituras faz crescer a própria vida eclesial. Daqui podemos compreender de um modo novo a conhecida afirmação de São Gregório Magno: "As palavras divinas crescem juntamente com quem as lê"Homiliae in Ezechielem I, VII, 8: PL 76, 843 D.. Assim, a escuta da Palavra de Deus introduz e incrementa a comunhão eclesial com todos os que caminham na fé.

A alma da sagrada teologia[]

31. "O estudo destes sagrados livros deve ser como que a alma da sagrada teologia"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 24; cf. Leão XIII, Carta enc. Providentissimus Deus (18 de Novembro de 1893), Pars II, sub fine: ASS 26 (1893-94), 269-292; Bento XV, Carta enc. Spiritus Paraclitus (15 de Setembro de 1920), Pars III: AAS12 (1920), 385-422.: esta afirmação da Constituição dogmática Dei Verbum foi-se-nos tornando ao longo destes anos cada vez mais familiar. Podemos dizer que o período sucessivo ao Concílio Vaticano II, no que se refere aos estudos teológicos e exegéticos, citou frequentemente esta frase como símbolo do renovado interesse pela Sagrada Escritura. Também a XII Assembleia do Sínodo dos Bispos se referiu várias vezes a esta conhecida afirmação, para indicar a relação entre investigação histórica e hermenêutica da fé aplicadas ao texto sagrado. Nesta perspectiva, os Padres reconheceram, com alegria, o crescimento do estudo da Palavra de Deus na Igreja ao longo dos últimos decênios e exprimiram um vivo agradecimento aos numerosos exegetas e teólogos que, com a sua dedicação, empenho e competência, deram e ainda dão uma contribuição essencial para o aprofundamento do sentido das Escrituras, enfrentando os problemas complexos que o nosso tempo coloca à investigação bíblicaCf. Propositio 26.. Expressaram sentimentos de sincera gratidão também aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica que se sucederam nestes últimos anos e que, em estreita relação com a Congregação para a Doutrina da Fé, continuam a dar o seu qualificado contributo para enfrentar questões peculiares inerentes ao estudo da Sagrada Escritura. Além disso, o Sínodo sentiu a necessidade de se interrogar sobre o estado dos estudos bíblicos atuais e sobre a sua relevância no âmbito teológico. De fato, da relação fecunda entre exegese e teologia depende, em grande parte, a eficácia pastoral da ação da Igreja e da vida espiritual dos fiéis. Por isso, considero importante retomar algumas reflexões surgidas no debate havido sobre este tema nos trabalhos do Sínodo.

Desenvolvimento da investigação bíblica e Magistério eclesial[]

32. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer os benefícios que a exegese histórico-crítica e os outros métodos de análise do texto, desenvolvidos em tempos mais recentes, trouxeram para a vida da IgrejaCf. Pont. Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), A-B:Ench. Vat. 13, n. 2846-3150.. Segundo a visão católica da Sagrada Escritura, a atenção a estes métodos é imprescindível e está ligada ao realismo da encarnação: "Esta necessidade é a consequência do princípio cristão formulado no Evangelho de João 1, 14: Verbum caro factum est. O fato histórico é uma dimensão constitutiva da fé cristã. A história da salvação não é uma mitologia, mas uma verdadeira história e, por isso, deve-se estudar com os métodos de uma investigação histórica séria"Bento XVI, Intervenção na XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008):Insegnamenti IV/2 (2008), 492; cf. Propositio 25.. Por isso, o estudo da Bíblia exige o conhecimento e o uso apropriado destes métodos de pesquisa. Se é verdade que esta sensibilidade no âmbito dos estudos se desenvolveu mais intensamente na época moderna, embora não de igual modo por toda a parte, todavia na sã tradição eclesial sempre houve amor pelo estudo da "letra". Basta recordar aqui a cultura monástica, à qual em última análise devemos o fundamento da cultura europeia: na sua raiz, está o interesse pela palavra. O desejo de Deus inclui o amor pela palavra em todas as suas dimensões: "Visto que, na Palavra bíblica, Deus caminha para nós e nós para Ele, é preciso aprender a penetrar no segredo da língua, compreendê--la na sua estrutura e no seu modo de se exprimir. Assim, devido precisamente à procura de Deus, tornam-se importantes as ciências profanas que nos indicam as vias rumo à língua"Bento XVI, Discurso aos homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 722-723.

33. O Magistério vivo da Igreja, ao qual compete "o encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou contida na Tradição"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 10., interveio com sapiente equilíbrio relativamente à justa posição a tomar face à introdução dos novos métodos de análise histórica. Refiro-me, de modo particular, às encíclicas Providentissimus Deus do Papa Leão XIII e Divino afflante Spiritu do Papa Pio XII. O meu venerável predecessor João Paulo II recordou a importância destes documentos para a exegese e a teologia, por ocasião da celebração do centenário e cinquentenário respectivamente da sua publicaçãoCf. João Paulo II, Discurso por ocasião do centenário da Providentissimus Deus e do cinquentenário da Divino afflante Spiritu (23 de Abril de 1993): AAS 86 (1994), 232-243.. A intervenção do Papa Leão XIII teve o mérito de proteger a interpretação católica da Bíblia dos ataques do racionalismo, sem contudo se refugiar num sentido espiritual separado da história. Não desprezava a crítica científica; desconfiava-se somente "das opiniões preconcebidas que pretendem fundar-se sobre a ciência mas, na realidade, fazem astuciosamente sair a ciência do seu campo"Ibid., 4: o.c., 235.. Por sua vez, o Papa Pio XII encontrava-se perante os ataques dos adeptos duma exegese chamada mística, que recusava qualquer abordagem científica. Com grande sensibilidade, a Encíclica Divino afflante Spiritu evitou que se desenvolvesse a ideia de uma dicotomia entre a "exegese científica" para o uso apologético e a "interpretação espiritual reservada ao uso interno", afirmando, pelo contrário, quer o "alcance teológico do sentido literal metodicamente definido", quer a pertença da "determinação do sentido espiritual (…) ao campo da ciência exegética"Ibid., 5: o.c., 235.. De tal modo ambos os documentos recusam "a ruptura entre o humano e o divino, entre a pesquisa científica e a visão da fé, entre o sentido literal e o sentido espiritual"Ibid., 5: o.c., 236.. Este equilíbrio foi, sucessivamente, expresso no documento de 1993 da Pontifícia Comissão Bíblica: "No seu trabalho de interpretação, os exegetas católicos jamais devem esquecer que interpretam a Palavra de Deus. A sua tarefa não termina depois que distinguiram as fontes, definiram as formas ou explicaram os processos literários. O objectivo do seu trabalho só está alcançado quando tiverem esclarecido o significado do texto bíblico como Palavra atual de Deus"Pont. Comissão Bíblica,  A interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), III, C, 1: Ench. Vat. 13, n. 3065.

