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Exortação Apostólica Verbum Domini (30/09/2010)
Introdução * 1-5
Verbum Dei

O Deus que fala * 6-21
A resposta do homem a Deus que fala * 22-28
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja * 29-49

Verbum in Ecclesia

A palavra de Deus e a Igreja * 50-51
Liturgia, lugar privilegiado da palavra de Deus * 52-71
A palavra de Deus na vida eclesial * 72-89

Verbum mundo

A missão da Igreja:
anunciar a palavra de Deus ao mundo
* 90-98
Palavra de Deus e compromisso no mundo * 99-108
Palavra de Deus e culturas * 109-116
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso * 117-120

Conclusão * 121-124
Fonte: Vaticano

A palavra de Deus e a Igreja[]

A Igreja acolhe a Palavra[]

50. O Senhor pronuncia a sua Palavra para que seja acolhida por aqueles que foram criados precisamente "por meio" do Verbo. "Veio ao que era Seu" (Jo 1,11): desde as origens, a Palavra tem a ver connosco e a criação foi desejada numa relação de familiaridade com a vida divina. O Prólogo do quarto Evangelho apresenta-nos também a rejeição da Palavra divina por parte dos "Seus" que "não O receberam" (Jo 1,11). Não recebê-Lo quer dizer não ouvir a sua voz, não se configurar ao Logos. Mas, quando o homem, apesar de frágil e pecador, se abre sinceramente ao encontro com Cristo, começa uma transformação radical: "A todos os que O receberam, (…) deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus" (Jo 1,12). Receber o Verbo significa deixar-se plasmar por Ele, para se tornar, pelo poder do Espírito Santo, conforme a Cristo, ao "Filho Único que vem do Pai" (Jo 1,14). É o início de uma nova criação: nasce a criatura nova, um povo novo. Aqueles que crêem, ou seja, aqueles que vivem a obediência da fé "nasceram de Deus" (Jo 1,13), são feitos participantes da vida divina: filhos no Filho (Gl 4,5-6; Rm 8,14-17). Santo Agostinho, comentando este trecho do Evangelho de João, afirma de modo sugestivo: "Por meio do Verbo foste feito, mas é necessário que por meio do Verbo sejas refeito"In Iohannis Evangelium Tractatus, I, 12: PL 35, 1385.. Vemos esboçar-se aqui o rosto da Igreja como realidade que se define pelo acolhimento do Verbo de Deus, que, encarnando, colocou a sua tenda entre nós (cf. Jo 1, 14). Esta morada de Deus entre os homens – a shekinah (cf. Ex 26,1) –, prefigurada no Antigo Testamento, realiza-se agora com a presença definitiva de Deus no meio dos homens em Cristo.

Contemporaneidade de Cristo na vida da Igreja[]

51. A relação entre Cristo, Palavra do Pai, e a Igreja não pode ser compreendida em termos de um acontecimento simplesmente passado, mas trata-se de uma relação vital na qual cada fiel, pessoalmente, é chamado a entrar. Realmente, falamos da Palavra de Deus que está hoje presente connosco: "Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt 28,20). Como afirmou o Papa João Paulo II, "a contemporaneidade de Cristo com o homem de cada época realiza-se no seu corpo, que é a Igreja. Por esta razão, o Senhor prometeu aos seus discípulos o Espírito Santo, que lhes haveria de “lembrar” e fazer compreender os seus mandamentos (cf. Jo 14,26) e seria o princípio fontal de uma nova vida no mundo (cf. Jo 3,5-8; Rm 8,1-13)"Carta enc. Veritatis splendor (6 de Agosto de 1993), 25: AAS 85 (1993), 1153.. A Constituição dogmática Dei Verbum expressa este mistério com os termos bíblicos de um diálogo nupcial: "Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito Santo – por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo – introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza (cf. Cl 3,16)"N. 8.

Mestra de escuta, a Esposa de Cristo repete, com fé, também hoje: "Falai, Senhor, que a vossa Igreja Vos escuta"Relatio post disceptationem, 11.. Por isso, a Constituição dogmática Dei Verbum começa com estes termos: "O sagrado Concílio, ouvindo religiosamente a Palavra de Deus e proclamando-a com confiança…"N. 1.. Com efeito, trata-se de uma definição dinâmica da vida da Igreja: "São palavras com as quais o Concílio indica um aspecto qualificante da Igreja: esta é uma comunidade que escuta e anuncia a Palavra de Deus. A Igreja não vive de si mesma, mas do Evangelho; e do Evangelho tira, sem cessar, orientação para o seu caminho. Temos aqui uma advertência que cada cristão deve acolher e aplicar a si mesmo: só quem se coloca primeiro à escuta da Palavra é que pode depois tornar-se seu anunciador"Bento XVI, Discurso no Congresso Internacional «A Sagrada Escritura na vida da Igreja» (16 de Setembro de 2005): AAS 97 (2005), 956.. Na Palavra de Deus proclamada e ouvida e nos Sacramentos, Jesus hoje, aqui e agora, diz a cada um: "Eu sou teu, dou-Me a ti", para que o homem O possa acolher e responder-Lhe dizendo por sua vez: "Eu sou teu"Cf. Relatio post disceptationem, 10.. Assim a Igreja apresenta-se como o âmbito onde podemos, por graça, experimentar o que diz o Prólogo de João: "A todos os que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus" (Jo 1,12).

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