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Exortação Apostólica Verbum Domini (30/09/2010)
Introdução * 1-5
Verbum Dei

O Deus que fala * 6-21
A resposta do homem a Deus que fala * 22-28
A hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja * 29-49

Verbum in Ecclesia

A palavra de Deus e a Igreja * 50-51
Liturgia, lugar privilegiado da palavra de Deus * 52-71
A palavra de Deus na vida eclesial * 72-89

Verbum mundo

A missão da Igreja:
anunciar a palavra de Deus ao mundo
* 90-98
Palavra de Deus e compromisso no mundo * 99-108
Palavra de Deus e culturas * 109-116
Palavra de Deus e diálogo inter-religioso * 117-120

Conclusão * 121-124
Fonte: Vaticano

Liturgia, lugar privilegiado da Palavra de Deus[]

A Palavra de Deus na sagrada Liturgia[]

52. Considerando a Igreja como "casa da Palavra"Mensagem final, III, 6., deve-se antes de tudo dar atenção à Liturgia sagrada. Esta constitui, efetivamente, o âmbito privilegiado onde Deus nos fala no momento presente da nossa vida: fala hoje ao seu povo, que escuta e responde. Cada ação litúrgica está, por sua natureza, impregnada da Sagrada Escritura. Como afirma a Constituição Sacrosanctum Concilium, "é enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua capacidade de significação as ações e os sinais"Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 24.. Mais ainda, deve-se afirmar que o próprio Cristo "está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura"Ibid., 7.. Com efeito, "a celebração litúrgica torna-se uma contínua, plena e eficaz proclamação da Palavra de Deus. Por isso, constantemente anunciada na liturgia, a Palavra de Deus permanece viva e eficaz pela força do Espírito Santo, e manifesta aquele amor operante do Pai que não cessa jamais de agir em favor de todos os homens"Ordenamento das Leituras da Missa, 4.. De fato, a Igreja sempre mostrou ter consciência de que, na ação litúrgica, a Palavra de Deus é acompanhada pela ação íntima do Espírito Santo que a torna operante no coração dos fiéis. Na realidade, graças ao Paráclito é que "a Palavra de Deus se torna fundamento da ação litúrgica, norma e sustentáculo da vida inteira. A ação do próprio Espírito Santo (…) sugere a cada um, no íntimo do coração, tudo aquilo que, na proclamação da Palavra de Deus, é dito para a assembleia inteira dos fiéis e, enquanto reforça a unidade de todos, favorece também a diversidade dos carismas e valoriza a ação multiforme"Ibid., 9.

Por isso, para a compreensão da Palavra de Deus, é necessário entender e viver o valor essencial da ação litúrgica. Em certo sentido, a hermenêutica da fé relativamente à Sagrada Escritura deve ter sempre como ponto de referência a liturgia, onde a Palavra de Deus é celebrada como palavra atual e viva: "A Igreja, na liturgia, segue fielmente o modo de ler e interpretar as Sagradas Escrituras seguido pelo próprio Cristo, quando, a partir do “hoje” do seu evento, exorta a perscrutar todas as Escrituras"Ibid., 3; cf. Lc 4,16-21; 24,25-35.44-49.

Aqui se vê também a sábia pedagogia da Igreja que proclama e escuta a Sagrada Escritura seguindo o ritmo do ano litúrgico. Vemos a Palavra de Deus distribuída ao longo do tempo, particularmente na celebração eucarística e na Liturgia das Horas. No centro de tudo, refulge o Mistério Pascal, ao qual se unem todos os mistérios de Cristo e da história da salvação atualizados sacramentalmente: "Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contato com eles, se encham de graça"Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 102.. Por isso exorto os Pastores da Igreja e os agentes pastorais a fazer com que todos os fiéis sejam educados para saborear o sentido profundo da Palavra de Deus que está distribuída ao longo do ano na liturgia, mostrando os mistérios fundamentais da nossa fé. Também disto depende a correta abordagem da Sagrada Escritura.