A hermenêutica bíblica conciliar: uma indicação a acolher[]

34. A partir deste horizonte, podem-se apreciar melhor os grandes princípios da interpretação próprios da exegese católica expressos pelo Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição dogmática Dei Verbum: "Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras"N. 12.. O Concílio, por um lado, sublinha, como elementos fundamentais para identificar o significado pretendido pelo hagiógrafo, o estudo dos gêneros literários e a contextualização; por outro, devendo a Escritura ser interpretada no mesmo Espírito em que foi escrita, a Constituição dogmática indica três critérios de base para se respeitar a dimensão divina da Bíblia: 1) interpretar o texto tendo presente a unidade de toda a Escritura; isto hoje chama-se exegese canônica; 2) ter presente a Tradição viva de toda a Igreja; 3) observar a analogia da fé. "Somente quando se observam os dois níveis metodológicos, histórico-crítico e teológico, é que se pode falar de uma exegese teológica, de uma exegese adequada a este Livro"Bento XVI, Intervenção na XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008):Insegnamenti IV/2 (2008), 493; cf. Propositio 25.

Os Padres sinodais afirmaram, justamente, que o fruto positivo produzido pelo uso da investigação histórico-crítica moderna é inegável. Mas, enquanto a exegese acadêmica atual, mesmo católica, trabalha a alto nível no que se refere à metodologia histórico-crítica, incluindo as suas mais recentes integrações, é forçoso exigir um estudo análogo da dimensão teológica dos textos bíblicos, para que progrida o aprofundamento segundo os três elementos indicados pela Constituição dogmática Dei VerbumCf. Propositio 26.

O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada[]

35. A este propósito, é preciso sublinhar hoje o grave risco de um dualismo que se gera ao abordar as Sagradas Escrituras. De fato, distinguindo os dois níveis da abordagem bíblica, não se pretende de modo algum separá-los, contrapô-los, ou simplesmente justapô-los. Só funcionam em reciprocidade. Infelizmente, não raro uma infrutífera separação dos mesmos leva a exegese e a teologia a comportarem-se como estranhas; e isto "acontece mesmo aos níveis acadêmicos mais altos"Propositio 27.. Desejo aqui lembrar as consequências mais preocupantes que se devem evitar.

  1. Antes de mais nada, se a atividade exegética se reduz só ao primeiro nível, consequentemente a própria Escritura torna-se um texto só do passado: "Daí podem-se tirar consequências morais, pode-se aprender a história, mas o Livro como tal fala só do passado e a exegese já não é realmente teológica, mas torna-se pura historiografia, história da literatura"Bento XVI, Intervenção na XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008):Insegnamenti IV/2 (2008), 493; cf. Propositio 26.. É claro que, numa tal redução, não é possível de modo algum compreender o acontecimento da revelação de Deus através da sua Palavra que nos é transmitida na Tradição viva e na Escritura.
  2. A falta de uma hermenêutica da fé na abordagem da Escritura não se apresenta apenas em termos de uma ausência; o seu lugar acaba inevitavelmente ocupado por outra hermenêutica, uma hermenêutica secularizada, positivista, cuja chave fundamental é a convicção de que o Divino não aparece na história humana. Segundo esta hermenêutica, quando parecer que há um elemento divino, isso deve-se explicar de outro modo, reduzindo tudo ao elemento humano. Consequentemente propõem-se interpretações que negam a historicidade dos elementos divinosCf. ibid.: o.c. 493; propositio 26..
  3. Uma tal posição não pode deixar de danificar a vida da Igreja, fazendo surgir dúvidas sobre mistérios fundamentais do cristianismo e sobre o seu valor histórico, como, por exemplo, a instituição da Eucaristia e a ressurreição de Cristo. De fato, assim impõe-se uma hermenêutica filosófica, que nega a possibilidade de ingresso e presença do Divino na história. A assunção de tal hermenêutica no âmbito dos estudos teológicos introduz, inevitavelmente, um gravoso dualismo entre a exegese, que se situa unicamente no primeiro nível, e a teologia que leva a uma espiritualização do sentido das Escrituras não respeitadora do carácter histórico da revelação. 

Tudo isto não pode deixar de resultar negativo também para a vida espiritual e a atividade pastoral; "a consequência da ausência do segundo nível metodológico é que se criou um fosso profundo entre exegese científica e lectio divina. E precisamente daqui nasce às vezes uma forma de perplexidade na própria preparação das homilias"Ibid.: o.c. 493; cf. Propositio 26.. Além disso, há que assinalar que tal dualismo produz às vezes incerteza e pouca solidez no caminho de formação intelectual mesmo de alguns candidatos aos ministérios eclesiaisCf. Propositio 27.. Enfim, "onde a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, onde a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta teologia já não tem fundamento"Bento XVI, Intervenção na XIV Congregação Geral do Sínodo (14 de Outubro de 2008):Insegnamenti IV/2 (2008), 493-494.. Portanto, é necessário voltar decididamente a considerar com mais atenção as indicações dadas pela Constituição dogmática Dei Verbum a este propósito.

Fé e razão na abordagem da Escritura[]

36. Creio que pode contribuir para uma compreensão mais completa da exegese e, consequentemente, da sua relação com a teologia inteira aquilo que escreveu o João Paulo II na Encíclica Fides et ratio a este respeito. Afirmava ele que não se deve subestimar "o perigo que existe quando se quer individuar a verdade da Sagrada Escritura com a aplicação de uma única metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese mais ampla que permita o acesso, em união com toda a Igreja, ao sentido pleno dos textos. Os que se dedicam ao estudo da Sagrada Escritura nunca devem esquecer que as diversas metodologias hermenêuticas têm também na sua base uma concepção filosófica: é preciso  examiná-las com grande discernimento, antes de as aplicar aos textos sagrados"João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 55: AAS 91 (1999), 49-50.

Esta clarividente reflexão permite-nos ver como, na abordagem hermenêutica da Sagrada Escritura, está em jogo inevitavelmente a relação correta entre fé e razão. De fato, a hermenêutica secularizada da Sagrada Escritura é atuada por uma razão que quer estruturalmente fechar-se à possibilidade de Deus entrar na vida dos homens e falar aos homens com palavras humanas. Por isso é necessário, também neste caso, convidar a alargar os espaços da própria racionalidadeCf. Bento XVI, Discurso no IV Congresso Nacional da Igreja em Itália (19 de Outubro de 2006): AAS 98 (2006), 804-815.. Na utilização dos métodos de análise histórica, dever-se-á evitar de assumir, sempre que aparecem, critérios que preconceituosamente se fechem à revelação de Deus na vida dos homens. A unidade dos dois níveis do trabalho interpretativo da Sagrada Escritura pressupõe, em última análise, uma harmonia entre a fé e a razão. Por um lado, é necessária uma fé que, mantendo uma adequada relação com a recta razão, nunca degenere em fideísmo, que se tornaria, a respeito da Escritura, fautor de leituras fundamentalistas. Por outro, é necessária uma razão que, investigando os elementos históricos presentes na Bíblia, se mostre aberta e não recuse aprioristicamente tudo o que excede a própria medida. Aliás, a religião do Logos encarnado não poderá deixar de apresentar-se profundamente razoável ao homem que sinceramente procura a verdade e o sentido último da própria vida e da história.

Sentido literal e sentido espiritual[]

37. Como foi afirmado na assembleia sinodal, um significativo contributo para a recuperação de uma adequada hermenêutica da Escritura provém de uma renovada escuta dos Padres da Igreja e da sua abordagem exegéticaCf. Propositio 6.. Com efeito, os Padres da Igreja oferecem-nos, ainda hoje, uma teologia de grande valor, porque no centro está o estudo da Sagrada Escritura na sua integridade. De fato, os Padres são primária e essencialmente "comentadores da Sagrada Escritura"Cf. Santo Agostinho, De libero arbitrio, III, XXI, 59: PL 32, 1300; De Trinitate, II, I, 2:PL 42, 845.. O seu exemplo pode "ensinar aos exegetas modernos uma abordagem verdadeiramente religiosa da Sagrada Escritura, e também uma interpretação que se atém constantemente ao critério de comunhão com a experiência da Igreja, que caminha através da história sob a guia do Espírito Santo"Congr. para a Educação Católica, Instr. Inspectis dierum (10 de Novembro de 1989), 26:AAS 82 (1990), 618.

Apesar de não conhecer, obviamente, os recursos de ordem filológica e histórica à disposição da exegese moderna, a tradição patrística e medieval sabia reconhecer os vários sentidos da Escritura, a começar pelo literal, isto é, "o expresso pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese segundo as regras da recta interpretação"Catecismo da Igreja Católica, 116.. Por exemplo, São Tomás de Aquino afirma: "Todos os sentidos da Sagrada Escritura se fundamentam no literal"Summa theologiae, I, q.1, art.10, ad 1.. É preciso, porém, recordar-se de que, no período patrístico e medieval, toda a forma de exegese, incluindo a literal, era feita com base na fé, não havendo necessariamente distinção entre sentido literal e sentido espiritual. A propósito, recorde-se o dístico clássico que traduz a relação entre os diversos sentidos da Escritura:

Littera gesta docet, quid credas allegoria,
Moralis quid agas, quo tendas anagogia.
A letra ensina-te os fatos [passados], a alegoria o que deves crer,
A moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tenderCatecismo da Igreja Católica, 118.

Sobressai aqui a unidade e a articulação entre sentido literal e sentido espiritual, o qual, por sua vez, se subdivide em três sentidos que descrevem os conteúdos da fé, da moral e da tensão escatológica.