Sagrada Escritura e Sacramentos[]

53. Ocupando-se do tema do valor da liturgia para a compreensão da Palavra de Deus, o Sínodo dos Bispos quis sublinhar também a relação entre a Sagrada Escritura e a ação sacramental. É muito oportuno aprofundar o vínculo entre Palavra e Sacramento, tanto na ação pastoral da Igreja como na investigação teológicaCf. Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 44-45: AAS 99 (2007), 139-141.. Certamente, "a liturgia da Palavra é um elemento decisivo na celebração de cada um dos sacramentos da Igreja"Pont. Comissão Bíblica,  A interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), IV, C, 1: Ench. Vat. 13, n. 3123.; na prática pastoral, porém, nem sempre os fiéis estão conscientes deste vínculo, vendo a unidade entre o gesto e a palavra. É "dever dos sacerdotes e diáconos, sobretudo quando administram os sacramentos, evidenciar a unidade que formam Palavra e Sacramento no ministério da Igreja"Ibid., III, B, 3: o.c., n. 3056.. De fato, na relação entre Palavra e gesto sacramental, mostra-se de forma litúrgica o agir próprio de Deus na história, por meio do carácter performativo da Palavra. Com efeito, na história da salvação, não há separação entre o que Deus diz e faz; a sua própria Palavra apresenta-se como viva e eficaz (cf. Hb 4,12), como aliás indica o significado do termo hebraico dabar. Do mesmo modo, na ação litúrgica, vemo-nos colocados diante da sua Palavra que realiza aquilo que diz. Quando se educa o Povo de Deus para descobrir o carácter performativo da Palavra de Deus na liturgia, ajudamo-lo também a perceber o agir de Deus na história da salvação e na vida pessoal de cada um dos seus membros.

Palavra de Deus e Eucaristia[]

54. Quanto foi dito de modo geral a respeito da relação entre Palavra e Sacramentos, ganha maior profundidade aplicado à celebração eucarística. Aliás a unidade íntima entre Palavra e Eucaristia está radicada no testemunho da Escritura (cf. Jo 6Lc 24), é atestada pelos Padres da Igreja e reafirmada pelo Concílio Vaticano IICf. Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 48.51.56; Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 21.26; Decr. sobre a Atividade missionária da Igreja Ad gentes, 6.15; Decr. sobre o ministério e a vida dos presbíteros Presbyterorum ordinis, 18; Decr. sobre a renovação da vida religiosa Perfectae caritatis, 6. Na grande tradição da Igreja, aparecem expressões significativas como: "Corpus Christi intelligitur etiam (…) Scriptura Dei – a Escritura de Deus também se considera Corpo de Cris. A este propósito, pensemos no grande discurso de Jesus sobre o pão da vida na sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6,22-69), que tem como pano de fundo o confronto entre Moisés e Jesus, entre aquele que falou face a face com Deus (cf. Ex 33,11) e aquele que revelou Deus (cf. Jo 1,18). De fato, o discurso sobre o pão evoca o dom de Deus que Moisés obteve para o seu povo com o maná no deserto, que na realidade é a Torah, a Palavra de Deus que faz viver (cf. Sl 119Pr 9,5). Em Si mesmo, Jesus torna realidade esta figura antiga: "O pão de Deus é o que desce do Céu e dá a vida ao mundo. (...) Eu sou o pão da vida" (Jo 6, 33.35). Aqui, "a Lei tornou-se Pessoa. Encontrando Jesus, alimentamo-nos por assim dizer do próprio Deus vivo, comemos verdadeiramente o pão do céu"J. Ratzinger (Bento XVI), Jesus de Nazaré (Lisboa 2007), 336.. No discurso de Cafarnaum, aprofunda-se o Prólogo de João: se neste o Logos de Deus Se faz carne, naquele a carne faz-Se "pão" dado para a vida do mundo (cf. Jo 6,51), aludindo assim ao dom que Jesus fará de Si mesmo no mistério da cruz, confirmado pela afirmação acerca do seu sangue dado a "beber" (cf. Jo 6,53). Assim, no mistério da Eucaristia, mostra-se qual é o verdadeiro maná, o verdadeiro pão do céu: é o Logos de Deus que Se fez carne, que Se entregou a Si mesmo por nós no Mistério Pascal.

A narração de Lucas sobre os discípulos de Emaús permite-nos uma reflexão subsequente acerca do vínculo entre a escuta da Palavra e a fração do pão (cf. Lc 24,13-35). Jesus foi ter com eles no dia depois do sábado, escutou as expressões da sua esperança desiludida e, acompanhando-os ao longo do caminho, "explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito" (24,27). Juntamente com este viajante que inesperadamente se manifesta tão familiar às suas vidas, os dois discípulos começam a ver as Escrituras de um novo modo. O que acontecera naqueles dias já não aparece como um fracasso, mas cumprimento e novo início. Todavia, mesmo estas palavras não parecem ainda suficientes para os dois discípulos. O Evangelho de Lucas diz que "abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No" (24,31) somente quando Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lho deu; antes, "os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem" (24,16). A presença de Jesus, primeiro com as palavras e depois com o gesto de partir o pão, tornou possível aos discípulos reconhecê-Lo e apreciar de modo novo tudo o que tinham vivido anteriormente com Ele: "Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos explicava as Escrituras?" (24,32).