Em suma, reconhecendo o valor e a necessidade – apesar dos seus limites – do método histórico-crítico, pela exegese patrística, aprendemos que "só se é fiel à intencionalidade dos textos bíblicos na medida em que se procura encontrar, no coração da sua formulação, a realidade de fé que os mesmos exprimem e em que se liga esta realidade com a experiência crente do nosso mundo"Pont. Comissão Bíblica,  A interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), II, A, 2: Ench. Vat. 13, n. 2987.. Somente nesta perspectiva se pode reconhecer que a Palavra de Deus é viva e se dirige a cada um de nós no momento presente da nossa vida. Continua assim plenamente válida a afirmação da Pontifícia Comissão Bíblica que define o sentido espiritual, segundo a fé cristã, como "o sentido expresso pelos textos bíblicos quando são lidos sob o influxo do Espírito Santo no contexto do mistério pascal de Cristo e da vida nova que dele resulta. Este contexto existe efetivamente. O Novo Testamento reconhece nele o cumprimento das Escrituras. Por isso, é normal reler as Escrituras à luz deste novo contexto, o da vida no Espírito"Ibid., II, B, 2: o.c., n. 3003.

A necessária superação da "letra"[]

38. Para se recuperar a articulação entre os diversos sentidos da Escritura, torna-se então decisivo identificar a passagem entre letra e espírito. Não se trata de uma passagem automática e espontânea; antes, é preciso transcender a letra: "de fato, a Palavra do próprio Deus nunca se apresenta na simples literalidade do texto. Para alcançá-la, é preciso transcender a literalidade num processo de compreensão, que se deixa guiar pelo movimento interior do conjunto e, portanto, deve tornar-se também um processo de vida"Bento XVI, Discurso aos homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris (12 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 726.. Descobrimos assim o motivo por que um autêntico processo interpretativo nunca é apenas intelectual, mas também vital, que requer o pleno envolvimento na vida eclesial enquanto vida "segundo o Espírito" (Gl 5,16). Deste modo tornam-se mais claros os critérios evidenciados pelo número 12 da Constituição dogmática Dei Verbum: a referida superação não pode verificar-se no fragmento literário individual mas em relação com a totalidade da Escritura. De fato, é uma única Palavra aquela para a qual somos chamados a transcender. Este processo possui uma íntima dramaticidade, porque, no processo de superação, a passagem que acontece em virtude do Espírito tem inevitavelmente a ver também com a liberdade de cada um. São Paulo viveu plenamente na sua própria vida esta passagem. O que significa transcender a letra e a sua compreensão unicamente a partir do conjunto, expressou-o ele de modo radical nesta frase: "A letra mata, mas o Espírito vivifica" (2 Cor 3, 6). São Paulo descobre que "o Espírito libertador tem um nome e que a liberdade tem, consequentemente, uma medida interior: “O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade” (2Cor 3,17). O Espírito libertador não é simplesmente a própria ideia, a visão pessoal de quem interpreta. O Espírito é Cristo, e Cristo é o Senhor que nos indica a estrada"Ibid.: o.c., 726.. Sabemos como esta passagem foi dramática e simultaneamente libertadora em Santo Agostinho; ele acreditou nas Escrituras, que antes se lhe apresentavam muito diversificadas em si mesmas e às vezes indelicadas, precisamente por esta superação que aprendeu de Santo Ambrósio mediante a interpretação tipológica, segundo a qual todo o Antigo Testamento é um caminho para Jesus Cristo. Para Santo Agostinho, transcender a letra tornou credível a própria letra e permitiu-lhe encontrar finalmente a resposta às profundas inquietações do seu espírito, sedento da verdadeCf. Bento XVI, Audiência Geral (9 de Janeiro de 2008): Insegnamenti IV/1 (2008), 41-45.

A unidade intrínseca da Bíblia[]

39. Na escola da grande tradição da Igreja, aprendemos na passagem da letra ao espírito a identificar também a unidade de toda a Escritura, pois única é a Palavra de Deus que interpela a nossa vida, chamando-a constantemente à conversãoCf. Propositio 29.. Continuam a ser para nós uma guia segura as expressões de Hugo de São Víctor: "Toda a Escritura divina constitui um único livro e este único livro é Cristo, fala de Cristo e encontra em Cristo a sua realização"De arca Noe, 2, 8: PL 176, 642 C-D.. É certo que a Bíblia, vista sob o aspecto puramente histórico ou literário, não é simplesmente um livro, mas uma colectânea de textos literários, cuja redação se estende por mais de um milênio e cujos diversos livros não são facilmente reconhecíveis como partes duma unidade interior; antes, há tensões palpáveis entre eles. Se isto já se verifica no interior da Bíblia de Israel, que nós, cristãos, chamamos Antigo Testamento, muito mais quando nós, como cristãos, ligamos o Novo Testamento e os seus escritos – como se fosse a chave hermenêutica – com a Bíblia de Israel interpretando-a como caminho para Cristo. No Novo Testamento, aparece menos a expressão "a Escritura" (cf. Rm 4,3; 1Pd 1,6), do que "as Escrituras" (cf. Mt 21,43; Jo 5,39; Rm 1,2; 2Pd 3,16), que porém, no seu conjunto, são depois consideradas como a única Palavra de Deus dirigida a nósCf. Bento XVI, Discurso aos homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris(12 de Setembro de 2008: AAS 100 (2008), 725.. Por isso se vê claramente como é a pessoa de Cristo que dá unidade a todas as "Escrituras" postas em relação com a única "Palavra". Compreende-se assim a afirmação do número 12 da Constituição dogmática Dei Verbum, quando indica a unidade interna de toda a Bíblia como critério decisivo para uma correta hermenêutica da fé.