55. Vê-se a partir destas narrações como a própria Escritura leva a descobrir o seu nexo indissolúvel com a Eucaristia. "Por conseguinte, deve-se ter sempre presente que a Palavra de Deus, lida e proclamada na liturgia pela Igreja, conduz, como se de alguma forma se tratasse da sua própria finalidade, ao sacrifício da aliança e ao banquete da graça, ou seja, à Eucaristia"Ordenamento das Leituras da Missa, 10.. Palavra e Eucaristia correspondem-se tão intimamente que não podem ser compreendidas uma sem a outra: a Palavra de Deus faz-Se carne, sacramentalmente, no evento eucarístico. A Eucaristia abre-nos à inteligência da Sagrada Escritura, como esta, por sua vez, ilumina e explica o Mistério eucarístico. Com efeito, sem o reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia, permanece incompleta a compreensão da Escritura. Por isso, "à palavra de Deus e ao mistério eucarístico a Igreja tributou e quis e estabeleceu que, sempre e em todo o lugar, se tributasse a mesma veneração embora não o mesmo culto. Movida pelo exemplo do seu fundador, nunca cessou de celebrar o mistério pascal, reunindo-se num mesmo lugar para ler, “em todas as Escrituras, aquilo que Lhe dizia respeito” (Lc 24,27) e atualizar, com o memorial do Senhor e os sacramentos, a obra da salvação"Ibidem.

A sacramentalidade da Palavra[]

56. Com o apelo ao carácter performativo da Palavra de Deus na ação sacramental e o aprofundamento da relação entre Palavra e Eucaristia, somos introduzidos num tema significativo, referido durante a Assembleia do Sínodo: a sacramentalidade da PalavraCf. Propositio 7.. A este respeito é útil recordar que o Papa João Paulo II já aludira "ao horizonte sacramental da Revelação e, de forma particular, ao sinal eucarístico, onde a união indivisível entre a realidade e o respectivo significado permite identificar a profundidade do mistério"Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 13: AAS 91 (1999), 16.. Daqui se compreende que, na origem da sacramentalidade da Palavra de Deus, esteja precisamente o mistério da encarnação: "o Verbo fez-Se carne" (Jo 1, 14), a realidade do mistério revelado oferece-se a nós na "carne" do Filho. A Palavra de Deus torna-se perceptível à fé através do "sinal" de palavras e gestos humanos. A fé reconhece o Verbo de Deus, acolhendo os gestos e as palavras com que Ele mesmo se nos apresenta. Portanto, o horizonte sacramental da revelação indica a modalidade histórico-salvífica com que o Verbo de Deus entra no tempo e no espaço, tornando-Se interlocutor do homem, chamado a acolher na fé o seu dom.

Assim é possível compreender a sacramentalidade da Palavra através da analogia com a presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagradosCf. Catecismo da Igreja Católica, 1373-1374.. Aproximando-nos do altar e participando no banquete eucarístico, comungamos realmente o corpo e o sangue de Cristo. A proclamação da Palavra de Deus na celebração comporta reconhecer que é o próprio Cristo que Se faz presente e Se dirige a nósCf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 7. para ser acolhido. Referindo-se à atitude que se deve adotar tanto em relação à Eucaristia como à Palavra de Deus, São Jerônimo afirma: "Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a minha carne e beber o meu sangue” (Jo 6, 53), embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?"In Psalmum 147: CCL 78, 337-338.. Realmente presente nas espécies do pão e do vinho, Cristo está presente, de modo análogo, também na Palavra proclamada na liturgia. Por isso, aprofundar o sentido da sacramentalidade da Palavra de Deus pode favorecer uma maior compreensão unitária do mistério da revelação em "ações e palavras intimamente relacionadas"Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 2., sendo de proveito à vida espiritual dos fiéis e à ação pastoral da Igreja.