A relação entre Antigo e Novo Testamento[]

40. Na perspectiva da unidade das Escrituras em Cristo, tanto os teólogos como os pastores necessitam de estar conscientes das relações entre o Antigo e o Novo Testamento. Em primeiro lugar, é evidente que o próprio Novo Testamento reconhece o Antigo Testamento como Palavra de Deus e, por conseguinte, admite a autoridade das Sagradas Escrituras do povo judeuCf. Propositio 10; Pont. Comissão Bíblica, O povo judeu e as suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã (24 de Maio de 2001), 3-5: Ench. Vat. 20, n. 748-755.. Reconhece-as implicitamente, quando usa a mesma linguagem e frequentemente alude a trechos destas Escrituras; reconhece-as explicitamente, porque cita muitas partes servindo-se delas para argumentar. Uma argumentação baseada nos textos do Antigo Testamento reveste-se assim, no Novo Testamento, de um valor decisivo, superior ao de raciocínios simplesmente humanos. No quarto Evangelho, a este propósito Jesus declara que "a Escritura não pode ser anulada" (Jo 10,35) e São Paulo especifica de modo particular que a revelação do Antigo Testamento continua a valer para nós, cristãos (Rm 15,4; 1Cor 10,11)Cf. Catecismo da Igreja Católica, 121-122.. Além disso, afirmamos que "Jesus de Nazaré foi um judeu e a Terra Santa é terra-mãe da Igreja"Propositio 52.; a raiz do cristianismo encontra-se no Antigo Testamento e sempre se nutre desta raiz. Por isso a sã doutrina cristã sempre recusou qualquer forma emergente de marcionismo, que tende de diversos modos a contrapor entre si o Antigo e o Novo TestamentoCf. Pont. Comissão Bíblica, O povo judeu e as suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã(24 de Maio de 2001), 19: Ench. Vat. 20, n. 799-801; Orígenes, Homilia sobre Números 9, 4: SC415, 238-242. 

Além disso, o próprio Novo Testamento se diz em conformidade com o Antigo e proclama que, no mistério da vida, morte e ressurreição de Cristo, encontraram o seu perfeito cumprimento as Escrituras Sagradas do povo judeu. Mas é preciso notar que o conceito de cumprimento das Escrituras é complexo, porque comporta uma tríplice dimensão: um aspecto fundamental de continuidade com a revelação do Antigo Testamento, um aspecto de ruptura e um aspecto de cumprimento e superação. O mistério de Cristo está em continuidade de intenção com o culto sacrificial do Antigo Testamento; mas realizou-se de um modo muito diferente, que corresponde a muitos oráculos dos profetas, e alcançou assim uma perfeição nunca antes obtida. De fato, o Antigo Testamento está cheio de tensões entre os seus aspectos institucionais e os seus aspectos proféticos. O mistério pascal de Cristo está plenamente de acordo – embora de uma forma que era imprevisível – com as profecias e o aspecto prefigurativo das Escrituras; mas apresenta evidentes aspectos de descontinuidade relativamente às instituições do Antigo Testamento.

41. Estas considerações mostram assim a importância insubstituível do Antigo Testamento para os cristãos, mas ao mesmo tempo evidenciam a originalidade da leitura cristológica. Desde os tempos apostólicos e depois na Tradição viva, a Igreja deixou clara a unidade do plano divino nos dois Testamentos graças à tipologia, que não tem carácter arbitrário mas é intrínseca aos acontecimentos narrados pelo texto sagrado e, por conseguinte, diz respeito a toda a Escritura. A tipologia "descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou, na plenitude dos tempos, na pessoa do seu Filho encarnado"Catecismo da Igreja Católica, 128.. Por isso os cristãos leem o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Se a leitura tipológica revela o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento relativamente ao Novo, não deve todavia fazer-nos esquecer que aquele mantém o seu próprio valor de Revelação que Nosso Senhor veio reafirmar (Mc 12,29-31). Por isso "também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorreu constantemente a este método (1Cor 5,6-8; 10,1-11)"Ibid., 129.. Por este motivo, os Padres sinodais afirmaram que "a compreensão judaica da Bíblia pode ajudar a inteligência e o estudo das Escrituras por parte dos cristãos"Propositio 52.

Assim se exprimia, com aguda sabedoria, Santo Agostinho sobre este tema: "O Novo Testamento está oculto no Antigo e o Antigo está patente no Novo"Quaestiones in Heptateuchum, 2, 73: PL 34, 623.. Deste modo, tanto em âmbito pastoral como em âmbito acadêmico, importa que seja colocada bem em evidência a relação íntima entre os dois Testamentos, recordando com São Gregório Magno que aquilo que "o Antigo Testamento prometeu, o Novo Testamento fê-lo ver; o que aquele anuncia de maneira oculta, este proclama abertamente como presente. Por isso, o Antigo Testamento é profecia do Novo Testamento; e o melhor comentário do Antigo Testamento é o Novo Testamento"Homiliae in Ezechielem, I, VI, 15: PL 76, 836 B.

As páginas obscuras da Bíblia[]

42. No contexto da relação entre Antigo e Novo Testamento, o Sínodo enfrentou também o caso de páginas da Bíblia que às vezes se apresentam obscuras e difíceis por causa da violência e imoralidade nelas referidas. Em relação a isto, deve-se ter presente antes de mais nada que a revelação bíblica está profundamente radicada na história. Nela se vai progressivamente manifestando o desígnio de Deus, atuando-se lentamente ao longo de etapas sucessivas, não obstante a resistência dos homens. Deus escolhe um povo e, pacientemente, realiza a sua educação. A revelação adapta-se ao nível cultural e moral de épocas antigas, referindo consequentemente fatos e usos como, por exemplo, manobras fraudulentas, intervenções violentas, extermínio de populações, sem denunciar explicitamente a sua imoralidade. Isto explica-se a partir do contexto histórico, mas pode surpreender o leitor moderno, sobretudo quando se esquecem tantos comportamentos "obscuros" que os homens sempre tiveram ao longo dos séculos, inclusive nos nossos dias. No Antigo Testamento, a pregação dos profetas ergue-se vigorosamente contra todo o tipo de injustiça e de violência, colectiva ou individual, tornando-se assim o instrumento da educação dada por Deus ao seu povo como preparação para o Evangelho. Seria, pois, errado não considerar aqueles passos da Escritura que nos aparecem problemáticos. Entretanto deve-se ter consciência de que a leitura destas páginas requer a aquisição de uma adequada competência, através duma formação que leia os textos no seu contexto histórico-literário e na perspectiva cristã, que tem como chave hermenêutica última "o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo realizado no mistério pascal"Propositio 29.. Por isso exorto os estudiosos e os pastores a ajudarem todos os fiéis a abeirar-se também destas páginas por meio de uma leitura que leve a descobrir o seu significado à luz do mistério de Cristo.

Cristãos e judeus, relativamente às Sagradas Escrituras[]

43. Depois de considerar a íntima relação que une o Novo Testamento ao Antigo, é espontâneo fixar a atenção no vínculo peculiar que isso cria entre cristãos e judeus, um vínculo que não deveria jamais ser esquecido. Aos judeus, o Papa João Paulo II declarou: sois "os nossos “irmãos prediletos” na fé de Abraão, nosso patriarca"João Paulo II, Mensagem ao Rabino-Chefe de Roma (22 de Maio de 2004): Insegnamenti 27/1 (2004), 655.. Por certo, estas afirmações não significam ignorar as rupturas atestadas no Novo Testamento relativamente às instituições do Antigo Testamento e menos ainda o cumprimento das Escrituras no mistério de Jesus Cristo, reconhecido Messias e Filho de Deus. Mas esta diferença profunda e radical não implica de modo algum hostilidade recíproca. Pelo contrário, o exemplo de São Paulo (cf. Rm 9–11) demonstra que "uma atitude de respeito, estima e amor pelo povo judeu é a única atitude verdadeiramente cristã nesta situação que, misteriosamente, faz parte do desígnio totalmente positivo de Deus"Pont. Comissão Bíblica, O povo judeu e as suas sagradas Escrituras na Bíblia cristã (24 de Maio de 2001), 87: Ench. Vat. 20, n. 1150.. De fato, o Apóstolo afirma que os judeus, "quanto à escolha divina, são amados por causa dos Patriarcas, pois os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis" (Rm 11, 28-29). Além disso, usa a bela imagem da oliveira para descrever as relações muito estreitas entre cristãos e judeus: a Igreja dos gentios é como um rebento de oliveira brava enxertado na oliveira boa que é o povo da Aliança (Rm 11,17-24). Alimentamo-nos, pois, das mesmas raízes espirituais. Encontramo-nos como irmãos; irmãos que em certos momentos da sua história tiveram um relacionamento tenso, mas agora estão firmemente comprometidos na construção de pontes de amizade duradouraCf. Bento XVI, Discurso de despedida no Aeroporto Ben Gurion de Telavive (15 de Maio de 2009): Insegnamenti V/1 (2009), 847-849.. Como disse o Papa João Paulo II noutra ocasião: "Temos muito em comum. Juntos podemos fazer muito pela paz, pela justiça e por um mundo mais fraterno e mais humano"João Paulo II, Discurso aos Rabinos-Chefes de Israel (23 de Março de 2000):Insegnamenti 23/1 (2000), 434.

Desejo afirmar uma vez mais quão precioso é para a Igreja o diálogo com os judeus. É bom que, onde isto se apresentar como oportuno, se criem possibilidades mesmo públicas de encontro e diálogo, que favoreçam o crescimento do conhecimento mútuo, da estima recíproca e da colaboração inclusive no próprio estudo das Sagradas Escrituras.

A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura[]

44. A atenção que quisemos dar até agora ao tema da hermenêutica bíblica, nos seus diversos aspectos, permite-nos abordar o tema – muitas vezes aflorado no debate sinodal – da interpretação fundamentalista da Sagrada EscrituraCf. Propositiones 46 e 47.. Sobre este tema, a Pontifícia Comissão Bíblica, no documento A interpretação da Bíblia na Igreja, formulou indicações importantes. Neste contexto, desejo chamar a atenção sobretudo para aquelas leituras que não respeitam o texto sagrado na sua natureza autêntica, promovendo interpretações subjetivistas e arbitrárias. Na realidade, o "literalismo" propugnado pela leitura fundamentalista constitui uma traição tanto do sentido literal como do espiritual, abrindo caminho a instrumentalizações de variada natureza, difundindo por exemplo interpretações anti-eclesiais das próprias Escrituras. O aspecto problemático da "leitura fundamentalista é que, recusando ter em conta o carácter histórico da revelação bíblica, torna-se incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O fundamentalismo evita a íntima ligação do divino e do humano nas relações com Deus. (…) Por este motivo, tende a tratar o texto bíblico como se fosse ditado palavra por palavra pelo Espírito e não chega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada numa linguagem e numa fraseologia condicionadas por uma dada época"Pont. Comissão Bíblica,  A interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), I, F:Ench. Vat. 13, n. 2974.. Ao contrário, o cristianismo divisa nas palavras a Palavra, o próprio Logos, que estende o seu mistério através de tal multiplicidade e da realidade de uma história humanaCf. Bento XVI, Discurso aos homens de cultura no «Collège des Bernardins» de Paris(12 de Setembro de 2008: AAS 100 (2008), 726.. A verdadeira resposta a uma leitura fundamentalista é "a leitura crente da Sagrada Escritura, praticada desde a antiguidade na Tradição da Igreja. [Tal leitura] procura a verdade salvífica para a vida do indivíduo fiel e para a Igreja. Esta leitura reconhece o valor histórico da tradição bíblica. Precisamente por este valor de testemunho histórico é que ela quer descobrir o significado vivo das Sagradas Escrituras destinadas também à vida do fiel de hoje"Propositio 46., sem ignorar, portanto, a mediação humana do texto inspirado e os seus géneros literários.

Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas[]

45. A autêntica hermenêutica da fé acarreta algumas consequências importantes no âmbito da atividade pastoral da Igreja. Precisamente a este respeito, os Padres sinodais recomendaram, por exemplo, um relacionamento mais assíduo entre Pastores, exegetas e teólogos. É bom que as Conferências Episcopais favoreçam estes encontros com o "fim de promover uma maior comunhão no serviço da Palavra de Deus"Propositio 28.. Tal cooperação ajudará a todos a realizarem melhor o próprio trabalho em benefício da Igreja inteira. De fato, situar-se no horizonte do trabalho pastoral quer dizer, mesmo para os estudiosos, olhar o texto sagrado na sua natureza de comunicação que o Senhor faz aos homens para a salvação. Portanto, como afirmou a Constituição dogmática Dei Verbum, "é preciso que os exegetas católicos e demais estudiosos da sagrada teologia trabalhem em íntima colaboração de esforços, para que, sob a vigilância do sagrado magistério, lançando mão de meios aptos, estudem e expliquem as divinas Letras, de modo que o maior número possível de ministros da Palavra de Deus possa oferecer com fruto ao Povo de Deus o alimento das Escrituras, que ilumine o espírito, robusteça as vontades e inflame os corações dos homens no amor de Deus"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 23.

Bíblia e ecumenismo[]

46. Na certeza de que a Igreja tem o seu fundamento em Cristo, Verbo de Deus feito carne, o Sínodo quis sublinhar a centralidade dos estudos bíblicos no diálogo ecumênico, que visa a plena expressão da unidade de todos os crentes em CristoEm todo o caso não se esqueça que, relativamente aos chamados Livros Deuterocanônicos do Antigo Testamento e à sua inspiração, os católicos e os ortodoxos não possuem exatamente o mesmo cânon bíblico que os anglicanos e os protestantes.. De fato, na própria Escritura, encontramos a comovente súplica de Jesus ao Pai pelos seus discípulos para que sejam um só a fim de que o mundo creia (cf. Jo 17, 21). Tudo isto nos fortalece na convicção de que escutar e meditar juntos as Escrituras nos faz viver uma comunhão real, embora ainda não plenaCf. Relatio post disceptationem, 36.; pois "a escuta comum das Escrituras impele ao diálogo da caridade e faz crescer o da verdade"Propositio 36.. De fato, ouvir juntos a Palavra de Deus, praticar a lectio divina da Bíblia, deixar-se surpreender pela novidade que nunca envelhece e jamais se esgota da Palavra de Deus, superar a nossa surdez àquelas palavras que não estão de acordo com as nossas opiniões ou preconceitos, escutar e estudar na comunhão dos fiéis de todos os tempos: tudo isto constitui um caminho a percorrer para alcançar a unidade da fé, como resposta à escuta da PalavraCf. Bento XVI, Discurso no XI Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos (25 de Janeiro de 2007): AAS 99 (2007), 85-86.. Verdadeiramente esclarecedoras eram estas palavras do Concílio Vaticano II: "No próprio diálogo [ecumênico], a Sagrada Escritura é um exímio instrumento da poderosa mão de Deus para a consecução daquela unidade que o Salvador oferece a todos os homens"Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio, 21.. Por isso, é bom incrementar o estudo, o diálogo e as celebrações ecumênicas da Palavra de Deus, no respeito das regras vigentes e das diversas tradiçõesCf. Propositio 36.. Estas celebrações são úteis à causa ecumênica e, se vividas no seu verdadeiro significado, constituem momentos intensos de autêntica oração nos quais se pede a Deus para apressar o suspirado dia em que será possível abeirar-nos todos da mesma mesa e beber do único cálice. Entretanto, na justa e louvável promoção destes momentos, faça-se de modo que os mesmos não sejam propostos aos fiéis em substituição da participação na Santa Missa nos dias de preceito.

Neste trabalho de estudo e de oração, reconhecemos com serenidade também os aspectos que requerem ser aprofundados e que nos mantêm ainda distantes, como, por exemplo, a compreensão do sujeito da interpretação com autoridade na Igreja e o papel decisivo do MagistérioCf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 10.. Além disso queria sublinhar o que os Padres sinodais disseram da importância que têm, neste trabalho ecumênico, as traduções da Bíblia nas diversas línguas. De fato, sabemos que traduzir um texto não é trabalho meramente mecânico, mas faz parte em certo sentido do trabalho interpretativo. A este respeito, o Venerável João Paulo II afirmou: "Quem recorda como influíram nas divisões, especialmente no Ocidente, os debates em torno da Escritura, pode compreender quanto seja notável o passo em frente representado por tais traduções comuns"Carta enc. Ut unum sint (25 de Maio de 1995), 44: AAS 87 (1995), 947.. Por isso, a promoção das traduções comuns da Bíblia faz parte do trabalho ecumênico. Desejo aqui agradecer a todos os que estão comprometidos nesta importante tarefa e encorajá-los a continuarem na sua obra.