A Sagrada Escritura e o Leccionário[]

57. Ao acentuar o nexo entre Palavra e Eucaristia, o Sínodo quis justamente evocar também alguns aspectos da celebração inerentes ao serviço da Palavra. Quero mencionar, em primeiro lugar, a importância do Leccionário. A reforma desejada pelo Concílio Vaticano IICf. Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 107-108. mostrou os seus frutos, tornando mais rico o acesso à Sagrada Escritura que é oferecida abundantemente sobretudo nas liturgias do domingo. A estrutura atual, além de apresentar com frequência os textos mais importantes da Escritura, favorece a compreensão da unidade do plano divino, através da correlação entre as leituras do Antigo e do Novo Testamento, "centrada em Cristo e no seu mistério pascal"Ordenamento das Leituras da Missa, 66.. Certas dificuldades que se sentem ao querer identificar as relações entre as leituras dos dois Testamentos devem ser consideradas à luz da leitura canônica, ou seja, da unidade intrínseca da Bíblia inteira. Onde se sentir a necessidade, os organismos competentes podem prover à publicação de subsídios que tornem mais fácil compreender o nexo entre as leituras propostas pelo Leccionário, que devem ser todas proclamadas na assembleia litúrgica, como previsto pela liturgia do dia. Eventuais problemas e dificuldades sejam assinalados à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Além disso, não devemos esquecer que o Leccionário atual do rito latino tem também um significado ecumênico, visto que é utilizado e apreciado mesmo por confissões em comunhão ainda não plena com a Igreja Católica. De modo diverso se apresenta o problema do Leccionário nas liturgias das Igrejas Católicas Orientais, que o Sínodo pede para ser "examinado com autoridade"Propositio 16. segundo a tradição própria e as competências das Igrejas sui iuris e tendo em conta também o contexto ecumênico

Proclamação da Palavra e ministério do leitorado[]

58. Na assembleia sinodal sobre a Eucaristia, já se tinha pedido maior cuidado com a proclamação da Palavra de DeusCf. Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 45: AAS 99 (2007), 140-141.. Como é sabido, enquanto o Evangelho é proclamado pelo sacerdote ou pelo diácono, a primeira e a segunda leitura na tradição latina são proclamadas pelo leitor encarregado, homem ou mulher. Quero aqui fazer-me eco dos Padres sinodais que sublinharam, também naquela circunstância, a necessidade de cuidar, com uma adequada formaçãoCf. Propositio 14., o exercício da função de leitor na celebração litúrgicaCf. Código de Direito Canónico, cân. 230-§2; 204-§1. e de modo particular o ministério do leitorado que enquanto tal, no rito latino, é ministério laical. É necessário que os leitores encarregados de tal serviço, ainda que não tenham recebido a instituição no mesmo, sejam verdadeiramente idôneos e preparados com empenho. Tal preparação deve ser não apenas bíblica e litúrgica mas também técnica: "A formação bíblica deve levar os leitores a saberem enquadrar as leituras no seu contexto e a identificarem o centro do anúncio revelado à luz da fé. A formação litúrgica deve comunicar aos leitores uma certa facilidade em perceber o sentido e a estrutura da liturgia da Palavra e os motivos da relação entre a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística. A preparação técnica deve tornar os leitores cada vez mais idôneos na arte de lerem em público tanto com a simples voz natural, como com a ajuda dos instrumentos modernos de amplificação sonora"Ordenamento das Leituras da Missa, 55.

A importância da homilia[]

59. "As tarefas e funções que competem a cada um relativamente à Palavra de Deus são diversas: aos fiéis compete ouvi-la e meditá-la, enquanto a sua exposição cabe somente àqueles que, em virtude da Ordem sacra, receberam a tarefa do magistério, ou àqueles a quem é confiado o exercício deste ministério"Ibid., 8., ou seja, bispos, presbíteros e diáconos. Daqui se compreende a atenção particular que, no Sínodo, foi dispensada ao tema da homilia. Já na Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis, recordei como, "pensando na importância da palavra de Deus, surge a necessidade de melhorar a qualidade da homilia; de fato, “esta constitui parte integrante da ação litúrgica”, cuja função é favorecer uma compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fiéis"N. 46: AAS 99 (2007), 141.. A homilia constitui uma atualização da mensagem da Sagrada Escritura, de tal modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e a eficácia da Palavra de Deus no momento atual da sua vida. Aquela deve levar à compreensão do mistério que se celebra; convidar para a missão, preparando a assembleia para a profissão de fé, a oração universal e a liturgia eucarística. Consequentemente aqueles que, por ministério específico, estão incumbidos da pregação tenham verdadeiramente a peito esta tarefa. Devem-se evitar tanto homilias genéricas e abstratas que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus, como inúteis divagações que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que para o coração da mensagem evangélica. Deve resultar claramente aos fiéis que aquilo que o pregador tem a peito é mostrar Cristo, que deve estar no centro de cada homilia. Por isso, é preciso que os pregadores tenham familiaridade e contato assíduo com o texto sagradoCf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 25.; preparem-se para a homilia na meditação e na oração, a fim de pregarem com convicção e paixão. A assembleia sinodal exortou a ter presente as seguintes perguntas: "O que dizem as leituras proclamadas? O que dizem a mim pessoalmente? O que devo dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação concreta?"Propositio 15.. O pregador deve deixar-se "interpelar primeiro pela Palavra de Deus que anuncia"Ibidem., porque – como diz Santo Agostinho – "seguramente fica sem fruto aquele que prega exteriormente a Palavra de Deus sem a escutar no seu íntimo"Sermo 179, 1: PL 38, 966.. Cuide-se, com atenção particular, a homilia dos domingos e solenidades; e mesmo durante a semana nas Missas cum populo, quando possível, não se deixe de oferecer breves reflexões, apropriadas à situação, para ajudar os fiéis a acolherem e tornarem fecunda a Palavra escutada.

Conveniência de um Diretório homilético[]

60. Pregar de modo adequado referindo-se ao Leccionário é verdadeiramente uma arte que deve ser cultivada. Por isso, dando continuidade à solicitação feita no Sínodo anteriorCf. Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 93: AAS 99 (2007), 177., peço às autoridades competentes que, correlativamente ao Compêndio EucarísticoCongr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Compendium Eucharisticum (25 de Março de 2009), Cidade do Vaticano 2009., se pense também em instrumentos e subsídios adequados para ajudar os ministros a desempenhar da melhor forma possível a sua tarefa, como, por exemplo, um Diretório sobre a homilia, de modo que os pregadores possam encontrar nele uma ajuda útil a fim de se prepararem no exercício do ministério. E depois, como nos lembra São Jerônimo, a pregação deve ser acompanhada pelo testemunho da própria vida: "Que as tuas ações não desmintam as tuas palavras, para que não aconteça que, quando tu pregares na igreja, alguém comente no seu íntimo: “Então porque é que tu não ages assim?” (…) No sacerdote de Cristo, devem estar de acordo a mente e a palavra"Epistula 52, 7: CSEL 54, 426-427.

Palavra de Deus, Reconciliação e Unção dos Doentes[]

61. Embora no centro da relação entre Palavra de Deus e Sacramentos esteja indubitavelmente a Eucaristia, todavia é bom sublinhar a importância da Sagrada Escritura também nos outros Sacramentos, particularmente nos Sacramentos de cura: a Reconciliação ou Penitência e a Unção dos Doentes. Nestes Sacramentos, muitas vezes é negligenciada a referência à Sagrada Escritura, quando, ao contrário, é necessário dar-lhe o espaço que lhe compete. De fato, nunca se deve esquecer que "a Palavra de Deus é palavra de reconciliação, porque nela Deus reconcilia consigo todas as coisas (cf. 2Cor 5,18-20; Ef 1,10). O perdão misericordioso de Deus, encarnado em Jesus, reabilita o pecador"Propositio 8.. Pela Palavra de Deus, "o fiel é iluminado para poder conhecer os seus pecados e é chamado à conversão e à confiança na misericórdia de Deus"Ritual da Penitência. Preliminares, 17.. Para que se aprofunde a força reconciliadora da Palavra de Deus, recomenda-se que o indivíduo penitente se prepare para a confissão meditando um trecho apropriado da Sagrada Escritura e possa começar a confissão com a leitura ou a escuta de uma advertência bíblica, como aliás está previsto no próprio ritual. Depois, ao manifestar a sua contrição, é bom que o penitente utilize "uma oração composta de palavras da Sagrada Escritura"Ibid., 19., prevista pelo ritual. Sempre que possível, seria bom que, em momentos particulares do ano ou quando houver oportunidade, a confissão individual da multidão de penitentes tenha lugar no âmbito de celebrações penitenciais, como previsto pelo ritual, no respeito das várias tradições litúrgicas, para se poder dar amplo espaço à celebração da Palavra com o uso de leituras apropriadas.

Passando ao sacramento da Unção dos Doentes, não se esqueça que "a força salutar da Palavra de Deus é apelo vivo a uma conversão pessoal constante do próprio ouvinte"Propositio 8.. A Sagrada Escritura contém numerosas páginas de conforto, amparo e cura, que se devem à intervenção de Deus. Em particular, recorde-se a atenção dada por Jesus aos doentes e como Ele mesmo, Verbo de Deus encarnado, carregou as nossas dores e sofreu por amor do homem, dando assim sentido à doença e à morte. É bom que, nas paróquias e sobretudo nos hospitais, se celebre – desde que as circunstâncias o permitam – o Sacramento dos Doentes de forma comunitária. Em tais ocasiões, seja dado amplo espaço à celebração da Palavra e ajudem-se os fiéis doentes a viver com fé a própria condição de sofrimento, em união com o Sacrifício redentor de Cristo que nos liberta do mal.