Consequências sobre a organização dos estudos teológicos[]

47. Outra consequência que deriva de uma adequada hermenêutica da fé diz respeito à necessidade de mostrar as suas implicações na formação exegética e teológica, particularmente dos candidatos ao sacerdócio. Faça-se com que o estudo da Sagrada Escritura seja verdadeiramente a alma da teologia, enquanto se reconhece nela a Palavra que Deus hoje dirige ao mundo, à Igreja e a cada um pessoalmente. É importante que os critérios indicados pelo número 12 da Constituição dogmática Dei Verbum sejam efetivamente tomados em consideração e se tornem objecto de aprofundamento. Evite-se cultivar uma noção de pesquisa científica, que se considera neutral face à Escritura. Por isso, juntamente com o estudo das línguas próprias em que foi escrita a Bíblia e dos métodos interpretativos adequados, é necessário que os estudantes tenham uma profunda vida espiritual, para se aperceberem de que só é possível compreender a Escritura se a viverem. Nesta perspectiva, recomendo que o estudo da Palavra de Deus, transmitida e escrita, se verifique sempre em profundo espírito eclesial, tendo em devida conta, na formação acadêmica, as intervenções sobre estas temáticas feitas pelo Magistério, o qual "não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 10. Portanto tenha-se o cuidado de que os estudos se realizem reconhecendo que "a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e associam que um sem os outros não se mantém"Ibid., 10.. Desejo pois que, segundo a doutrina do Concílio Vaticano II, o estudo da Sagrada Escritura, lida na comunhão da Igreja universal, seja realmente como que a alma do estudo teológicoCf. ibid., 24.

Os Santos e a interpretação da Escritura[]

48. A interpretação da Sagrada Escritura ficaria incompleta se não se ouvisse também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus, ou seja, os SantosCf. Propositio 22.. De fato, "viva lectio est vita bonorum"São Gregório Magno, Moralia in Job 24, 8, 16: PL 76, 295.. Realmente a interpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua.

Certamente não é por acaso que as grandes espiritualidades, que marcaram a história da Igreja, nasceram de uma explícita referência à Escritura. Penso, por exemplo, em Santo Antão Abade, que se decide ao ouvir esta palavra de Cristo: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céus; depois, vem e segue-Me" (Mt 19,21)Cf. Santo Atanásio, Vita Antonii, II: PL 73, 127.. Igualmente sugestivo é São Basílio Magno, quando, na sua obra Moralia, se interroga: "O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio do fiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for"Moralia, Regula 80, 22: PG 31, 867.. São Bento, na sua Regra, remete para a Escritura como "norma retíssima para a vida do homem"Regra 73, 3: SC 182, 672.. São Francisco de Assis – escreve Tomás de Celano – "ao ouvir que os discípulos de Cristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazer alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares de calçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo: Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!"Tomás de Celano, Vita prima Sancti Francisci, IX, 22: Fontes franciscani, 356.. E Santa Clara de Assis reproduz plenamente a experiência de São Francisco: "A forma de vida da Ordem das Irmãs pobres (…) é esta: observar o santo Evangelho do Senhor nosso Jesus Cristo"Regra I, 1-2: Fontes franciscani, 2750.. Por sua vez, São Domingos de Gusmão "em toda a parte se manifestava como um homem evangélico, tanto nas palavras como nas obras"Beato Jordão da Saxónia, Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum, 104: Monumenta Fratrum Praedicatorum Historica, 16 (Roma 1935), p. 75., e tais queria que fossem também os seus padres pregadores: "homens evangélicos"Ordem dos Padres Pregadores, Primeiras Constituições ou Costumes, II, 31.. Santa Teresa de Ávila, nos seus escritos, recorre continuamente a imagens bíblicas para explicar a sua experiência mística, e lembra que o próprio Jesus lhe manifesta que "todo o mal do mundo deriva de não se conhecer claramente a verdade da Sagrada Escritura"Vida 40, 1.. Santa Teresa do Menino Jesus encontra o Amor como sua vocação pessoal, quando perscruta as Escrituras, em particular os capítulos 12 e 13 da Primeira Carta aos CoríntiosCf. História de uma alma, Manuscrito B, 3vº.; e a mesma Santa assim nos descreve o fascínio das Escrituras: "Apenas lanço o olhar sobre o Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr"Ibid., Manuscrito C, 35vº.. Cada Santo constitui uma espécie de raio de luz que brota da Palavra de Deus: assim o vemos também em Santo Inácio de Loyola na sua busca da verdade e no discernimento espiritual, em São João Bosco na sua paixão pela educação dos jovens, em São João Maria Vianney na sua consciência da grandeza do sacerdócio como dom e dever; em São Pio de Pietrelcina no seu ser instrumento da misericórdia divina; em São Josemaria Escrivá na sua pregação sobre a vocação universal à santidade; na Beata Teresa de Calcutá missionária da caridade de Deus pelos últimos; e nos mártires do nazismo e do comunismo representados, os primeiros, por Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), monja carmelita, e os segundos pelo Beato Aloísio Stepinac, Cardeal Arcebispo de Zagrábia.

49. Assim a santidade relacionada com a Palavra de Deus inscreve-se de certo modo na tradição profética, na qual a Palavra de Deus se serve da própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus.

Tivemos um testemunho direto desta ligação entre Palavra de Deus e santidade durante a XII Assembleia do Sínodo quando, a 12 de Outubro na Praça de São Pedro, se realizou a canonização de quatro novos Santos: o sacerdote Caetano Errico, fundador da Congregação dos Missionários dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria; a Irmã Maria Bernarda Bütler, nascida na Suíça e missionária no Equador e na Colômbia; a Irmã Afonsa da Imaculada Conceição, primeira santa canonizada nascida na Índia; a jovem leiga equatoriana Narcisa de Jesus Martillo Morán. Com a sua vida, deram testemunho ao mundo e à Igreja da perene fecundidade do Evangelho de Cristo. Pedimos ao Senhor que, por intercessão destes Santos canonizados precisamente nos dias da assembleia sinodal sobre a Palavra de Deus, a nossa vida seja aquele "terreno bom" onde o Semeador divino possa semear a Palavra para que produza em nós frutos de santidade, a "trinta, sessenta, e cem por um" (Mc 4,20).

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