Palavra de Deus e Liturgia das Horas[]

62. Entre as formas de oração que exaltam a Sagrada Escritura, conta-se, sem dúvida, a Liturgia das Horas. Os Padres sinodais afirmaram que esta constitui "uma forma privilegiada de escuta da Palavra de Deus, porque põe os fiéis em contato com a Sagrada Escritura e com a Tradição viva da Igreja"Propositio 19.. Antes de mais nada, há que lembrar a profunda dignidade teológica e eclesial desta oração. De fato, "na Liturgia das Horas, a Igreja exerce a função sacerdotal da sua Cabeça, “oferecendo ininterruptamente (1Ts 5,17) a Deus o sacrifício de louvor, ou seja, o fruto dos lábios que glorificam o seu nome (cf. Hb 13,15)”. Esta oração é a “voz da Esposa a falar ao Esposo e também a oração que o próprio Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai”"Princípios e normas para a Liturgia das Horas, III, 15.. A este propósito, o Concílio Vaticano II afirmara: "Todos os que rezam assim, cumprem, por um lado, a obrigação própria da Igreja, e, por outro, participam na imensa honra da Esposa de Cristo, porque estão em nome da Igreja, diante do trono de Deus, a louvar o Senhor"Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 85.. Na Liturgia das Horas, enquanto oração pública da Igreja, manifesta-se o ideal cristão de santificação do dia inteiro, ritmado pela escuta da Palavra de Deus e pela oração dos Salmos, de modo que toda a atividade encontre o seu ponto de referência no louvor prestado a Deus.

Aqueles que, em virtude do próprio estado de vida, são obrigados a rezar a Liturgia das Horas, vivam fielmente tal compromisso em benefício de toda a Igreja. Os bispos, os sacerdotes e os diáconos aspirantes ao sacerdócio, que receberam da Igreja o mandato de a celebrar, têm a obrigação de rezar diariamente todas as HorasCf. Código de Direito Canônico, cânones 276-§ 3; 1174-§ 1.. Relativamente à obrigatoriedade desta liturgia nas Igrejas Orientais Católicas sui iuris, siga-se o que está indicado no direito próprioCf. Código dos Cânones das Igrejas Orientais, cânones 377; 473-§§ 1 e 2/1º; 538-§ 1; 881-§ 1.. Além disso, encorajo as comunidades de vida consagrada a serem exemplares na celebração da Liturgia das Horas, a fim de poderem constituir um ponto de referência e inspiração para a vida espiritual e pastoral de toda a Igreja.

O Sínodo exprimiu o desejo de uma maior difusão no Povo de Deus desta forma de oração, especialmente a recitação de Laudes e Vésperas. Este incremento não deixará de fazer crescer nos fiéis a familiaridade com a Palavra de Deus. Saliente-se também o valor da Liturgia das Horas prevista para as Primeiras Vésperas do domingo e das solenidades, particularmente nas Igrejas Orientais Católicas. Com tal finalidade, recomendo que, onde for possível, as paróquias e as comunidades de vida religiosa favoreçam esta oração com a participação dos fiéis.

Palavra de Deus e Cerimonial das Bênçãos[]

63. No uso do Cerimonial das Bênçãos, preste-se atenção também ao espaço previsto para a proclamação, a escuta e a explicação da Palavra de Deus, através de breves advertências. Com efeito, o gesto da bênção, nos casos previstos pela Igreja e quando pedido pelos fiéis, não deve aparecer isolado em si mesmo, mas relacionado, no grau que lhe é próprio, com a vida litúrgica do Povo de Deus. Neste sentido, a bênção, como verdadeiro sinal sagrado, "adquire sentido e eficácia da proclamação da Palavra de Deus"Ritual Romano, Cerimonial das Bênçãos. Preliminares gerais, 21.. Por isso, é importante aproveitar também estas circunstâncias para suscitar nos fiéis fome e sede de toda a palavra que sai da boca de Deus (cf. Mt 4,4).

Sugestões e propostas concretas para a animação litúrgica[]

64. Depois de ter lembrado alguns elementos fundamentais da relação entre Liturgia e Palavra de Deus, quero agora assumir e valorizar algumas propostas e sugestões que os Padres sinodais recomendaram para favorecer, no Povo de Deus, uma crescente familiaridade com a Palavra de Deus no âmbito das ações litúrgicas ou de algum modo relacionadas com elas.

Celebrações da Palavra de Deus[]

65. Os Padres sinodais exortaram todos os Pastores a difundir, nas comunidades a eles confiadas, os momentos de celebração da PalavraCf. Propositio 18; Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 35.: são ocasiões privilegiadas de encontro com o Senhor. Por isso, tal prática não pode deixar de trazer grande proveito aos fiéis, e deve considerar-se um elemento importante da pastoral litúrgica. Estas celebrações assumem particular relevância como preparação para a Eucaristia dominical, de modo que os fiéis tenham possibilidade de penetrar melhor na riqueza do Leccionário para meditar e rezar a Sagrada Escritura, sobretudo nos tempos litúrgicos fortes do Advento e Natal, da Quaresma e Páscoa. Entretanto a celebração da Palavra de Deus é vivamente recomendada nas comunidades onde não é possível, por causa da escassez de sacerdotes, celebrar o Sacrifício Eucarístico nos dias festivos de preceito. Tendo em conta as indicações já expressas na Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis sobre as assembleias dominicais à espera de sacerdoteCf. Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 75: AAS 99 (2007), 162-163., recomendo que sejam redigidos pelas competentes autoridades diretórios rituais, valorizando a experiência das Igrejas Particulares. Assim, em tais situações, hão-de favorecer-se celebrações da Palavra que alimentem a fé dos fiéis, mas evitando que as mesmas sejam confundidas com celebrações eucarísticas; "devem antes tornar-se ocasiões privilegiadas de oração a Deus para que mande sacerdotes santos segundo o seu Coração"Ibid., 75: o.c., 163.

Além disso, os Padres sinodais convidaram a celebrar a Palavra de Deus também por ocasião de peregrinações, festas particulares, missões populares, retiros espirituais e dias especiais de penitência, reparação e perdão. No que se refere às diversas formas de piedade popular, embora não sejam atos litúrgicos nem se devam confundir com as celebrações litúrgicas, todavia é bom que se inspirem nelas e sobretudo que deem espaço adequado à proclamação e escuta da Palavra de Deus; de fato, "a piedade popular encontrará nas palavras da Bíblia uma fonte inesgotável de inspiração, modelos insuperáveis de oração e fecundas propostas de diversos temas"Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia. Princípios e Orientações (17 de Dezembro de 2001), 87: Ench. Vat. 20, n. 2461.

A Palavra e o silêncio[]

66. Várias intervenções dos Padres sinodais insistiram sobre o valor do silêncio para a recepção da Palavra de Deus na vida dos fiéisCf. Propositio 14.. De fato, a palavra pode ser pronunciada e ouvida apenas no silêncio, exterior e interior. O nosso tempo não favorece o recolhimento e, às vezes, fica-se com a impressão de ter medo de se separar, por um só momento, dos instrumentos de comunicação de massa. Por isso, hoje é necessário educar o Povo de Deus para o valor do silêncio. Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncioCf. Santo Inácio de Antioquia, Ad Ephesios, XV, 2: Patres Apostolici (ed. F. X. Funk, Tubingae 1901), I, 224. e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher indivisivelmente da Palavra e do silêncio. As nossas liturgias devem facilitar esta escuta autêntica: Verbo crescente, verba deficiuntCf. Santo Agostinho, Sermo 288, 5: PL 38, 1307; Sermo 120, 2: PL 38, 677.

Que este valor brilhe particularmente na Liturgia da Palavra, que "deve ser celebrada de modo a favorecer a meditação"Ordenamento Geral do Missal Romano, 56.. O silêncio, quando previsto, deve ser considerado "como parte da celebração"Ibid., 45; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 30.. Por isso, exorto os Pastores a estimularem os momentos de recolhimento, nos quais, com a ajuda do Espírito Santo, a Palavra de Deus é acolhida no coração.

Proclamação solene da Palavra de Deus[]

67. Outra sugestão feita pelo Sínodo foi a de solenizar, sobretudo em ocorrências litúrgicas relevantes, a proclamação da Palavra, especialmente do Evangelho, utilizando o Evangeliário, conduzido processionalmente durante os ritos iniciais e depois levado ao ambão pelo diácono ou por um sacerdote para a proclamação. Deste modo ajuda-se o Povo de Deus a reconhecer que "a leitura do Evangelho constitui o ápice da própria liturgia da Palavra"Ordenamento das Leituras da Missa, 13.. Seguindo as indicações contidas no Ordenamento das Leituras da Missa, é bom valorizar a proclamação da Palavra de Deus com o canto, particularmente o Evangelho, de modo especial em determinadas solenidades. A saudação, o anúncio inicial: "Evangelho de Nosso Senhor…" e a exclamação final "Palavra da salvação", seria bom proferi-los em canto para evidenciar a importância do que é lidoCf. ibid., 17.

A Palavra de Deus no templo cristão[]

68. Para favorecer a escuta da Palavra de Deus, não se devem menosprezar os meios que possam ajudar os fiéis a prestar maior atenção. Neste sentido, é necessário que, nos edifícios sagrados, nunca se descuide a acústica, no respeito das normas litúrgicas e arquitetônicas. "Na construção das igrejas, os Bispos, valendo-se da devida ajuda, procurem que sejam locais adequados à proclamação da Palavra, à meditação e à celebração eucarística. Os espaços sagrados, mesmo fora da ação litúrgica, revistam-se de eloquência, apresentando o mistério cristão relacionado com a Palavra de Deus"Propositio 40.

Uma atenção especial seja dada ao ambão, enquanto lugar litúrgico donde é proclamada a Palavra de Deus. Deve estar colocado em lugar bem visível, para onde se dirija espontaneamente a atenção dos fiéis durante a liturgia da Palavra. É bom que seja fixo, esculturalmente em harmonia estética com o altar, de modo a representar mesmo visivelmente o sentido teológico da dupla mesa da Palavra e da Eucaristia. A partir do ambão, são proclamadas as leituras, o salmo responsorial e o Precônio pascal; de lá podem ser feitas também a homilia e a leitura da oração dos fiéisCf. Ordenamento Geral do Missal Romano, 309.

Além disso, os Padres sinodais sugerem que, nas igrejas, haja um local de honra onde se possa colocar a Sagrada Escritura mesmo fora da celebraçãoCf. Propositio 14.. Realmente é bom que o livro onde está contida a Palavra de Deus tenha dentro do templo cristão um lugar visível e de honra, mas sem tirar a centralidade que compete ao Sacrário que contém o Santíssimo SacramentoCf. Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 69: AAS 99 (2007), 157.

Exclusividade dos textos bíblicos na liturgia[]

69. O Sínodo reafirmou vivamente também aquilo que, aliás, já está estabelecido pela norma litúrgica da IgrejaCf. Ordenamento Geral do Missal Romano, 57., isto é, que as leituras tiradas da Sagrada Escritura nunca sejam substituídas por outros textos, por mais significativos que estes possam parecer do ponto de vista pastoral ou espiritual: "Nenhum texto de espiritualidade ou de literatura pode atingir o valor e a riqueza contida na Sagrada Escritura que é Palavra de Deus"Propositio 14.. Trata-se de uma disposição antiga da Igreja que se deve manterVeja-se o cânon 36 do Sínodo de Hipona do ano de 393: DS 186.. Face a alguns abusos, já o Papa João Paulo II lembrara a importância de nunca se substituir a Sagrada Escritura por outras leiturasCf. João Paulo II, Carta ap. Vicesimus quintus annus (4 de Dezembro de 1988), 13: AAS81 (1989), 910; Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instr. sobre alguns aspectos que se devem observar e evitar em relação à Santíssima Eucaristia Redemptionis sacramentum (25 de Março de 2004), 62: Ench. Vat. 22, n. 2248.. Recorde-se que também o Salmo Responsorial é Palavra de Deus, pela qual respondemos à voz do Senhor e por isso não deve ser substituído por outros textos; entretanto é muito oportuno poder proclamá-lo de forma cantada.

Canto litúrgico biblicamente inspirado[]

70. No âmbito da valorização da Palavra de Deus durante a celebração litúrgica, tenha-se presente também o canto nos momentos previstos pelo próprio rito, favorecendo o canto de clara inspiração bíblica capaz de exprimir a beleza da Palavra divina por meio de um harmonioso acordo entre as palavras e a música. Neste sentido, é bom valorizar aqueles cânticos que a tradição da Igreja nos legou e que respeitam este critério; penso particularmente na importância do canto gregorianoCf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 116;Ordenamento Geral do Missal Romano, 41.

Particular atenção aos cegos e aos surdos[]

71. Neste contexto, queria também recordar que o Sínodo recomendou uma atenção particular àqueles que, por causa da própria condição, sentem dificuldade em participar ativamente na liturgia, como por exemplo os cegos e os surdos. Na medida do possível, encorajo as comunidades cristãs a providenciarem instrumentos adequados para ir ao encontro da dificuldade que padecem estes irmãos e irmãs, para que lhes seja possível também estabelecer um contato vivo com a Palavra do SenhorCf. Propositio 14.

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